Wlademir Dias-Pino, nascido no Rio de Janeiro em 1927 e tendo residido por um longo período em Cuiabá, é um poeta visual que participou da Exposição Nacional de Arte Concreta, em 1956, tendo sido um dos fundadores do poema/processo em 1967 e o primeiro autor a publicar o chamado “poema livro” ou “Livro-poema”, chamado n’Ave[1]. O que caracteriza o livro-poema é o papel em seu aspecto físico como fazendo parte do poema, tornado um só corpo físico, de forma que o poema só existe porque existe o livro, visto como objeto.

Poema/processo é aquele que, a cada nova experiência, inaugura processos informacionais. Essa informaço pode ser estética ou não: o importante é que seja funcional e, portanto, consumida. O poema resolve-se por si mesmo, desencadeando-se (projeto), não necessitando de interpretação para a sua justificação.

Processo: auto-superação do poema que se gasta conforme suas probabilidades vão sendo exploradas e que envelhece quando é sobrepujada por outro poema que o admita e exceda.

Poema / processo: a consciência diante de novas linguagens, criando-as, manipulando-as dinamicamente e fundando probabilidades criativas. Dando a máxima importância a leitura do projeto do poema (e não mais a leitura alfabética), a palavra passa a ser dispensada, atingindo assim uma linguagem universal, embora seja de origem brasileira, desprendida de qualquer regionalismo, pretendendo ser universal não pelo sentido estritamente humanista, mas pelo sentido da funcionalidade.

(…)

Função criativa do artista: trabalhar nos processos, reinventando-os. Mudança de qualquer espécie de estrutura, resposta a uma necessidade social”. W D-P

Vamos, então começar?

Antonio Miranda: Quando, onde e em que circunstância surge o Poema Processo?

Wlademir Dias-Pino: O movimento pontilhista nas artes plásticas tem muito a ver com o surgimento da retícula na reprodução das imagens gráficas, assim como tem muito a ver com a participação do químico Michel Chevreul. Talvez se possa dizer seguindo esse raciocínio, que a poesia concreta é o apogeu e o findar da era da poesia essencialmente tipográfica. É com essa constatação que os poetas do movimento do poema processo anunciavam o aparecimento do mimeógrafo e também do offset, que permitiu a introdução da imagem dentro do poema, dialogando com as letras e mesmo com as palavras, sem o caráter simbólico dos caligramas que transformavam as palavras em linhas como contorno do poema, fechando uma figuração. Enquanto a substituição da forma simétrica e geométrica do concretismo, de origem pictórica, foi substituída pela imagem em geral, com elementos contemporâneos. Não mais a impressão por cravação, mas como “carimbo” circular do offset.

Assim como o poema processo não contando economicamente com o cinema, foi buscar a animação gráfica nas histórias em quadrinhos, antecipando de certa forma a necessidade física da movimentação virtual dos dias de hoje. Ninguém pode negar o grande impacto que a poesia concreta produziu no panorama da literatura nacional, ao ponto mesmo de fazer com que de 1956 a 1966, não aparecesse nenhum poeta novo, ao real, de reconhecida importância. Ficávamos muito preocupados com esse fato. É que a poesia concreta pegou carona durante toda a vigência da popularidade do rock e o aparecimento estrondoso da minissaia. Preocupados como já disse, com o não surgimento dos novos, procuramos contatos, com vários grupos de jovens, a fim de encontrar uma solução. Foi quando a “Porta de Livraria”, sob a responsabilidade do poeta Antonio Olinto, com as mesmas preocupações e o patrocínio do concurso do Valmap em parceria com o “Instituto Nacional do Mate”, instituiu um concurso de poesia nacional. Por tudo, em ocasião, como trabalhava como programador visual do Ministério dos Transportes, no departamento de Comunicação, com Antonio Olinto, comecei a dar uma ajuda, no empacotamento da produção dos aproximadamente 2000 candidatos para serem enviadas as cópias para a comissão julgadora.

Chegando ao instituto, encontrei os funcionários jogando fora os poemas de alguns candidatos, que eram, exatamente, os mais experimentais. Tratei de reunir esse material, e procuramos contato com eles, através dos classificados do Jornal do Brasil, com o seguinte anúncio: “Você que é candidato ao concurso nacional de poesia, telefone para o número tal, para tratarmos de assunto de seu interesse”. Tanto o interessante é que, como o anúncio era de tamanho maior do que o normal, ainda com cercadura, deu justamente, para preencher a página com ótima visualidade. Depois ao receber notícias da grande maioria dos poetas, procuramos organizar reuniões até que surgiu a oportunidade, graças ao apoio da Carmem Portinho, de fazermos o lançamento do movimento do poema processo na ESDI – Escola Superior de Desenho Industrial, no passeio público, centro do Rio, vizinha da Escola Nacional de Música e principalmente, vários terminais de pontos de ônibus. O movimento foi inaugurado simultaneamente em Natal (Sobradinho), para que mostrássemos, nossa intencionalidade em fazer uma arte brasileira. Como catálogo de lançamento, foi editado a revista Ponto I.

Diante do sucesso do evento, fomos convidados para fazer a 2ª exposição do movimento, na Escola de Belas Artes, de onde partimos com cartazes e fizemos uma rasgação de livros de poetas superados, nas escadarias do Teatro Municipal. Os simbólicos portões de ferro se transformaram num paliteiro dos estandartes de protesto. Foi este fato, o primeiro “Poema Coletivo” da história da literatura brasileira, apelidado como “A Rasgação”, para que os reacionários não falassem em queimação de livros, o que é outra intencionalidade babilônica. Talvez seja interessante lembrar, que exatamente nessa época, a Guarda Vermelha chinesa, estava aprontando em Pequim, a reforma cultural de Mao Tse Tung. De repente, o impacto foi tamanho, que as forças do poder, instaladas propositadamente na brizolândia*, diante das câmeras da mídia, não tiveram força de arregimentar a sua violência característica, em reação. Assim, o melhor de tudo, previmos com antecedência de dois meses, o terrível AI-5 (Ato Institucional Número 5), que pairava sob nossas cabeças.

Imagem da Rasgação

Pesquisa complementar do entrevistador:

“… Procurando trazer os problemas da poesia brasileira ao público, os participantes guanabarinos realizaram um rasga-rasga de livros de poetas discursivos (Drummond, Cabral e seus satélites), nas escadarias do Teatro Municipal, em 26 de Janeiro de 1968. O fato pretendeu levantar os seguintes problemas; 1) Um protesto público contra a sigilosa política literária de troca de favores (igrejinhas); 2) A necessidade de mostrar que houve uma ruptura qualitativa do desenvolvimento da poesia brasileira; 3) Contra o caráter de eternidade no poema que tende sempre ao estável, impedindo o aparecimento do novo; 4) Afirmação aos novos poetas de que o tipo de poesia existente nos livros rasgados não poderia servir de modelo, pois estava superado e consumido; 5) O poema é como pilha, gastou, gastou; 6) É preciso espantar pela radicalidade. Ao poema radical corresponde uma ação radical. A luta já atingiu o grau de um vale-tudo oswaldiano; 7) O gesto constitui um fato dentro da realidade brasileira e não pode ser visto fora de seu contexto geral”. (Texto retirado do livro Processo: Linguagem e Comunicação).

*A zona central da Cinelândia, no final da Avenida Rio Branco, frente ao Teatro Municipal e da “Gaiola de Ouro” (a sede da Assembléia Legislativa) concentravam-se os brizolistas, partidários político do governador Leonel Brizola, de onde veio a denominação de “Brizolândia” para a área