O nome do Folclore potiguar

 

Em homenagem ao Dia do Folclore, comemorado no dia 22 de agosto, a Saga Cultural conversou com Deífilo Gurgel, um dos principais folcloristas do Brasil

Texto: Carla Sousa

O Folclore é a ciência que estuda a cultura espontânea da gente dos campos e das cidades. Com essas palavras, de autoria do professor Rossini Tavares de Lima, de São Paulo, o pesquisador Deífilo Gurgel define uma de suas maiores paixões.

Assim como Câmara Cascudo, Deífilo é tido com um dos principais folcloristas desse país. A referência é consequência de uma vida inteira dedicada às pesquisas sobre o Folclore e suas tradições.

Aos 84 anos de idade, com a voz grave e pausada, as palavras bem humoradas e uma memória de fazer inveja a qualquer pessoa, Deífilo Gurgel ainda dedica boa parte de seu tempo ao intenso trabalho de pesquisas e publicações, como a mesma criatividade e disposição do início de sua carreira. Trabalho esse que ele pretende exercer até o fim de sua vida.

Natural do município de Areia Branca, Deífilo Gurgel chegou a Natal, em 1944, com 18 anos de idade, para cursar o colegial. Aos 25 anos de idade, casou-se com dona Zoraide, sua musa inspiradora, como ele mesmo faz questão de ressaltar. Os filhos foram nascendo – 9 no total – e o folclorista  se radicou de vez na capital, sem pretensões de sair. “Assim como Cascudo, eu acha que a matéria-prima do meu estudo está aqui. Me considero um provinciano incurável”, explica.

A intensa paixão de Deífilo pelo Folclore só aflorou em 1970, nos seus 44 anos de idade. “Na minha infância, lá na minha terra, em Areia Branca, havia alguns grupos folclóricos, dos quais eu tive a oportunidade de assistir o Bumba meu Boi e o Pastoril. Então, eu só me interessava pelo divertimento e não imaginava que aquilo fosse tão importante”, relembra o folclorista.

O tempo foi passando e, em 1970, Deífilo foi nomeado Diretor de Cultura do município do Natal, por João Faustino, que na época era secretário de Educação. “No fim desse mesmo ano, a administração municipal resolveu promover uma grande festa de Natal, com apresentação de grupos folclóricos. Eu fui encarregado de convocar e preparar esses grupos. Quando eu fui a São Gonçalo conhecer um desses grupos e vi aquele mundo de fitas esvoaçantes dos galantes dos mestres e os reflexos nos espelhos das coroas deles, eu fiquei deslumbrado”, explica.

A partir daí, o escritor passou a estudar outros grupos folclóricos e, por consequência, o Folclore em si. “É isso que tenho feito até hoje. Com raras exceções concedidas à poesia, ao que tenho me dedicado mesmo, de corpo e alma, é ao estudo do Folclore e espero continuar até o fim da minha vida. Eu nunca tinha me definido por um gênero das letras, fora a poesia. Mas, depois que eu comecei a pesquisar e ler os livros dos grandes estudiosos do Folclore, na proporção que eu ia me aprofundando, eu ficava cada vez mais apaixonado”, afirma Deífilo.

O pesquisador ainda se formou Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de Natal, em 1967. O folclorista nunca exerceu o Direito, mostrando sempre uma intensa ligação com a cultura, o que lhe levou para os caminhos da poesia e do Folclore.

Como poeta, escritor e pesquisador, Deífilo Gurgel atuou também como diretor do Departamento de Cultura da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Natal (SMEC), diretor de Promoções Culturais da Fundação José Augusto (FJA) e presidente da Comissão Norte-Rio-Grandense de Folclore. Nesses cargos, procurou sempre ajudar e divulgar a nossa cultura popular. “Todos os anos, eu organizava projetos e mandava para o Ministério da Cultura, solicitando dinheiro. O dinheiro vinha e agente preparava os grupos, que ficavam com tudo novinho, o instrumental e o guarda roupa”, relembra.

O pesquisador ainda foi professor de Folclore Brasileiro, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. “Eu lecionei por 12 anos. Primeiro, eu não gostava de ser professor. Me ‘empurraram’ para lá, como um boi quando vai para o matadouro. Mas, foi ótimo porque, além das pesquisas de campo que eu realizava, eu tinha que estudar o assunto para transmitir aos meus alunos. Eu aproveitei a condição de professor para realizar uma importante pesquisa, que durou 10 anos, de 1985 até 1995, denominada ‘Romanceiro Potiguar’. Com isso, eu conheci todo o Rio Grande do Norte. Nela, eu estudei os romances ibéricos, que vieram de Portugal para cá, e os que foram criados no país. Eu descobri coisas que ninguém podia imaginar em uma pesquisa desse tipo”, relembra.

As descobertas – Ao longo dos anos, o escritor se aprofundou nas raízes culturais do povo potiguar. Através de suas pesquisas, Deífilo teve boas surpresas e promoveu importantes descobertas para o Folclore Nacional.

Para o folclorista, um dos momentos mais marcantes de sua vida foi o encontro com o coquista Francisco Antônio Moreira, o Chico Antônio, no município de Pedro Velho.

Embolador de coco, Chico Antonio foi “descoberto”, no final da década de 1920, por Mario de Andrade, durante a viagem etnográfica que o escritor paulista fez ao Nordeste, entre os anos de 1927 e 1929. O autor ficou tão encantado com os versos improvisados do coquista que decidiu imortalizá-lo na sua obra, em Os Cocos, Danças Dramáticas do Brasil, Vida de Cantador, Turista Aprendiz e Melodias do Boi e Outras Peças.

Em consequência de seu intenso estudo sobre as danças folclóricas do RN, Deífilo leu Danças Dramáticas do Brasil. Nesse título, Mário reúne seus estudos em relação à música popular, captando a alma simples do povo e o verdadeiro folclore brasileiro. A obra constitui o que restou de um projeto muito mais amplo, do qual o escritor paulista desistiu ainda em vida. “Nesse título, ele fala de sua viagem como pesquisador, particularmente, sua estada em Natal. Nessa pesquisa, vez ou outra, Mário dava pequenas informações a respeito de Chico Antônio e dizia que ele, cantando coco a noite inteira e bebendo cachaça sem parar, ia se acabar muito cedo”, relembra Deífilo.

O escritor leu as referências de Mário de Andrade e acreditava mesmo que Chico Antônio devia estar morto. Então, entre 1979 e 1981, Deífilo iniciou uma pesquisa muito extensa sobre as danças folclóricas do RN, viajando todo o Estado. Em uma dessas viagens, de Touros para Pedro Velho, no último dia de trabalho, ele conheceu um senhor que disse existir na região um embolador de coco muito bom. “Seu Genard me disse que era Chico Antônio e me levou até ele. Quase morri do coração”, relembra o folclorista, com muito bom humor.

Outro momento marcante da vida de Deífilo foi a descoberta da maior romanceira do Brasil, Dona Militana, em São Gonçalo do Amarante, falecida em junho deste ano. Antes de chegar até ela, o escritor conheceu seu pai, na década de 70, quando realizava a pesquisa sobre as danças folclóricas do Estado.

“Uma dessas pesquisas foi com pai de Dona Militana, seu Atanásio, que tinha um Fandango, lá em São Gonçalo do Amarante, que estava inativo, mas ele sabia todas as jornadas e cantigas e cantou tudo para mim. Ele também cantou alguns romances, tanto os brasileiros como os ibéricos. Mas, ele não dava o menor valor a isso e me dizia que era um negócio sem futuro”, afirma o pesquisador.

Depois da morte de seu Atanásio, em 1985, Deífilo iniciou sua pesquisa sobre o romanceiro potiguar e lembrou do encontro que teve com o pai de Dona Militana. “Eu pensei que, se ele sabia os romances, alguma das filhas dele poderia saber também. Fui até lá e descobri que Dona Militana era a grande sabedora do cabedal de romances que ele tinha conhecimento. Ela disse que trabalha com o pai na roça, ele cantando e ela ouvindo aquilo tudo. Então, eu descobri a fabulosa informante, que ela era, do romanceiro ibérico e a fui promovendo. Depois vieram Dácio Galvão e Candinha Bezerra, que continuaram a promoção até o falecimento dela”, afirma o pesquisador.

De acordo com Deífilo, no Nordeste, muitas pessoas cantam romances ibéricos, mas não na quantidade e com a mesma qualidade que Dona Militana. O pesquisador ressalta que a maioria dos romances cantados por Dona Militana já haviam sido registrados em livros, mas nunca tinham sido musicados e, por isso, ele afirma que a romanceira tem uma importância transcendental para a cultura popular.

Os grandes nomes do Folclore nacional – Para Deífilo Gurgel, o país, principalmente o Nordeste, possui importantes folcloristas, mas alguns merecem destaque. “Para o Rio Grande do Norte, Cascudo e Mário de Andrade. Aliás, eu diria que Mário de Andrade ainda é mais importante que Cascudo, porque ele documentou os quatro autos populares brasileiros – Boi, Fandango, Chegança e Coco – em letra e música, coisa que ninguém jamais fez tão bem feito”, ressalta o escritor.

Para o Folclore de um modo geral, Deífilo destaca, no passado, Silvio Romero, do Sergipe; Pereira da Costa, de Pernambuco, e Gustavo Barroso, do Ceará. “Nos tempos modernos, Bráulio do Nascimento, Ático Vilas-Boa Corrêa, da Bahia, e Jackson da Silva Lima, do Sergipe têm feito um importante trabalho”, afirma.

O convívio com Câmara Cascudo foi outro importante momento da vida de Deífilo. “Eu toda vida fui muito inibido e tinha um relacionamento muito difícil com outras pessoas. Mas, mesmo assim, eu convivi um tanto com Cascudo e ele era uma pessoa espetacular. Quando eu lecionei Folclore Brasileiro, na Universidade, levei várias turmas para conversarem com ele e meu alunos saiam de lá deslumbrados”, relembra.

O folclorista ressalta que Cascudo tinha uma conversa erudita e, ao mesmo tempo, gostosa de ouvir. “Agente costuma falar da grande obra de Cascudo, que escreveu mais de 150 livros. Mas, para mim, o aspecto mais importante de Cascudo é o fato dele ter escrito tudo isso, em uma província pobre, culturalmente, como o Rio Grande do Norte”, afirma Deífilo.

A carreira de escritor – Com dez livros publicados, Deífilo continua sua produção literária e tem, pelo menos, mais três em desenvolvimento. Os primeiros títulos, como ele faz questão de ressaltar, foram cadernos simples. “Comecei com livros de poesia. O primeiro foi Cais da Ausência, depois Os Dias e as Noites, 7 Sonetos do Rio e Outros Poemas e, ainda de poesia, Os Bens Aventurados. De Folclore foram mais livros. Escrevi, primeiramente, Danças Folclóricas do Rio Grande do Norte, João Redondo – Teatro de Bonecos do Nordeste, Romanceiro de Alcaçus, Manual do Boi Calemba e Espaço e Tempo do Folclore Potiguar. Fora poesia e Folclore, eu publiquei o livro Areia Branca – A Terra e a Gente, que é um ensaio sobre a minha terra. É o livro mais volumoso que eu tenho, com, mais ou menos, 400 páginas”, lista o autor.

O escritor vem trabalhando, há cerca de um ano, em um novo livro sobre as tradições folclóricas do Município de São Gonçalo do Amarante. “Está chegando ao fim. É um livro chamado São Gonçalo – O País do Folclore, que deverá sair ainda este ano, dentro do aniversário de 300 anos do município”, explica.

Fora esse título, o folclorista pretende lançar o seu Romanceiro Potiguar, que deverá ter umas 400 páginas, e um livro de contos populares, com histórias do Diabo. “Enquanto eu fazia essa pesquisa sobre o romanceiro, foram aparecendo umas histórias do demônio, que Cascudo também pesquisou, mas foram poucas. Nessa minha pesquisa saíram várias histórias dessas aí e eu, então, separei todas elas e vou fazer um livrinho chamado Diabo a Quatro”, afirma Deífilo.

O folclore hoje – Deífilo Gurgel conheceu todo o Rio Grande do Norte, durante 4 décadas de pesquisas, documentadas em livros que refletem a riqueza da cultura popular do Estado. Nessa trajetória, além do coquista Chico Antônio e da romanceira Dona Militana, o folclorista, muitas vezes sem apoio algum, também deu vida ao maior mamulengueiro do Brasil, Chico Daniel, e trouxe à baila Manoel Marinheiro, além de outros nomes do Folclore nordestino.

Para Deífilo, as tradições folclóricas não vivem hoje o mesmo apogeu do passado, quando ele descobriu sua paixão pelo tema. “O Folclore tem umas fases de explendor e outras de decadência. Essa coisa antigamente era feita com os brincantes saindo nas ruas e pedindo ajuda às pessoas, que sempre colaboravam. Daí, eles compravam aqueles panos, aprontavam o grupo e brincavam no fim do ano”, relembra o pesquisador.

Segundo o folclorista, não existem registros oficiais do início do Folclore, nem mesmo na obra de Cascudo. “Mas, como Mário de Andrade disse, essa coisa toda deve ter começado aqui no Rio Grande do Norte, em 1790. Havia algumas coisas antes, mas era muito disperso, com um reisado aqui, outra dança lá. Em 1890, organizaram isso tudo em cadernos, que serviram para os mestres formarem seus grupos, de Fandango, Chegança, Boi, Pastoril, Lapinha. Mas, em 1930, veio o advento dos meios de comunicação de massa, principalmente a televisão, que esculhambou com tudo”, afirma.

“Hoje em dia, ninguém vai sair de casa para ver um grupo desse se apresentando. As pessoas preferem ver as novelas, os jornais e só quando acontece eventos como um seminário, os estudiosos vão, porque o povo não vai. Os grupos entraram em decadência, mas, vez ou outra, aparecem algumas pessoas com interesse de reorganizar isso. Agora, o foco está no município de São Gonçalo e em Pedro Velho também, mas sem contar com muita ajuda”, lamenta Deífilo.

O pesquisador conta que existe um estudioso ou outro, que faz um esforço supremo e vai levando os grupos adiante. “Precisaria ter uma proteção oficial e isso, modéstia a parte, eu fazia bem quando estava lá na Fundação José Augusto. Todos os anos, eu organizava projetos e mandava para o Ministério da Cultura, solicitando dinheiro. O dinheiro vinha e agente preparava os grupos, que ficavam com tudo novinho, o instrumental e o guarda roupa”, ressalta.

A solução para Deífilo seria uma reorganização das entidades competentes. “Eu acho que as comissões folclóricas do país todo estão priorizando os estudos teóricos e deixando a parte prática da história, que é a promoção dos grupos folclóricos, de lado. O Rio Grande do Norte é privilegiado por ter ótimos grupos”, analisa o folclorista, que ainda lamenta a falta de conhecimento e interesse das novas gerações pelo tema. “Quando eles se interessam é de uma maneira diferente, com uma espetacularização da coisa. O Folclore tem que ser respeitado da maneira que ele sempre existiu no Estado, ou onde ele existir, e continuar da mesma maneira. Isso tem que ser levado para dentro das escolas, não só na forma didática, mas com apresentações dos grupos, para que os alunos vejam como eles são e se apresentam”, finaliza o folclorista.