Em conversa com a Revista E, o poeta e “transcriador” Haroldo de Campos fala de seu trabalho e reacende a discussão intelectual tão em falta nos dias de hoje

Em conversa com a Revista E, o poeta e “transcriador” Haroldo de Campos fala de seu trabalho e reacende a discussão intelectual tão em falta nos dias de hoje

A atividade intelectual de Haroldo de Campos se confunde com os grandes acontecimentos da cultura brasileira nos últimos 50 anos. Desde o movimento da poesia concreta criações suas ocupam espaços de destaque no cenário da nossa melhor produção – ao lado do irmão Augusto e de Décio Pignatari -, incluindo a recente publicação da monumental transcriação da Ilíada de Homero. Isso sem contar a reavaliação crítica contundente de Gregório de Mattos. Em entrevista exclusiva, Haroldo comenta como enfrenta a tradução de obras consideradas difíceis, seu papel de ensaísta, seus novos projetos literários, além de analisar as diferenças entre as poesias de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. A seguir, os principais trechos:

O senhor traduziu toda a Ilíada de Homero. É um trabalho que lhe consumiu dez anos de vida. Até que ponto não teria sido melhor para a cultura brasileira o senhor ter feito mais livros seus em vez de verter do grego para o português um texto clássico?

Não deixei, no interregno, de publicar outros livros de poemas meus, como, por exemplo, Crisantempo (Editora Perspectiva) e A Máquina do Mundo Repensada (Ateliê Editora). Quanto à minha “trans-helenização” da Ilíada, não esquecer que o grande estudioso Auerbach considera os Poemas Homéricos e a Bíblia Hebraica as duas matrizes da poesia do Ocidente. O Brasil, embora os historiadores literários nossos pareçam não se dar conta disso, tem uma esplêndida linhagem de tradutores humanistas. A Ilíada e a Odisséia foram traduzidas por Odorico Mendes (1799-1864). Outro maranhense, Carlos Alberto Nunes, repete-lhe o feito nas décadas de 1940/1950, traduzindo novamente os dois Poemas Homéricos. Minhas “transcriações”, ademais, correspondem a uma concepção teórica de tradução criativa (Umdichtung/transpoetização/transcriação). Está em patamar de igualdade com a poesia (Dichtung) que lhe serve de fonte. Aliás, como afirmava não um teórico, mas um exímio prático da tradução o pré-rafaelita pintor, poeta e tradutor de poesia italiana medieval Dante Gabriel Rossetti, a diretiva básica da tradução poética é: “a good poem shall not be turned in a bad one” (um bom poema não deverá ser transformado num poema ruim).

O senhor afirma que suas traduções são transcriações. Poderia explicar o que seriam transcriações? Como ela se manifesta num texto traduzido?

Transcriação é um conceito de que me valho em correspondência aos de creative transposition, (transposição criativa), de R. Jakobson, e de Umdichtung (trans-ou-circunpoetização), de W. Benjamin. Significa semiótico-operacionalmente, não apenas verter o conteúdo (a semântica) do poema de origem, mas transpor-lhe a forma significante (todos os elementos pertinentes às duas dimensões conhecidas pelo pai da Glossemática, o lingüista dinamarquês Hjelmsleu). No plano da forma do conteúdo tratam-se de “desenhos sintáticos”, traços morfológicos, de estrutura gramatical, ou, para Jakobson, da poesia da gramática; para E. Pound, da logopéia.

O senhor ajudou a trazer ao português do Brasil várias obras. Qual delas deu-lhe mais prazer em transcriar?

Minha escolha de textos a traduzir é sempre crítica. Não traduzo por encomenda, ou ao léu; traduzo por dever de ofício e pelo prazer textual (de que fala Barthes). Só me interessam, via de regra, textos difíceis, declarados de “tradução impossível”. A alta “temperatura estética” (Max Bense) dos textos de partida é essencial à operação “transcriadora”. Assim, não posso fazer a distinção objetiva através da pergunta. Todo o texto, que proponho transladar, é singularizado e fascinante. Solo lo difícil es estimulante (Lezama).

O senhor não acha que o seu trabalho como transcriador tirou-o do embate cultural contemporâneo do Brasil? O senhor sempre teve uma presença marcante nos cadernos culturais como polemista, como ensaísta, tratando de temas da atualidade poética e cultural. Isso não vem ocorrendo já há alguns anos.

Não. Continuo a trabalhar intensamente nos campos crítico-historiográfico e crítico-literário. Basta mencionar O Seqüestro do Barroco na Formação da Literatura: o Caso Gregório de Mattos (Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado). Esse ensaio longo, já vertido para o espanhol e o inglês, provocou e ainda provoca ressentidas restrições (acusações de plágio, de tanger uma linguagem chula, desbocada, até mesmo pornográfica). Há intervenções, no plano da crítica, que envolvem, por necessidade, a polêmica. Recuso-me a aceitar como dogmaticamente verdadeiros os ditames da crítica e da historiografia literária. O Seqüestro…, passadas três décadas de publicação na Revista Formação, é, até onde sei, o primeiro e único ensaio crítico sobre esse livro tão fundamental. Quanto à “contemporarização compadrista” da intelectualidade brasileira, é algo que não me toca e não me aflige. Sou inflexível quanto aos meus critérios de julgamento das obras, não cedo à adulação e prefiro perder amigos (ou pseudo-amigos) do que manter elos de amizade baseados na “geléia geral” (D. Pignatari) da insossa recepção cordial “camarada”…

Alguns críticos costumam afirmar que a maior herança do movimento concreto será sua produção ensaística e não a produção poética. O que senhor pensa disso?

A polêmica agressiva, na fase “heróica”, de lançamento e sustentação de uma revolução literária, é algo absolutamente necessário, para espatifar a parede bruta da incompreensão reacionária. Em minha atual etapa da vida, regida pela maturação e pelo sereno exercício da sabedoria, a “polêmica” segue me interessando, porém uma polêmica de idéias, de “discussão em alto nível”.

Costuma-se dizer que Chico Buarque teria muito da práxis, enquanto Caetano Veloso teria sido mais influenciado (em algumas canções) pela concreta. O senhor concorda?

Técnicas de redundância e repetição jornalístico-enfatizadora, de linguagem econômica e concisa fazem parte do arsenal de nosso poético, desde El Rei Trovador, Dom Diniz. Passaram para as trovas dos cantadores populares e chegaram até a voz dos sofisticados cantores populares, como Chico Buarque de Holanda. É tolice, portanto, falar de alguma influência “pontual” no caso. Quanto à influência da poesia concreta nos baianos, basta ler o Verdade Tropical, do Caetano, para compreender como é multifacetada e dialógica-operacional a velha amizade que nos une contra a burrice na frente de combate pela poesia concreta e pela música popular experimental.

O senhor escreve poesia diariamente?

A rigor, não. A poesia é o resultado de uma subitânea fusão nuclear, quando se encontram e dialetizam, sob o lúdico jogar de dados do acaso, sensibilidade e controle racional da “forma significante”. Isso não ocorre todos os dias. Por vezes, no entanto, entro em jubilação epifânica, e os deuses me favorecem com, por exemplo, toda uma semana fecunda. Qualquer hora pode ser a hora desse encontro marcado com Túkhe, o deus-acaso.

Durante meio século, ocorreu uma espécie de divisão entre os apreciadores de Carlos Drummond de Andrade e os de João Cabral de Mello Neto. Mortos ambos, essa dicotomia de torcidas ainda tem razão de existir? Quais seriam as contribuições de cada um à poesia brasileira do século 20?

Os dois são grandes poetas. A ambos admiro. Mas Cabral é mais rigoroso, mais radical, jamais deixa cair a peteca; já Drummond, autor de poemas seminais, é, obstante, mais indulgente, mais sentimental, sobretudo quando, em sua poesia, aflora o cronista das amenidades da vida. Mário Faustino e, recentemente, a crítica Flora Sussekind souberam ver, muito agudamente, esse lado vulnerável, o tecido “mole” do poeta da pedra…

O senhor concorda que seriam eles os dois autores que mais contribuíram para o salto poesia brasileira neste século passado?

Sim, porém com a inclusão da radical, pioneira, poesia minimalista e crítico-irônica do antropófago Oswald de Andrade.

Neste cenário, onde ficam autores como Murilo Mendes e o Jorge de Lima (de Inventário de Orfeu)?

Murilo Mendes, o fulgurante “conciliador de contrários” (M. Bandeira), o plástico da linguagem inesperada, que lecionava imagética para João Cabral, é um grande poeta, que muito admiro, sobre quem escrevi (em Metalinguagem), com quem me carteei longamente e com quem convivi no seu acolhedor apartamento sempre que visitei Roma (e foram freqüentes essas visitas). Já Jorge de Lima, poeta autor de uma desigual épica, de mais baixos do que altos a meu ver, equivalente nosso do Canto General, de Neruda, 1950, apesar do seu “barroquismo”, que me agrada como atitude, e das vigorosas influências de Camões e Odorico Mendes, não fica à altura do seu projeto: é freqüentemente desconjuntada e até mesmo kitsch. Mário Faustino, que tinha pelo alagoano uma exaltada admiração, não deixava de ressaltar a cabeça privilegiada que, no Inventor de Orfeu, se encontravam, infelizmente, alguns dos melhores, alguns dos piores momentos da poesia luso-brasileira.

O senhor é um poeta e intelectual que acompanha a produção poética brasileira? Existiria em termos de fato poético uma produção típica dos anos 1970, que ficou conhecida como poesia de mimeógrafo?

Acompanho, porém não pontual e sistematicamente. Não tenho tempo. Sou um homem multicurioso (estou sempre bem informado sobre poesia anglo-americana, irlandesa, francesa, alemã, espanhola e hispano-americana, italiana, russa, neogrega, hebraica (bíblica e moderna), clássica (greco-latina). No momento, por exemplo, estou estudando a língua e a poesia dos astecas pré-colombianos.

O senhor acredita que a sua geração deixará um Brasil melhor do que o recebeu? Em termos políticos.

Sou um poeta-cidadão. Nos meus tempos de “clássico”, no Colégio São Bento de São Paulo (onde também havia estudado Oswald de Andrade), tive um excelente professor de português, Cid Franco (pai de Walter Franco e irmão da pintora Maria Leontina), que era um vibrante socialista democrático. Suas aulas e suas idéias tocaram fundo em mim, naquela fase de formação. Sempre tive simpatia ideológica pelo PT e sempre votei em seus cadidatos, e desde logo em Lula, em todas as suas tentativas de chegar à Presidência da República. A pedido do amigo Sérgio Mamberti, cheguei a escrever poesia de agitação, à maneira de Maiakovski. Compus poemas de propaganda militante sempre exigentes quanto à estrutura formal, embora, por vezes, semanticamente, muito comunicáveis, em prol das candidaturas de Suplicy e Erundina; assinei um manifesto, encabeçado pelo saudoso Caio Graco, da Brasiliense, e por mim, em prol da candidatura dessa figura culta, impoluta, de incansável combatividade que é Plínio de Arruda Sampaio, um verdadeiro católico de esquerda, quando ele concorreu ao governo do Estado. Há pouco, meu poema intitulado A Posse (Mais!, Folha de S. Paulo), saudei esse evento comovente que foi a posse de Lula na Presidência, com o aplauso entusiástico do povo. O que deixou-me em júbilo, nos meus desacorçoados e já céticos 73 anos de vida.