Autor Cláudio Villa – Foto Divulgação

A entrevista a seguir foi concedida a Ademir Pascale, editor, escritor, roteirista, crítico de cinema, ativista cultural, criador do Portal Cranik: e do Projeto de Inclusão Social “Vá ao Cinema!”. Colunista de diversos sites culturais, é também editor do site Divulga Livros:

Ademir Pascale: Como foi o início de Cláudio Villa na literatura?

Cláudio Villa: Desde criança eu sempre gostei de escrever e ao contrário dos meus colegas de escola adorava as aulas de redação. Como a maioria dos adolescentes eu comecei escrevendo poesias e às vezes, no meio da madrugada, acordava e não conseguia dormir até escrever uma página mesmo que o texto ao final não fizesse muito sentido. Quando eu conheci minha esposa em 1998 eu acabei deixando as poesias de lado e passei a escrever histórias. Nesse mesmo ano eu tentei escrever meu primeiro livro, uma história sobre um personagem com o qual jogava R.P.G (Role Playing Games). O livro acabou com cem páginas, mas o resultado não me agradou e acabei deixando ele de lado.

Ademir Pascale: Por favor, fale-nos um pouco sobre a sua obra “Pelo Sangue e Pela Fé”. Como surgiu a idéia inicial para a criação desta obra?

Cláudio Villa: Pelo Sangue e Pela Fé começou a surgir em meados de 2001. Na época eu participava de um grupo chamado “O Graal” que organizava jogos de R.P.G ao vivo (Live Actions). Nesses jogos, ao invés de ficarmos ao redor de uma mesa, nós nos vestíamos como os personagens e passávamos o dia perambulando por um sítio enorme interpretando nossos personagens. Para poder participar do jogo eu precisava criar um personagem e escrever brevemente sobre seu passado. Acabei saindo com o Jonathan Devilla e uma história de uma página que se tornaria a base do livro.

Eu joguei com Jonathan ao longo de três anos e lentamente fui conquistando, através da interpretação, um espaço e o respeito entre os jogadores. Em 2001 eu me vi obrigado a ficar afastado dos jogos por um problema de saúde e fui convidado pela organização a escrever algumas tramas para os lives.

Terminado esse período, achei que juntando as experiências vividas em jogo juntamente com o que eu havia criado daria uma boa história e passei daí a converter isso em um livro.

Para não estender muito a resposta, “Pelo Sangue e Pela Fé” trata da história de Jonathan, um jovem soldado que luta contra a província vizinha, habitada pelos demoníacos Elfos da Lua. Porém, quando a guerra toma um rumo inesperado, Jonathan terá na fé seu maior aliado enquanto uma ameaça muito maior do que esse conflito se forma lentamente no horizonte.

Ademir Pascale: A obra “O Vento Norte” é uma continuação de “Pelo Sangue e Pela Fé”?

Cláudio Villa: Não. Eu sou bastante crítico em relação a escrever livros em série, especialmente quando se é um autor iniciante. Eu quero que meu leitor, ao comprar o meu livro, tenha certeza que a história terá um fim e não que precisará esperar uma continuação para saber como ela acaba. Um autor novo pode levar anos até lançar um segundo livro e ao se escrever uma série você pode não só frustrar seu leitor (que terá de esperar pela continuação) como pode ter dificuldades futuras em vender a segunda parte do seu livro (já que existe a possibilidade do primeiro não estar mais disponível para venda). “O Vento Norte” passa-se no mesmo mundo só que vinte anos antes de “Pelo Sangue e Pela Fé”. Esse livro dará ao leitor a oportunidade de revisitar alguns lugares e conhecer o passado de alguns personagens comuns entre os dois livros, mas ambos podem ser lidos independentemente.

Ademir Pascale: Gostei muito do layout e conteúdo do site “Mundos de Mirr”. Quando ele foi ao ar?

Cláudio Villa: (Risos) Na verdade ele está bem novo, foi ao ar no dia 06/07/2008. Eu já vinha mantendo um blog atualizado semanalmente desde 2005, onde narro os desafios e dificuldades de ser um escritor de fantasia no Brasil. A Mirr Enciclopédia surgiu como um novo projeto que permitirá ao leitor explorar o mundo além do livro, conhecendo mais a fundo seus lugares e personagens favoritos. Esta wiki conta com uma equipe que é a mesma responsável pela criação do mundo, onde se passa minha história e que estará sempre adicionando novos conteúdos e expandindo o mundo. O blog continua com suas atualizações e artigos, mas agora é parte desse site maior.

Ademir Pascale: Você esteve na mesa redonda do simpósio de literatura fantástica Fantasticon? Se sim, como foi?

Cláudio Villa: Sim, participei da mesa “Os Desafios de Escrever Literatura Fantástica no Brasil” ao lado de pessoas maravilhosas como a Nazareth Fonseca, Cristina Lasaitis, J. Modesto e Nelson de Oliveira. Foi a minha segunda participação em uma mesa redonda e foi sem dúvida uma experiência fantástica. Essas mesas são para mim a oportunidade de transpor pessoalmente os pensamentos e idéias que se tornam textos em meu blog. Por mais que esses textos recebam comentários, o contato direto com o público e a oportunidade de debater idéias ao invés de simplesmente expô-las tem me enriquecido bastante. Além disso, esses eventos têm me colocado em contato com outros escritores, muitos com anos e anos de estrada na minha frente, e essa troca de idéias tem me ensinado muito.

Ademir Pascale: É verdade que os leitores brasileiros estão se interessando mais pela literatura fantástica? O que você acha disso?

Cláudio Villa: Sim e eu diria que o cinema é o principal responsável por essa mudança. A literatura de fantasia ainda é vista por muitos como uma literatura juvenil e undeground, especialmente por grandes editoras e livreiros em geral. Porém, filmes como o “Senhor dos Anéis” e “Crônicas de Nárnia” têm ajudado a dar uma nova visão a esse tipo de história. Antes do filme você teria dificuldades em encontrar alguma edição do “Senhor dos Anéis” em uma grande livraria, hoje os livros de Tolkien são produtos indispensáveis em suas prateleiras. Acho que ainda existe um caminho longo a se percorrer, mas pouco a pouco os leitores vêm percebendo que não existe idade para se ler fantasia e que muitos romances são próprios para o público adulto.

Ademir Pascale: Em relação ao mundo editorial, as editoras finalmente estão deixando um pouco de lado os escritores internacionais e se voltando para os nacionais. Na sua opinião, foi o interesse crescente dos leitores brasileiros pelos autores nacionais ou algo mais?

Cláudio Villa: Eu acho que o caminho vem sendo aos poucos desbravado, mas lhe digo que as grandes editoras ainda têm muito receio em apostar no autor nacional, especialmente no iniciante. O público em geral também ainda fica receoso em livros de ficção nacionais, preferindo se pautar pelos best sellers e pelo que a mídia divulga.

Acho que o caminho realmente deve ser semelhante ao que vem ocorrendo no cinema nacional. A pouco mais de dez anos o cinema era dividido em filmes de terror, ação, comédia, drama, aventura…etc e…filme brasileiro. O cinema nacional era quase que um gênero a parte, porém hoje essa distinção vem caindo por terra graças à qualidade com que esses filmes vêm sendo feitos.

Com a literatura é a mesma coisa, quando tivermos grandes editoras investindo em autores nacionais, arriscando publicar seus livros e especialmente divulgando esses autores na mídia, ai acredito que o preconceito com a literatura nacional vá desaparecendo e se abra uma estrada semelhante à aberta pelo cinema.

Ademir Pascale: Existem novos projetos em pauta?

Cláudio Villa: Sempre. Além do livro “O Vento Norte”, que venho escrevendo, tenho agora a missão de inserir conteúdo na Mirr Enciclopédia ( tornando-a sempre interessante de ser visitada. Venho também desenvolvendo um projeto com outros autores para desenvolver um universo de ficção científica, mas esses detalhes ainda são segredo de estado.(risos)

Perguntas rápidas:

Um livro: Duna
Um autor (a): Frank Herbert
Um ator ou atriz: Não tenho nenhum favorito. Gosto daquele ator que no momento sabe me contar uma boa história.
Um filme: Coração Valente
Um dia especial: O nascimento do meu segundo filho, o Pedro. (O primeiro foi o livro que nasceu seis meses antes)
Um desejo: Que minhas histórias mexam com a imaginação das pessoas, assim como as de meus autores favoritos mexeram com a minha.

Ademir Pascale: Foi um grande prazer conversar contigo. Desejo-lhe muito sucesso.

Cláudio Villa: O prazer foi todo meu e agradeço a oportunidade de expor algumas de minhas idéias. Quero convidar todos a conhecer o meu site, reformulado, no endereço www.mundosdemirr.com e deixar meu endereço de e-mail que é o . Para quem viajar por Mirr e quiser um pouco mais de aventura, o livro “Pelo Sangue e Pela Fé” pode ser encontrado nas principais livrarias e nos sites da Livraria Cultura, Fnac e Saraiva. Obrigado Ademir mais uma vez pelo bate papo e espero que seja o primeiro de muitos.