in revista Continente Multicultural, nº 33, págs. 34 a 37, 2003.
Por Cláudia Reis

CR.: Após tanta polêmica sobre sua vida pessoal nos maiores jornais e nas tv’s do país, onde se configura não só o banido da “República” de Platão, o grande poeta, mas outros tantos “brunos”, poderia nos dar um perfil abrangente do homem Bruno Tolentino, hoje? Quem é Bruno Tolentino?

Bruno Tolentino (63): Olha, não é fácil avaliar-se a si mesmo, especialmente a quem lhe importa sobretudo o prodigioso trabalho da graça divina sobre o sempre iminente desastre humano. Por exemplo: à meia-noite o citado Fulano de Tal invariavelmente me parece um pobre diabo que a Providência insiste em cobrir de favores inexplicáveis e acaba por constranger com uma pletora de dons cada vez mais difíceis de justificar pelo bom uso. Em favor do pilantra pode-se, talvez, alegar uma integridade intelectual que reconhecidamente nunca esteve no balcão das conveniências e cambalachos; com maior ou menor justiça, já fui acusado de vários tráficos, de divisas, de drogas, de armas, mas nunca de tráfico de influência! Nesse sentido, Antônio Houaiss, escrevendo sobre OS DEUSES DE HOJE, em 1996, refere-se a este marginal nato como “o intérprete destes tempos que não busca o compadrio dos expertos e artimanhosos…” Com efeito: fiz inúmeros amigos no sub-mundo, troquei a universidade pela cadeia e de ambas saí com um nome limpo, pois nunca tive nada a ver com o crime organizado, muito menos com a versão dele que assola a República das Letras. É possível que meu traço mais inamovível seja mesmo certa ingenuidade quase infantil frente à relação arte-vida, o que certa vez levou Ungaretti a me apresentar a Carlo Levy como sendo “o único gênio retardado que eu conheço” (l’único genio deficiente che io conosca).

Quanto a um outro traço meu bem mais deplorável, a língua ferina entortada pelo vício da ironia, quando não do sarcasmo, Christiane Martin du Gard dizia à Paris dos anos 70 que se tratava de uma espécie de “anjo do mal a serviço do bem” (l’ange du mal au service du bien). Espero bem que não se enganasse, mas disso não sou obviamente o melhor juiz… Já Samuel Beckett, apresentando supõe-se que o mesmo personagem à Franco-Irish Society em 1981, dele disse que “este vertiginoso imprudente” (ce vertigineux imprudent) seria uma espécie de “pendant” literário do sujeito que “não sabendo que era impossível o que se propunha fazer, foi lá e o fez…” (tha guy who, not knowing it was impossible to do it, went there and did it). Mas me comove bem mais o que li recentemente de um poeta que tenho em alta conta como artista e como homem: este carioca metido a inglês seria um bocó que “dedicou a vida ao serviço de Deus e da Poesia com coragem jesuítica e humildade franciscana…” Tomara, ou antes: quem dera, porque si non è vero è bem trovato !

CR.: Em polêmica intelectual você substituiu à altura o excelente José Guilherme Merquior, levando-o a ser odiado por certas pessoas de certas correntes intelectuais do Brasil. Segundo Paulo Polzonoff Jr, artigo para o jornal Rascunho, de Curitiba, você “é odiado porque é bom”. O lançamento do seu livro O Mundo como Idéia, em relação à poesia, uma arte sempre subestimada nesta sociedade frívola de consumo, teve uma acolhida crítica altamente positiva, fazendo qualquer ódio se recolher. Que significa esse livro para você?

BT.: Bem, aqui, sem falsas modéstias, devo me confessar absolutamente desconcertado não só com o ruidoso eco na imprensa, mas com o contínuo sucesso de vendas do meu trabalho mais difícil, um livro enorme, caro e complexo, o qual imaginei viesse a necessitar de duas ou três décadas para ser lido e digerido. Note-se que não digo aceito e admirado, isso jamais esteve em meus cálculos. Afinal trata-se de um libelo contra o subdesenvolvimento intelectual, o vício nacional da ideologia, e sobretudo, espero eu, de um cheque-mate às utopias formalistas e aos populismos terceiro-mundanos que devastaram nossa cultura nos últimos 50 anos. Mas vê-se que a diagnose que proponho dessa patética catástrofe mexe mesmo com a consciência profunda de nossa gente, sobretudo a dos jovens! Pode ser que meu espanto diante desse fato seja uma última arrogância inadvertida: afinal este país já teve, como seu gênio máximo, um Machado de Assis inimigo jurado e satirista insuperável destas mesmas tristes moléstias, haja vista sua caricatura do “filósofo” Quincas Borba em 1880… E ainda assim, quand même! Que O MUNDO COMO IDÉIA tenha revertido a tendência do Prêmio Ermírio de Morais, jamais antes concedido a um escritor, menos ainda a um poeta, é alentador não só para seu autor, mas para a situção da poesia no país do telecoteco; mas que venha sendo lido, analisado e até cautelosamente saudado, por exemplo, na Rive Gauche du Tietê, ao ponto de obter um inédito segundo Jabuti para seu malcriadíssimo autor, convenhamos, é de estarrecer! Mas a cerise du gâteau fica para o inacreditável destaque que vem obtendo até mesmo em territórios ocupados pelo bárbaro de carteirinha, tais como a Rolha de S. Paulo, o boletim de resenhas do CNPQp, o caderno Mamais!, a UNICAMP, a UFF, a Cult, etc. Só está faltando mesmo os Caros Umbigos, mas a esse ritmo quem sabe onde vamos parar! Sei não, mas qualquer coisa me diz que daqui a pouco essa gente toda vai acordar e aí eu vou ter que emigrar para Jaboatão, me asilar na embaixada do Alaska ou abrir um cursinho de inglês para pingüins na Patagônia…


CR.: Apesar de confessar-se aristotélico, em
O Mundo como Idéia, uma reflexão lírica sobre a história da cultura ocidental, você entraria na República de Platão, embora a obra não seja, propriamente, como gostaria o filósofo, uma mimese de segundo grau, uma cópia da história. Na verdade, embora resista talvez a essa idéia, você é um poeta completo no sentido horaciano, lírico e satírico. Embora tenha livros satíricos, mesmo sua obra lírica está vazada pela sátira, diferentemente da poesia didática de Cabral, que usa a sátira episodicamente. E por que diz que sua admiração é Ovídio?

BT.: Em arte admira-se sobretudo o inalcançável, o que não se é por natureza e portanto não se faz por inclinação natural. Minha forma mentis será, sim, antes bem mais horaciana, ou mesmo virgiliana, do que sáfica ou pindárica, mas é em Ovídio que fui aprender a naturalidade da frase musical inseparável da sensibilidade profunda subjacente à fala da tribo. Sempre me horrorizou o poema que se afasta orgulhosamente da fala comum, da comunicação natural, detesto todo maneirismo em arte e não vejo senão afetação no hermetismo tão ao gosto dos doutos sem assunto: afinal, o que se concebe com clareza se exprime com facilidade… Por outro lado, penso de um modo e escrevo de outro, a contra-pêlo do que me seria fácil, porque tampouco creio no espontâneo, desconfio tanto do rebuscado quanto do aparentemente conclusivo, daí que faça e refaça incansavelmente meus textos, e meus livros levem anos, décadas para encontrar a forma final. Se pudesse, escreveria ao modo escorreito de um Tasso, de um Baudelaire, da Emily Dickinson, e em especial à maneira dos meus mentores e amigos Ungaretti, Bonnefoy, Elizabeth Bishop, W. H. Auden; em casa imitaria a Fer-nando Pessoa, Sophia Andresen, Camilo Pessanha, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Adélia Prado, Ferreira Gullar, Alberto Cunha Melo… Mas na hora da verdade, para não sumir de todo ao pé de jequitibás tão frondosos quanto bem podados, tenho mesmo é que me espelhar em autores cuja complexidade resulta, não obstante a opulência da matéria, naquela difícil limpidez e exatidão que os afasta necessariamente de mim; quero dizer que não me avexo de tentar macaquear sobretudo Shakespeare, Dante, Eliot, Goethe, Milton, Leopardi, Yeats, Montale, Shelley, Keats, Donne, Marvell e Geoffrey Hill… E, claro, Ovídio, mas também Propertius e Catulo… Assim como é claro também que confrontar-me obsessivamente a eles me custa muito mais trabalho, são modelos que não param quietos, o que acaba sendo tanto mais irritante e desafiador quanto mais proveitoso. Acontece-me, aliás, de imaginar que os não imito assim tão mal algumas vezes, mas se assim for há que levar em conta que a ave nacional é o papagaio, e este aqui é um malandro renitente o bastante para levar quarent’anos a afinar uma só cuíca

CR. As experiências vanguardistas de Mallarmé, Apollinaire, E. E.Cummings e Pound repercutiram em alguns países no Ocidente. Para o crítico chileno J. M. Ibáñez Langlois, Pound influenciou, sozinho, “as última vanguardas hispano-americanas – a antepoesia, a poesia coloquial, a crônica poética, e a poesia narrativa”. No Brasil, a metástese configurou-se em movimentos como a Poesia Concreta, a Instauração Praxis, o Neo-Concretismo, e o Poema-Processo, para citar apenas os que constam nos livros colegiais. quando as vanguardas brasileiras se esgarçaram, falou-se que entramos na onda estética, surgida fora do país, e que se convencionou chamar de pós-modernismo. Baixada a poeira, há quem considere que as vanguardas, principalmente as formalistas, tinham um propósito construtivo, ao lado do propósito de “destruição do passado”, que seria o de dar ao poema uma autonomia formal, depois que a versolibrismo bagunçou o coreto e todo mundo se meteu a fazer poesia. Você reconhece esse mérito?

BT.: Merm’ão, falemos claro: o que inspira a produção de poesia é o fato de se ver fazer boa poesia, e as ditas vanguardas nunca fizeram absolutamente nada além de receituários, um atrás do outro e todos instantaneamente caducos. Nos ilustres exemplos acima citados, só presta o que tem eco e raíz na tradição, o Aprés-midi d’un faune de Mallarmé, o Mauberley de Pound, a Chanson du mal-aimé de Apollinaire, etc; quase todo o resto, inclusive desses mesmos autores, são receitas para um bolo que não fizeram e que quando alguém tentou fazê-lo mofou sem que ninguém lhe digerisse uma única fatia… Quanto ao versolibrismo, seja lá o que for hoje em dia, é preciso ser um Fernando Pessoa, um Saint-John Perse, um Drummond ou um Seferis para fazê-lo bem, senão é o que se vê (se vê, mas na verdade não se lê, daí que os tijolos mal-cozidos mofem nas estantes…). Como dizia o Eliot: nenhum verso é livre o bastante para quem quer fazer bem seu trabalho. Mas, atenção: não há nada demais em “se meter a fazer poesia”, o grave é a proibição de tentar fazê-la desse ou daquele modo, chega de nihilismos bocós, de desconstruções, de ismos e mesmismos, basta de DOI-Codis artístico-literários neste país! Vive la difference! Tal ou tal poeta se-meteu-a-fazer e ainda não sabe como? Pois que faça mais e mais até acertar a mão e o ouvido, eu quero é mais! As cordilheiras não se fazem de picos, fazem-se de sucessivas camadas invisíveis, de acumulações, inclusive as mais minúsculas, ou alguém acha que haveria algum Everest sem o primeiro metro-e-meio do Himalaia?

CR.: Em 1994, logo após a publicação de As Horas de Katharina, você voltou algumas vezes, fez palestras, participou de seminários, e estão nos arquivos da Fundação Joaquim Nabuco a sua Aula Magna, de abril de 1997, agora também reproduzida parcialmente, das páginas 43 a 53, no medular ensaio IV, “A Sombra da Carne & o Drama da Razão”, de O Mundo Como Idéia. Mas sua primeira grande polêmica, que por aqui funcionou como verdadeiro rastilho de pólvora incendiado, foi citar, nas páginas amarelas da revista Veja de 20 de março de 1966, um dos nossos poetas como um dos maiores da lírica brasileira. Ora, a crítica do sul do país, principalmente, vem alardeando, depois da morte de Cabral, que a poesia pernambucana não existe. Você concorda com esse argumento?

BT. Ora, ora, a “crítica” do sul maravilha ainda preocupa alguém! Será que estamos falando dos eternos marqueteiros da Paulicéia Desvalida? À parte Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles e mais um ou outro talento, como Chamie, Piva e Raduan, por exemplo, o que é essa gente em comparação com o resto do país? A poesia, a arte, o gênio nacional sempre vingaram no Nordeste ou nas Minas Gerais, enquanto tudo convergia para a Corte, que obviamente nunca se saiu muito mal, com Machado, Cecília, Vinícius… Hoje em dia, cem anos depois de S.Paulo ter começado a aparecer no mapa artístico-cultural do país, há uma chance de que, com o enraizamento de novas levas de imigrantes, sobretudo do Norte, miscigenados aos netos e bisnetos de imigrantes europeus e levantinos (que construíram uma metrópole vibrante mas artisticamente tão débil quanto presunçosa), pode ser que essa nova fermentação venha a produzir grande arte. Há sinais disso. Mas até lá, são os do Norte que têm e fim de papo! Ou será por acaso que hoje, neste exato instante, nossos três maiores vates sejam o maranhense Gullar, a mineira Adélia e o pernambucano Cunha Melo? Minas anda mal das pernas, mas no Nordeste não há desníveis flagrantes entre o mais alto e o imediatamente contígüo, a média é altísssima. E sempre foi assim por aí, o que esperamos é que a moda pegue por cá

CR.: A IV Feira Internacional do Livro, a se realizar entre os dias 4 a 12 de outubro, do corrente ano, aqui em Pernambuco, vai ter como homenageada a Geração 65. Ela nasceu silenciada pela ditadura política e pela ditadura estética das vanguardas brasileiras, paradoxalmente ao advento da televisão no país que presumia uma democratização da informação, da boa informação. As vanguardas tinham níveis de recepção invejáveis e, numa geografia abrangente, podemos observar que, rumando do Sul para o Norte, uma inquietante sombra obscurece a produção literária de escritores das décadas de 70 e 80. Salvo exceções episódicas nenhum poeta da Geração 65 aderiu a essas vanguardas, reforçando assim o já famoso isolacionismo da poderosa mídia do Sul, em relação ao resto do país. Alberto da Cunha Melo, Almir Castro Barros, Ângelo Monteiro, Lucila Nogueira, Marco Polo, Marcus Acciolly, Tereza Tenório, para citar aqui, entre aproximadamente trinta escritores, aqueles que tiveram obras recentemente lançadas, são poetas dessa Geração. Qual a sua opinião sobre a poesia produzida por eles?

BT.: A mim, em todo caso, nunca me aconteceu de ler um só mau poeta pernambucano… O desconhecimento nacional da estupenda safra de vates da Geração 65, cujo pano-de-fundo me parece bem descrito na pergunta, é simplesmente um escândalo, e temo que tenha sido um escândalo deliberado, inclusive com a cumplicidade de alguns conterrâneos de maior projeção pessoal no Sul Maravilha. Aliás, é esse um traço lastimável do Rubro Veio, vocês vivem cortando os pulsos uns dos outros, deve ser coisa de nordestinado, nisso só os cearences não são tolos. Por isso mesmo sempre mandaram ver, quando não mandaram no Brasil… Se os pernambucanos fossem unidos como eles e adoráveis como os baianos, punham Pindorama no bolso, o MASP, por exemplo, estaria no Recife, afinal foi um nordestino quem o concebeu e fez… Porque não é só na poesia que a turma aí é de primeira, a pintura também é impressionante. Mas Deus sabe o que faz: assim, enquanto vocês fingem que não se lêem, não se vêem e não se conhecem, sobra um pouquinho para nós aqui por baixo… Mas já são horas de acordar, minha gente, afinal até nosso Presidente já é pernambucano! E, cá entre nós, parece que a USP anda buzina com ele…

 

CR.: Você afirmou, recentemente, que “Poesia é fonte, prosa é água de balde…” Poderia explicar melhor essa afirmativa?

BT.: Afirmativa não, provocação, um arroto à mesa com o fim de instigar o debate sobre uma questão crucial na qual se tem pensado pouco por aqui. A equação é simples: há água de fonte e água encanada, a que sai da torneira a um mero gesto distraído da mão, uma água que é sempre água, claro, mas que ainda assim é e não é a mesma. Há aquele elemento vital que surge das profundezas, e há a poça, o açude, a represa… Mas deixemos a metáfora, até porque não há nada demais na trans-formação de uma nascente em canal de irrigação, por exemplo. O fato é que a linguagem profunda de um povo é sempre musical, ou seja, vem do ventre telúrico, obscuro, elementar, do mistério humano, como no famoso soneto de Rilke (O Brunnen-Mund, du Gebender, du Mund…) sobre a “boca da fonte” com que a terra se fala a si-mesma no “ouvido de mármore de um tanque…” A poesia nasce dessas profundezas e mobiliza as forças do ser inteiro a partir das raízes do sentimento rumo aos cumes do entendimento. A prosa dita “de ficção” é um fenômeno recente, mais uma inflamação pós-renascentista, ou seja, um sinal do declínio das faculdades superiores do espírito humano, o abandono do campo do espírito – que é sempre uno, a um tempo aglutinador e analítico – às parvices conceitualizantes do meramente especulativo; para este, de resto, sempre houve a filosofia, o ensaio reflexivo que, estes sim, são do domínio da mente total e alerta, onde a vida do espírito não se abandona ao aleatório nem se deixa contaminar pelo simplesmente instintual. A paixão do anedótico é o exato oposto do espírito de síntese, e este pertence por natureza à linguagem da emoção elucidada. Eliot observa que onde a emoção se adensa a mesma prosa começa a ritmar-se, a beirar aquele transbordamento da percepção na iluminação que chamamos “poesia”, trate-se de verso ou não. Não é à toa que o poema em prosa nasce do desconcerto existencial oitocentesco, das falências e carências da emoção às turrras com a reflexão no século XIX. Note-se, nesse sentido, que o romance, por exemplo, só se firma no século XVIII, na esteira da baboseira iluminista, essa mãe-madrasta de todas as bisbilhotices. Ilustra esse ponto o fato, por exemplo, de que ao ápice de seu embasbacamento, o século de Kant, que sucede ao de Descartes e precede o de Hegel (A Chatíssima Trindade), o século XVIII não produziu um só poeta maior, nenhum verdadeiramente grande; em compensação, a esterilidade emocional-reflexiva era de tal ordem por aqueles tempos que até Voltaire “se meteu a fazer poesia”… Nessa perspectiva, Goethe, a rigor, não é um contemporâneo do intrigante Gepetto de Candide, menos ainda um cupincha do Idealismo Alemão (que seria mais cor-reto chamar de conúbio franco-germânico, daí o parentesco da Guilhotina com o Forno Crematório de Auschwitz…). Nada disso, o mestre do Dichtung und Warheit é um tradutor do uno no vário, um mediador, se quisermos, do espírito do classicismo no tumultuoso Stimung do primeiro romantismo, o de Novalis, Schiller, Hoelderlin, Heine, Blake, Nerval… Todos, observe-se, vozes do século seguinte, o XIX, o século em que nasce a figura do poeta maldito, que é quando a poesia rompe com o status quo, e a prosa, ainda que grandiosa em seus primórdios, passa a imperar, cada vez mais travestida de aia de luxo da Dama Idéia. O processo parece irreversível, mas o irremediável, o incurável, não indicam nenhuma superioridade da doença sobre o corpo sadio, é apenas uma fatalidade, uma, no caso, particularmente lamentável. Porque, se tivemos Tolstoy, Balzac, Flaubert, Dostoi-ewski, Austen, Dickens, Machado, Conrad, Checov, Proust, Borges, James, Mann, Joyce, Musil, Faulkner, e tantos outros cimos da mais fina arte de prosa, em compensação a poesia foi gradual-mente sumindo ou se encolhendo, até virar letra de canção nas periferias mais desvalidas… A coisa anda tão mal das pernas em certas filiais do Congo que, hoje em dia, até inteleco-teco-tuais ganham diploma de poeta porque usaram ao mesmo tempo duas rimas e três neurônios…

 

CR.: Nestes tempos em que cada vez mais se reivindica uma universidade pragmática e aliada ao desenvolvimento tecnológico, é bom lembrar o que disse Otto Maria Carpeau, em seu livro A Cinza do Purgatório: “As velhas universidades são de utilidade muito reduzida. Elas não formam homens práticos; formam o tipo ideal de nação: o lettré, o gentleman, o gebildeter”. Para ele, estas forjaram ” a história espirirual das nações”. Entre os dois tipos, com qual se identifica a universidade brasileira? Com qual deles você se identifica?

BT.: O homem moderno está infelicíssimo com o cadáver de um rei inchado na barriga… É o cadáver do humanismo prometéico que há cinco séculos vem “nascendo” aos pedaços: o racionalismo, o ateísmo, o espiritismo, o positivismo, o cientificismo, o darwinismo, o marxismo, o impressionismo, o expressionismo, o dadaísmo, o surrealismo, o cubismo, o vanguardismo, o dodecafonismo, o comunismo, o fascismo, o stalinismo, o terceiro-mundismo, o existencialismo, o satanismo, o sadhanismo, o bushismo , o budismo, o pacifismo, o peronismo, o cheguevarismo, o fidelcastrismo, o modernismo, o pós-modernismo, o nudismo, o pós-nudismo, o versolibrismo, o desconstrucionismo, a Marxilenaxuxauí, o Santo Daime e o Doutor Enéas, sem falar da USP e do pós-uspianismo… Tudo isso por aqui deu no Gianotti, no Fernandinho Beira Mar, no Elias Maluco, no casal Garotinho e no Piscinão de Ramos, enquanto por lá deu na arte do genoma e da clonagem, ou seja, no bebê de proveta com a Líbia do Doutor Gadhafi de guardiã dos direitos humanos segundo a ONU… Em meio a um tão animado bundalelê, meus amigos, eu não prefiro esta ou aquela universidade, prefiro ler Dante e aguardar a Paurosia, afinal, que os mutantes se divirtam, eu creio no Divino Espírito Santo, na Santa Igreja Católica Apostólica, na remissão dos pecados, na comunhão dos santos, na ressurreição da carne e na vida eterna, Amém.