“O livro precisa deste quarteto para existir (escritores, leitores, editores e livreiros)” .

Entrevista   concedida a jornalista Carla Sousa

Ele nasceu no dia 01 de junho de 1959 em Natal/RN, numa família de origem libanesa, inicialmente instalada em Maraguape/CE.  Três anos depois, os seus avós(Antonio José Gosson e Chafia Hamaney) se mudaram para o Rio Grande do Norte uma vez que o  tio-avô  (Abdon Gosson) já havia adotado a Cidade do Sol como sua segunda pátria.  Dos povos do deserto herdou a coragem para enfrentar desafios e uma praticidade. Contudo, as atividades empresariais não o seduziram, preferindo a “literatura como forma superior de realização espiritual”. Fundou jornais(Equipe), colaborou em revistas culturais O Saco (CE), foi editor da segunda fase do suplemento cultural “Contexto” de A Republica (1979), fez política partidária militando no Partido Comunista Brasileiro por uma década, foi dirigente sindical da Associação de Professores do RN, hoje SINTE, participando da 1ª Greve do Magistério Público (1979). Tem quatro livros publicados: O Ciclo do Tempo, poesia,1990; História do Poder Judiciário do RN (1998), Ministros Potiguares (2005) e Poemas das Impossibilidades(2007). Em parceria com Aluízio Mathias escreveu O Almanaque da Poesia Potiguar (inédito). Faz parte do grupo que em 2006 reorganizou a União Brasileira de Escritores do RN – UBE/RN, sendo eleito presidente para o biênio 2010/11. É diretor do Memorial da Justiça Des. Vicente de Lemos do Tribunal de Justiça.

1 – Fale sobre o III Encontro Potiguar de Escritores
R. O III Encontro Potiguar de Escritores é o acontecimento cultural mais importante do ano na cidade do Natal/RN, tendo em vista que o objetivo maior é promover o autor potiguar, a promoção da leitura, fomentar o mercado do livro (editores e livreiros) e chamar a atenção da sociedade para a Literatura como  uma forma superior de realização espiritual.
2 – Quais os principais objetivos da UBE/RN com a realização desse novo encontro?

R. Mostrar ao Rio  Grande do Norte, ao Brasil e, quiçá, ao mundo que aqui temos  uma literatura de excelente qualidade e que, por força do isolamento cultural nordestino, não chega de forma sistemática ao mercado nacional. Procurar a síntese entre literatura e mercado, sem abrir mão da inquietação do fazer literário. Todo escritor quer ser lido. E um dos objetivos da UBE/RN é ser o fermento deste bolo.

3 – Fazendo um comparativo dos outros encontros com esse próximo, qual a análise que você faz? As metas foram alcançadas? O que faltou?
R. A UBE/RN, sob a nossa direção, já promoveu dois encontros verdadeiramente de escritores e não espetáculos midiáticos. Queremos e buscamos o perene e não o transitório. Quanto às metas, em parte. Contudo,  nada nos tira do foco. Os obstáculos são para serem  vencidos . Trabalhamos duro. Nada ocorre por acaso na natureza e na sociedade. Nem chuva cai do céu por acaso. O sucesso é construído tijolo por tijolo. A UBE/RN hoje conta com 110 associados; está desde Dezembro do ano passado com um site de excelente qualidade WWW.ubern.org.br atualizado semanalmente; editou a Resolução nº 01/2010 que recria o jornal O Galo, de saudosa memória; a Resolução nº 02/2010 criou um selo e a editora Nave da Palavra, que estará em ação dentro de três meses e a Resolução nº 03/2010 instituiu o Prêmio Escritor Eulício Faria  de Lacerda. Na verdade, na atual Diretoria  temos excelentes quadros, o que  permite executar um bom trabalho.


4 – Qual a importância de encontro para o cenário literário potiguar?

R. Muito grande. Após a sua reorganização em 2006, a UBE/RN tem como meta maior promover a união de todas as instituições ligadas ao fazer literário (ANL -Academia Norte-riograndense de Letras; o IHGRN – Instituto Histórico e Geográfico do RN; AFL – Academia Feminina de Letras; SPVA – Sociedade dos Poetas Vivos e afins; ATRN- Academia de Trovas do Rio Grande do Norte; INRG- Instituto Norte Rio-Grandense de Genealogia; CEC-Conselho Estadual de Cultura; CMC- Conselho Municipal de Cultura; Grupo Casarão de Poesia; Associação Nordestina de Teatro), uma vez que isoladamente não se chega a lugar nenhum. Na sociedade de massas, é preciso reafirmar  sempre  a nossa identidade ou, como bem disse o Subcomandante Marcos: “porque morrer não dói. O que dói é o esquecimento”.

5 – Fale sobre a programação do III EPE. Qual a expectativa da UBE/RN? O que você destaca dela e por quê?
R. A programação está bastante diversificada (ver programação anexa) indo desde a discussão do jornalismo político ao jornalismo cultural, Três leituras do Dilúvio: Gênesis,Miguel Torga e Machado de Assis. Destacamos uma mesa da maior importância para os escritores: a Compra do livro regionalizado do Nordeste que será discutida com representantes do Ministério da Cultura – MINC e, com certeza, trará novos horizontes. Destacamos, ainda, que esse ano comemora-se o centenário do escritor Américo de Oliveira Costa, importante intelectual do  Rio Grande Norte. Haverá durante o encontro o lançamento do livro – O Habitante da Biblioteca – brilhante trabalho executado por seu neto João Eduardo.
6 – Fale sobre o atual cenário da literatura potiguar? Falem das conquistas, os problemas e as perspectivas.
R. O cenário  potiguar é promissor. A renovação é inevitável: por exemplo, o grupo Casarão de Poesia, de Currais Novos/RN,  que vem fazendo um excelente trabalho. Recentemente  dois membros do grupo ganharam um dos mais importantes prêmios literários do país: o  11º Prêmio Escriba de Poesias – 2010 Piracicaba/SP. São eles Wescley J. Gama e Iara Maria Carvalho.
7 – Fale sobre a Lei do Livro Henrique Castriciano. Na sua visão, o que é preciso para ela funcionar de fato?

R. A  lei nº 9.105/2008 (conhecida como lei Henrique Castriciano) foi gestada durante a administração do poeta Lívio Oliveira, que a encaminhou ao Poder Legislativo, através dos deputados Fernando Mineiro e José Dias.  É um importante instrumento legal para a criação de uma Política Cultural de promoção do Livro. Esse ano foi colocado no Orçamento do Estado, uma verba no valor de R$ 500.000,00 (quinhentos mil Reais) não sendo executado até agora nenhum centavo. O escritor Tarcísio Gurgel, em palestra que a UBE/RN promoveu no Dia do Escritor, afirmou que até agora não conseguiu vender seu último livro, um excelente trabalho sobre a Belle Époque, ao Poder Público. E nos consultava acerca de como vender. Olhe bem: Tarcísio Gurgel lida há mais de 35 anos com a Literatura Potiguar e estava querendo saber o caminho das pedras… na verdade  vamos divulgar essa lei em todos os colégios, junto ao magistério e a sua entidade de classe, mobilizar a sociedade civil organizada e provocar o Ministério Público para, através do Poder Judiciário, forçar o cumprimento por parte do Executivo. É preciso diariamente matar um leão.

8 – Fale também da Lei N° 9.169 (Promoção da leitura literária nas Escolas).
R. Essa lei foi uma iniciativa de uma ONG presidida pela educadora Cláudia Santa Rosa.  Teve uma boa acolhida pelo presidente do Poder legislativo, deputado Robson Faria, que realizou uma Audiência Pública. A União Brasileira de Escritores do RN – UBE/RN apresentou diversas sugestões, que depois foram inseridas no texto legal. Na verdade as duas leis  complementam-se. O caminho a percorrer é o mesmo  da lei Henrique Castriciano.
9 – Fazendo uma análise geral, pegando os principais encontros literários realizados no país, qual a importância desses eventos para a literatura (escritores, leitores, editores e livreiros)? Como você vê o RN no cenário nacional, tendo em vista a grande quantidade de encontros promovidos, alguns de importância internacional?

R. Todos são importantes. É preciso vencer a inércia do Poder Público pelo cansaço. O livro precisa deste quarteto para existir (escritores, leitores, editores e livreiros). O Rio  Grande do Norte ainda tem um papel modesto. Entretanto, pode despertar o elefante adormecido e passar a desempenhar um papel de Vanguarda. Por exemplo, atualmente está em curso um debate entre o Ministério da Cultura e a sociedade para atualizar a lei nº 9.610/1998 dos direitos autorais. Na versão que será enviada ao Congresso, há alguns pontos interessantes: na era da INTERNET  os direitos autorais são violados sistematicamente. Para tentar resolver minimamente  essa questão em cada faculdade ou colégio será permitido tirar xerox desde que se pague imediatamente ao autor. Para operacionalizar essa realidade, será colocado em cada máquina um chip ligado a um Escritório Central Arrecadador, que fará o depósito na conta do autor. É um pequeno avanço…  significativo. Recentemente, dois dirigentes da UBE/RN  Eduardo Gosson (presidente) e Francisco Alves da Costa Sobrinho (2º secretário) participamos de uma videoconferência no auditório do Banco do Nordeste sobre as alterações a serem inseridas na lei dos Direitos Autorais.

Entrevista para a revista Saga Cultural, outubro de 2010