“Véio” Chamie, c’a gota, vejam:

“Por exemplo, a coletânea Artes e Ofícios da Poesia (SMC/Artes e Ofícios editora, 1991), organizada por Augusto Massi. Ler os depoimentos e poemas, ali presentes, revela os ofícios e artes de uma poesia que tapa os ouvidos para fugir da própria voz. Os poetas que lá estão, em sua maioria, primam pela paráfrase, citação, cópia, transcrição e rasura de discursos alheios já consagrados. De Sebastião Uchoa Leite, passando pelo epígono da poesia práxis, Armando Freitas Filho, até José Paulo Paes ou Francisco Alvim, o diapasão parece ser um só: andam muito à sombra de autores ou tendências que veneram, nutrindo-se de seus resíduos e suas migalhas. Mal comparando, lembram células sem DNA próprio. São, por isso, criativamente desimportantes, apesar de bem cultivados em seus ofícios e artes. Mário de Andrade os chamaria de “preparatorianos”, ou seja, de ótimos e aplicados aprendizes. Outros preparatorianos, da estimável estirpe de Nelson Ascher, Carlito Azevedo ou Arnaldo Antunes, caso fizessem parte da coletânea acim…”

JOSÉ CASTELLO

O poeta e crítico Mário Chamie, criador da Poesia Práxis, que marcou profundamente a poesia brasileira na segunda metade do século 20, estará hoje, a partir das 20h30, no Instituto Moreira Salles de São Paulo, conversando com o público na série “O escritor por ele mesmo”. Suas idéias estão, como sempre, afiadas. “A Práxis se caracterizou por combater escolas e movimentos”, diz. Partindo da idéia de que todo autoritarismo é ortodoxo e sectário, que todo grupo fechado é perigoso, Chamie vê a Práxis e seus preceitos (se é que a palavra, que evoca a rigidez, pode ser usada nesse caso) mais vivos do que nunca. “Para a Práxis, a palavra poética nunca deve ser refém de uma teoria prévia”, ele diz, concepção que combina exemplarmente com a época da fragmentação e estilhaços que caracteriza não só a poesia, mas toda a cultura. Trinta anos depois das idéias que fundaram a Práxis, Chamie parece mais agitado que nunca. E disposto a lutar pelos espaços abertos, pelos movimentos sem fronteiras, pelo pluralismo e pela liberdade na poesia. “Penso que a poesia é a linguagem das linguagens”, ele considera, “pois é por meio dela que o inesperado na linguagem se anuncia”. Para preservar a perspectiva do inesperado, contudo, é preciso escrever sem saber o que se deseja encontrar. Em outras palavras, é preciso conservar a liberdade interior. Chamie cita Ferreira Gullar, Bruno Tolentino e Hilda Hilst entre os poetas que, hoje, pelo que se permitem de liberdade, pela autonomia que se concedem ao escrever, dão continuidade aos ideais propostos pela Práxis. É com esse mesmo fôlego de iniciante que ele trabalha num inédito, Horizonte de Esgrimas, título apenas provisório. “Continuo fiel à coragem de desconfiar de todo e qualquer consenso”, ele diz. Preservando esse sentimento selvagem, que Chamie representa, pode-se ler a poesia hoje feita no Brasil com menos superstições e mais surpresa. São os mesmos valores, de liberdade intelectual e disponibilidade para o novo, que se manifestam na entrevista que se segue. Perguntas que Chamie fez questão de responder lentamente, ao longo de mais de dois meses de conversa, e por escrito.

Estado – Em que medida as idéias da chamada Instauração Práxis ainda são atuais? Em que medida os conceitos que desenvolve ainda podem operar e influir na poesia brasileira de hoje?

Mário Chamie – Movimentos e escolas literárias tendem a ser datados com o passar do tempo. A Práxis se caracterizou por combater escolas e movimentos. Ela trouxe ao debate das vanguardas, entre nós, algumas formulações críticas e criativas opostas a sistemas fechados de doutrinas estéticas. Por isso, o seu alvo principal, nos anos 60, foi o concretismo, então modelo de autoritarismo poético. Todo autoritarismo é ortodoxo e sectário. O concretismo, enquanto movimento centralizador, nasceu sob o império do controle, já a partir do seu manifesto nuclear, o chamado Plano-Piloto. Para Práxis, a palavra poética nunca é refém de uma teoria prévia. A liberdade de sua criação é, em si, uma heterodoxia ativa. Quando o poeta, no exercício dessa liberdade, encontra ou inventa a sua palavra, ele não precisa pedir a bênção consensual ao receituário de nenhum plano preestabelecido. Daí porque Práxis não é um episódio datado na história de nossa literatura. Sua presença combativa impediu que, nos anos 60, fosse imposto um discurso hegemônico e exclusivista à nossa poesia. Isso preparou o terreno e legitimou a pluralidade de alternativas de nossa produção artística, dos anos 70 até hoje. Antonio Candido sintetizou muito bem essa legitimação ao escrever: “A Poesia Práxis recuperou o verso de maneira renovada e intensificou a referência às circunstâncias do mundo.”

Estado – Essa preparação de terreno incluiria o que se pode chamar de pós-modernidade da poesia brasileira do fim do século 20?

Chamie – Vários estudos e ensaios sinalizam na direção de que Práxis representa uma passagem da modernidade à pós-modernidade na poesia brasileira contemporânea. É o caso do livro Retrato de Época/Poesia Marginal, Anos 70, de Carlos Alberto Messeder Pereira. Nesse livro, o autor admite que as nossas objeções aos conceitos de movimento, sistema e tecnicismo poético “desempenham um papel de peso” naquela transição. De fato, depois delas, começou-se a falar, no Brasil, em poesia da década de 70, 80 e 90. Essa substituição do conceito de movimento literário pelo conceito de época ou década foi muito significativa. Ela aconteceu num momento histórico em que as noções de movimento e sistema já eram utilizadas pelo golpe militar de 1964 como identificadoras de seu projeto ditatorial. Evidenciou-se, com a substituição, que tanto em literatura quanto em política as expressões “movimento” e “sistema” são sinônimas de repressão e prepotência. Repressão no sistema literário, prepotência no sistema de poder. Esse duplo cerceamento sufocou a práxis individual do artista e sua subjetividade criadora. Foi, exatamente, contra a língua e o discurso desse sufoco que se insurgiram a fala coloquial e o idioleto anárquico dos chamados poetas “marginais”.

Estado – Você vê relação direta entre o sistema do regime militar de 64 e o aparecimento da chamada poesia marginal dos anos 70?

Chamie – Sem dúvida. A poesia dos anos 70 assumiu a sua marginalidade frente a tudo o que lembrasse poder ou sistema político e literário. Razão pela qual os poetas marginais não constituíram um movimento, não se organizaram em grupo homogêneo, nem lançaram qualquer manifesto programático. Despolitizados, Literatura e Estado, para eles, eram faces da mesma moeda, cunhada pelo mito da norma e do controle. Mais: Literatura e Estado, a seu ver, se contrapunham à vida cotidiana e anônima das sensações e emoções individuais. Se a poesia anterior se exilava no corpo social (para combatê-lo ou não), a poesia da década de 70 procurou exilar-se no corpo físico das pessoas e do próprio poeta para, numa réplica negativa do corpo social, romper seus limites. A experiência corpórea desse rompimento incluía a droga, o sexo e outros avatares da contracultura. Assim, bem ou mal, a poesia da década de 70 ‘cenarizou’ o embate da vida contra a letra, o que o bom humor do poeta Cacaso soube resumir neste seu poemeto: “Poesia/ eu não te escrevo/ eu te/ vivo/ e viva nós!”

Estado – Você tem sempre sustentado a primazia da poesia sobre as outras linguagens e os demais gêneros literários. Se é assim, por que a grande mídia reserva pouco espaço a ela?

Chamie – Penso que a poesia é a linguagem das linguagens, pois é nela e por ela que o inesperado dizer sobre as coisas se anuncia. Ela é sempre inaugural e desconcertante. Não se domestica com poéticas a palavra imprevisível do poema. Platão rejeitou a presença dos poetas em sua República por desconfiar da força desestabilizadora de suas transgressões. Hoje, a República que tenta descartar a poesia é outra. É uma república de mil faces, sob a regência de um deus único e poderoso: o Mercado. Este tem na mídia o espaço específico para o funcionamento de sua lógica, que privilegia a mercadoria, o consumo ou as falsas objetividades, divididas entre a “auto-ajuda” e o entretenimento massificante. Ora, sem valor mercadológico e longe de ser entretenimento ou auto-ajuda, a poesia não cultiva igualdades apaziguadas. Ao contrário, ela devassa discursos, libera diferenças, não pacifica e traz inquietude. Utopia incessante de si mesma, a poesia sopra sobre as repúblicas estáveis do consenso os ventos do dissenso, com que cada poeta dita a própria singularidade. Baudelaire emblematizou essa singularidade na figura do flaneur ou do apache, ou seja, na figura daquele indivíduo que, mesmo fazendo parte da massa urbana padronizada, reconhecia-se único e solidário, ao mesmo tempo. A lição permanente de Baudelaire é esta: no horizonte da poesia não há lugar para a mesmice multiplicada ou repetida. Que todo poeta seja singular e faça a sua diferença!

Estado – Depois do anos 70, a poesia brasileira, a dos anos 80 e 90, inventou um novo dizer ou recaiu na mesmice multiplicada de que você fala?

Chamie – De certo modo, os poetas de 80/90 (surgidos no período ou remanescentes dos anos 60) estão para as vanguardas e a poesia marginal assim como a geração de 45 esteve para o modernismo. Tomada ainda por resquícios livrescos, a produção desses poetas retraiu-se a nichos universitários, antologias, coletâneas, coleções ou corporações autopromocionais. Curiosamente, o aumento de suas publicações e a ampliação de seus nichos somam menos as diferenças e multiplicam mais as igualdades. Não se destaca nessa produção nenhuma personalidade criadora, marcante e original. Para se ter idéia disso, basta recorrer às suas coletâneas ou antologias. A leitura de uma valeria pela leitura de todas. Por exemplo, a coletânea Artes e Ofícios da Poesia (SMC/Artes e Ofícios editora, 1991), organizada por Augusto Massi. Ler os depoimentos e poemas, ali presentes, revela os ofícios e artes de uma poesia que tapa os ouvidos para fugir da própria voz. Os poetas que lá estão, em sua maioria, primam pela paráfrase, citação, cópia, transcrição e rasura de discursos alheios já consagrados. De Sebastião Uchoa Leite, passando pelo epígono da poesia práxis, Armando Freitas Filho, até José Paulo Paes ou Francisco Alvim, o diapasão parece ser um só: andam muito à sombra de autores ou tendências que veneram, nutrindo-se de seus resíduos e suas migalhas. Mal comparando, lembram células sem DNA próprio. São, por isso, criativamente desimportantes, apesar de bem cultivados em seus ofícios e artes. Mário de Andrade os chamaria de “preparatorianos”, ou seja, de ótimos e aplicados aprendizes. Outros preparatorianos, da estimável estirpe de Nelson Ascher, Carlito Azevedo ou Arnaldo Antunes, caso fizessem parte da coletânea acima, com certeza se irmanariam na multiplicação dos pães e peixes da igualdade. A desimportância criativa, porém, não anula a importância histórica dos preparatorianos: a de manterem a poesia em promissor e superável compasso de espera.

Estado – Quem, hoje, na poesia brasileira, estaria fora desse quadro preparatoriano?

Chamie – O assunto me faz pensar num paradoxo. Certa vez, perguntaram a Jean Cocteau quem seria o maior poeta francês. Cocteau respondeu: “Victor Hugo, o que fazer…” (Victor Hugo, hélas…). Apesar de Baudelaire, Rimbaud ou Mallarmé, o inquieto Cocteau, em meio aos preparatorianos residuais da vanguarda européia, lembrou-se de um poeta que encharcou sua poesia de realidade histórica, de dramatizações vocabulares ou de paixões individuais e coletivas. Claro que os nomes que citarei não têm nada a ver com Victor Hugo, assim como os rasuradores da resposta anterior nada têm a ver com Baudelaire, Mallarmé ou Rimbaud. Mas dentro de um paralelismo imperfeito, estariam fora desse quadro todos aqueles autores que, entre riscos e apostas, se empenharam na descoberta de sua linguagem autônoma, por meio da qual nos seja possível ver, ouvir e testemunhar, na “referência às circunstâncias do mundo”, uma objetividade menos óbvia e mais surpreendente. Ferreira Gullar, Bruno Tolentino, Hilda Hilst, Gerardo Mello Mourão, Alberto da Cunha Melo não estariam entre aqueles que, a seu modo, ignoraram os apelos e as conveniências de uma poesia preparatoriana.

Estado – A crítica tanto quanto a poesia está também recolhida em nichos?

Chamie – Como disse Proust: “l’être suit son vice”. Acredito que sim. Veja a chamada crítica universitária. Ela atua por adoção e exclusão. Os adotados pelo nicho são, necessariamente, fundamentais e valiosos. Essa atitude descamba para um tipo de crítica que eu chamaria de celebração seletiva. Qualificados ensaístas e eméritos professores a exercitam. Um recente e brilhante exemplo dessa atitude pode ser encontrado no artigo ‘Elefante Complexo’, de Roberto Schwarz (Jornal de Resenhas, Folha de S. Paulo, 10/2/2001). O artigo é uma pérola celebratória que passa ao largo de inconsistências e equívocos explícitos do livro que louva. Ora, a base de toda celebração costuma ser o louvor. Sabe-se, também, que o louvor não tem compromissos com a isenção nem sempre considera a fronteira legítima das análises objetivas. Felizes são, portanto, os chamados e escolhidos pelos nichos do Senhor!

Estado – Seu livro Lavra Lavra está completando 40 anos. Sua última obra poética é Caravana Contrária (1998). Navegar contra a corrente é uma forma de rever consensos estabelecidos?

Chamie – De meu livro de estréia Espaço Inaugural a Lavra Lavra, e deste a Caravana Contrária e ao meu novo livro inédito Horizonte de Esgrimas (título provisório), continuo fiel à coragem de desconfiar de todo e qualquer consenso. Essa fidelidade, para mim, nobilita a solidão incorruptível do ato de escrever poemas. Uma solidão regida pela ética da verdade e da beleza, o bem maior que dignifica a vida e o destemor honesto do dissenso. Navegar contra a corrente é combustível dessa ética, já que a favor das correntes nem mesmo o mar se move. Não seria, talvez por isso, que, no famoso poema de Paul Valery, o mar está sempre começando e recomeçando? Navegar contra a corrente é preciso, pois nos ensina a descobrir e a conviver com o sentido de mão dupla, no ir e vir das idéias e das coisas. No meu poema Esboço de Breve Manifesto Dromedário, de Caravana Contrária, tento dizer algo a respeito.

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Entrevista concedida ao escritor

José Castello,

O Estado de São Paulo, 19.06.01