Por Alexandro Gurgel

“Sem Falves, a arte e o poema do Rio Grande do Norte não seriam a mesma coisa. Sua ousadia, seu radicalismo, sua inquietação, suas potencialidades gráficas, ocupam um lugar específico na produção cultural de nosso estado: o lugar de justa e necessária radicalidade antiliterária. E, em sendo radical, um lugar profundamente humano”. (Moacyr Cirne, poeta e crítico de arte)

A expressão “Poesia Concreta” designa um dos vetores de força mais relevantes do sistema literário brasileiro ao longo de toda a segunda metade do século XX, com fortes elos de ligação com o movimento modernista de 22. Segundo Haroldo de Campos – um dos primeiros pensadores no campo do concretismo – com a necessidade do visual, o verso, medido ou livre, já não atenderia às necessidades da sensibilidade moderna, não passaria de um momento já obsoleto na “evolução crítica de formas”, cujo produto é a Poesia Concreta.

O concretismo iniciou-se por volta de 1953, quando os paulistas Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos, resolveram criar uma revista literária chamada Noigandres. Em seguida, Ferreira Gullar, Ronaldo Azeredo e Wlademir Dias Pino, se incorporaram ao movimento concretista e criaram a I Exposição Nacional de Arte Concreta, realizada em São Paulo e no Rio de Janeiro em 1956 e 1957, expandido para o mundo o pensamento poético de vanguarda brasileiro.

Uma última decorrência da vanguarda concretista é o Poema-Processo, cujo precursor é Wlademir Dias Pino, um dos participantes da Exposição de 1956. Lançado em final de 1967, com a usual exposição e os necessários manifestos, o Poema-Processo caracteriza-se desde o início pela recusa radical à discursividade.

Antenado com os movimentos literários no eixo Rio-São Paulo, o jovem Francisco Alves da Silva percebeu a transição poética que estava acontecendo e, juntando-se a Moacyr Cirne, Nei Leandro de Castro, Marcos Silva, Anchieta Fernandes e Dailôr Varela fizeram uma Exposição de Poemas Processos simultânea em Natal e no Rio de Janeiro, em 1967, criando uma nova forma de ver a poesia.

Durante a época do desenvolvimento do Poema Processo em Natal, Falves Silva, J. Medeiros, Anchieta Fernandes e Alexis Gurgel criaram a revista “DÊS” para que seus poemas circulassem entre os meios culturais. O grupo participou de várias exposições itinerantes por Recife, João Pessoa, Fortaleza e Rio de Janeiro.

A Arte Correio viria somente em 1974, depois de uma parada tática do Poema Processo, em 1972. Falves Silva e o poeta Bosco Lopes, foram convidados para fazer parte da I Exposição Internacional de Arte Correio, no Uruguai. “Esta foi a primeira exposição de Arte Correio feito por artistas do Rio Grande do Norte na nossa história”, afirmou Falves.

Atualmente, os poemas de Falves circulam em países como: Alemanha, França, Itália, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra, Portugal, México, Uruguai, Argentina, Japão e tantos outros. Todo ano, Falves participa de cinco ou seis exposições internacionais de Arte Correio, praticando o desdobramento do Poema Processo.

Falves diz que sua poesia está muito recheada de ironias, sarcasmo e tem um “certo” erotismo. Ele explica que a Poesia Visual é a evolução daquilo que foi feito em 1967. Mesmo com o encerramento do movimento, Falves tem feito um grande esforço para divulgar sua produção criativa e teórica através de publicações de livros e exposições no Brasil e no mundo. Até hoje, muitos poetas brasileiros, principalmente do Rio Grande do Norte, criam dentro das propostas do Poema Processo, qualquer que seja o nome que dêem a seus trabalhos: poesia visual, poesia experimental, arte correio, mail-art, etc.

A seguir, trechos de uma longa entrevista que o poeta Falves Silva (*) concedeu ao repórter Alexandro Gurgel.

AG -O que é a Poesia Visual?
FS – A poesia visual, na realidade, começou nos primórdios das civilizações, porque o homem aprende logo a ver, depois ele começou a aprender a grunhir e depois aprendeu a falar. No momento em que ele aprendeu a falar, aprendeu a escrever e então nasceu o texto, a poesia escrita também é visual. Hoje, vivemos na época da imagem, por exemplo: o cinema faz um século que foi criado e é basicamente novo. Não existe ainda uma alfabetização visual, existe uma alfabetização verbal, daí a grande deficiência da falta de compreensão por parte dos catedráticos, dos professores e dos estudantes no processo da compreensão da Poesia Visual.

AG -Quem realmente produz arte em Natal?
FS – Sobre o ponto de vista da pintura tradicional, eu diria que tem o nome de Marcelo Fernandes, Marcelus Bob, Fabio Eduardo, Assis Marinho e evidentemente tem outros, mas eu diria que entre todos, o mais moderno é o J. Medeiros.

AG – É compensador fazer arte?
FS – Em Natal não dá para viver de arte. Exceto se o artista já for rico, que tenha um status de poder. Pois tem artista que já nasce rico, então, este pode sobreviver de arte, porque tem aquela coisa de bajular o poder.

AG - Como o natalense absorve sua arte?
FS - O natalense, na realidade, talvez comece a absorver agora. Já faz quase 40 anos que eu faço este tipo de arte, então seria impossível que o pessoal não começassem a se interessar. Mas mesmo assim é uma coisa muito limitada. Eu acho que lá fora tenho mais respaldo do que aqui. É difícil, talvez o povo não compreenda o tipo de arte que eu faço, se bem que ela é bem clara, e “uma boa imagem vale mais que mil palavras”, já diz o ditado chinês. Na realidade, a arte é consumida – isto talvez seja até uma contradição – pelo poder, quem consome mais arte é a burguesia. Quero dizer aos artistas que eles procurem ler mais sobre arte e compreendam seus próprios trabalhos para daí passar a produzir melhor, com fortes bases teóricas sobre estudos praticados. Tudo isso dará argumentos ao artista para que os críticos e os consumidores de artes possam compreender melhor a Poesia Visual.

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(*) Francisco Alves da Silva, nasceu em Cacimba de Dentro-PB, em 1943. Aos 10 anos de idade passa a residir em Natal. Aos 15 anos começa sua trajetória como operário, passando a trabalhar em várias gráficas da cidade de Natal, oficio que veio facilitar a publicação dos seus primeiros livros experimentais.

Falves Silva é um dos fundadores do Cine-Clube Tirol, em 1961. Desenhista nato, aprimora seus conhecimentos num curso em 1964. Em 1966 faz sua primeira exposição individual. Em 1967 integra a equipe do Poema-Processo, juntamente com Anchieta Fernandes, Alexis Gurgel, Moacyr Cirne, Dailor Varela, Marcos Silva, Nei Leandro de Castro, entre outros.

A partir de 1974 se incorpora ao Movimento Internacional de Arte-Correio (Mail Art), o que lhe proporcionou a oportunidade de expor seus trabalhos em várias partes do mundo. Conta hoje com mais de 400 exposições coletiva e cerca de 85 individuais.

Capista, ilustrador, programador visual (jornais, livros, revistas, cartazes, etc…), autodidata, sempre avesso às instituições acadêmicas. Sem premiações em salões de arte, contando, no entanto, com uma longa de lista de livros onde é antologiado.

Livros: Projeto 6 (1975); Projeto 7 (1976); O Principio do Fim (1976); Projeto 8 (1977); Projeto 9 (1978); Projeto 22 (1979); Erótica (1980); O Livro de Carimbos (1981); Elementos de Semiótica (1982); Intersinos (1984); Sexo Maldito (1984); Mail Art Copy-Book One (1990); Mil Art Copy-Book Two (1990); O Livro de Artista (1981); Falves 50 anos (1993); Desconstrução Verbal (1997); Ex-Libris (2002).

Enviado por Alexandro Gurgel