Régis Bonvicino nasceu na cidade de São Paulo, em 25 de fevereiro de 1955. Formou-se em Direito pela USP, em 1978. Estreou na imprensa, já como escritor, em 1975, no Jornal do Arena. Trabalhou como articulista do Jornal da Tarde, da Revista Isto é, e da Folha de S. Paulo até 1989, entre outros empregos. Foi militante ativo pela redemocratização do país a partir de 1974.  Ingressou na Magistratura, em 1990. Seguiu colaborando na Folha e iniciou sua colaboração em O Estado de S. Paulo, em 2000. Manteve uma coluna no Portal iGem 2008 e 2009. Tem quatro filhos: Bruna, 17, e Felipe, nascido em 25 de maio de 2010, de seu casamento (1992) com a psicanalista Darly Menconi. E João, 30, e Marcelo Flores, 23.

A mídia apática

Entrevista de Régis Bonvicino a Maria Mello

Maria Mello: Qual o panorama do jornalismo cultural, nos dias atuais?

Régis Bonvicino: O jornalismo cultural inexiste nos grandes jornais impressos, na TV, no rádio e nos portais. Ele existiu no jornal impresso, mas, desde a queda do Muro de Berlim, começou a ser esvaziado pelo “pensamento único”, pelas imposições do “mercado”, pela ideia exclusiva de negócio, por “colunistas” estrangeiros – como se não houvesse intelectuais no país. Há a questão dos grupos, que controlam páginas culturais e editoras. As empresas jornalísticas são mais realistas que o rei. Como observa Leda Tenório da Motta, os jornais estão sob “censura” – autocensura, preferindo o fato econômico ou o simplesmente fácil ao cultural, embora sejam milionários. A Lei Rouanet transformou a cultura em objeto de comunicação social. Ninguém ousou criticá-la sistematicamente. Não há cultura pública, tampouco mercado de verdade para a cultura. É o conceito de patrocínio, de patrão que prevalece. Os agentes culturais são responsáveis por essa situação também. Às vezes, os jornais produzem críticas, mas apenas para encobrir o fato de não mais serem críticos, para disfarçar – a crítica é mero contraponto para seu projeto de divulgação, de copiar press releases, de atender a interesses de gravadoras, editoras – como a Companhia das Letras –, de galerias, de museus, de casas de shows etc. De atender idiossincrasias de seus proprietários. Tática simples: escolhem um único crítico duro, que, de tempos em tempos, escreve alguma coisa, para poderem liberar divulgação para os demais, o merchandising para os demais. Por outro lado, o nível dos jornalistas culturais caiu muito. Existem pessoas escrevendo sobre literatura que são analfabetas funcionais. Há jornais, como o Estado de S. Paulo, que têm um perfil claro e, por isso, não precisam de tanta análise, mas há outros que precisam dos intelectuais e, entretanto, por razões desconhecidas, abriram mão deles. Esses jornais perderam seu perfil analítico, seu elã. Parece que vão fechar as portas a qualquer momento. Lembram-me demais o fracassado USA Today. Pura snack culture. Os portais são ainda amadorísticos, mas são o futuro, próximo. Os jornais brasileiros, com as fórmulas correntes, tendem a morrer. Já estão mortos, na verdade. É uma pena. A Folha ainda repercute, o que é bom. Nenhum jornal brasileiro tem o nível do The New York Times ou do El País. O curioso é que são ostentatórios: páginas coloridas, fotos, gráficos, cadernões etc. Jornal bom não tem coluna social – como os daqui. E os que mencionei são sóbrios. Outro problema: os locais são provincianos – o Brasil não faz parte do mundo. A TV é um caso de polícia no Brasil. A lei não é cumprida no que se refere à sua dimensão pública. Na verdade, a cultura é desprezada e os meios de comunicação ecoam isso. Acho que a isenção tributária ao papel-jornal deveria acabar. A liberdade de imprensa é um produto e deveria ser submetida – como tal – ao Código de Defesa do Consumidor.

Maria Mello: Como é a crítica para essa mídia?

Régis: É insuportável. Ela quer vender, o que, aliás, não consegue, paradoxalmente, e não analisar. Ela não pode levantar suspeitas – que é o papel da crítica. Essa imprensa brasileira de hoje é quase toda “oficial”, dependente do jogo político de verbas de publicidade. O melhor jornal de agora é o Jornal das Dez, de André Trigueiro, da Globo News. Por incrível que pareça, a Rede Globo é, de longe, melhor que os jornais, tem mais coerência, mais padrão, mais produtos etc. Falar em crítica ante um SBT, uma Record – com dinheiro do dízimo –, ante os horários sublocados para as Igrejas na Gazeta e na Bandeirantes, é impossível. O que dizer dos jornais dos políticos como José Sarney? Por exemplo, a Rádio CBN é melhor que muitos jornais impressos. No entanto, do ponto de vista histórico, o Estadão é o mais significativo jornal brasileiro e mantém sua dignidade. A Folha tem momentos vivos, ainda.

Maria Mello: Como é a formação do crítico literário? Quais os críticos de referência no jornalismo cultural hoje?

Régis: Ele precisa ter treinamento acadêmico, mas isso não garante nada. O crítico precisa ter capacidade de análise e coragem. Além de proficiência. Cito um que considero um paradigma positivo: Alcir Pécora. E outro, um paradigma negativo: Roberto Schwarz. Os jornais reúnem um pelotão de amadores para fazer crítica – isso fala por si só. A imprensa dá espaço para manés falarem sobre literatura. Absurdo inexplicável.

Maria Mello: Como é feito o texto no jornalismo cultural?

Régis: Às pressas, sem cuidado ou reflexão. É preciso que se recupere a ideia de crítica regular de música erudita, de literatura, de artes plásticas, de dança, de museus, de teatro etc. Menos rock, menos MPB (um defunto), por favor. Menos cronistas, por favor. Aprendi a gostar de cinema lendo Orlando Fassoni na Folha e Rogério Sganzerla no Estadão, que, aliás, tem Luis Zanin – o único crítico de cinema de nossa imprensa. Sou do tempo do Suplemento Cultural de O Estado de S. Paulo e admirador da página Poesia/Experiência (anos 1950) do poeta Mário Faustino, no antigo Jornal do Brasil. A Folha mesmo editou suplementos superiores ao Mais!, como Folhetim e Letras. E o próprio Mais! já foi superior ao de hoje. Os suplementos de O Globo são medíocres, embora o jornal seja bem informativo.

Maria Mello: Fale sobre seu trabalho como escritor, editor, crítico, articulista.

Régis: Sou um poeta e os outros “heterônimos” surgem da necessidade. Não sou um crítico de abrangência: minha área é o contemporâneo.

Maria Mello: A crítica ainda existe, com rigor, ou podemos dizer que quem paga leva uma boa crítica de seu produto, “o famoso jabá”; isso acontece?

Régis: Por exemplo, raramente vejo um livro da Companhia das Letras duramente criticado nos jornais. Vejo a mediana Festa Literária de Paraty ser saudada como a melhor do universo. E o pior é que não leva público.

Maria Mello: O senhor é muito jovem e suas obras já foram traduzidas para vários idiomas, o que, para muitos, já seria um trabalho completo, finalizado; o que pensa do futuro? Tem algum projeto em andamento?

Régis: Não sei se sou tão jovem assim, tenho 54. Sou igualmente muito odiado como poeta por outros escritores etc. Não faço politiquinha literária. Não ganho esses prêmios. Tenho muitos projetos sempre. Um novo livro de poemas em andamento. A organização de minha obra. A edição de Sibila. Escrever para o iG. Só me vejo fazendo coisas. Vou morrer tocando guitarra, como diz Keith Richards. O que penso sobre o futuro? Testemunho um mundo bastante áspero, complexo, com elites acordadas com as máfias, com a democracia representativa em deterioração – um mundo sem ideias para enfrentar suas questões verdadeiras. Um mundo corrupto. Espero que, em curto prazo, se possa recuperá-lo com ideias eficazes, de justiça social, um mundo que coíba os abusos do capitalismo e preserve a natureza e que, a partir dela, haja mudança de modelo. Talvez eu seja um “poeta” mesmo.

Novembro de 2009

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