Por Lívio Oliveira (in blog Teorema da feira)


Aí abaixo vai, em primeira mão, para a apreciação livre do público leitor deste blog, a entrevista que tive a honra e a felicidade de fazer com Nelson Patriota, um dos mais importantes intelectuais do Rio Grande do Norte.

Escritor, crítico literário, tradutor, revisor, desenvolve suas atividades
intelectuais com seriedade, honestidade e com olho e mão extremamente
meticulosos. Tudo que produz tem a marca da qualidade e do esmero. Desde a época
d’O Galo (onde publiquei textos pela primeira vez), tenho um respeito elevado
por Nelson. E, de uns tempos para cá, vemos que Nelson tem se dedicado à
literatura de ficção, com recente estreia em torno do livro de contos “Colóquio
com um Leitor Kafkiano”, o que demonstra mais uma vertente que segue com primor.
E Nelson já anunciou que virá um romance seu por aí, além de uma seleção de
pequenos ensaios com fulcro na literatura norte-rio-grandense, o que são
notícias realmente alvissareiras.

Vamos à entrevista:

L.O. Nelson, em primeiro lugar quero expressar a minha especial curiosidade
acerca da importância e da realização de uma vida pessoal dedicada às palavras
literárias. Isso lhe satisfez e/ou satisfaz? Isso lhe preencheu
profissionalmente? Houve impasses nessa história?

N.P. Eu poderia dizer que tem sido uma forma de satisfação pessoal, haja vista
que o convívio diário com os livros é uma escolha, dentre inúmeras outras que eu
poderia eleger na vida. Optei por escrever e isso supõe a leitura como ponto de
partida e de chegada: uma simbiose que se renova no próprio ato da
leitura/escrita. Eu não diria que isso me satisfaz profissionalmente, até porque
sendo jornalista e exercendo esse ofício, entre outros, me sinto
profissionalmente dividido. Mas é uma opção pessoal inegociável, não importando
satisfações profissionais que daí decorram. Quanto a impasses, enfrentei-os de
diversos tipos, mas sempre soube o que quis.

L.O. Que estágio de sua trajetória intelectual você se considera vivendo
atualmente?

N.P. Estou vivendo uma fase de estabilidade em que administro minha obra e
encaminho-a para um determinado sentido. Para isso, faço opções e elejo

prioridades, tanto de escritura quanto de leitura. Devo confessar, ao contrário
de alguns escritores, que preciso da leitura, pois ela alimenta o que escrevo.
Para dar um exemplo, planejo publicar nos próximos meses uma seleção de pequenos
ensaios centrados na literatura norte-rio-grandense, fruto, aliás, de leituras
que fiz nessa área.


L.O. Em que a experiência com a editoração de O Galo contribuiu, Nelson, para
sua construção como intelectual?

N.P. A experiência à frente de O Galo foi importante para aprofundar minha
convivência com escritores de minha geração, especialmente os nordestinos, mas
também de outras regiões do país. Dirigir O Galo também me ajudou a me
disciplinar profissionalmente e desenvolver um modo de ver e avaliar o que
chamamos de literatura, sua função, seu valor, seu alcance etc. Posso dizer
ainda que esse diálogo multiliterário me auxiliou a amadurecer conceitos e
valores literários. Acrescentaria, porém, que minha relação com a literatura
começou efetivamente no convívio doméstico, com meus pais e irmãos. Outro
momento importante foi minha experiência profissional no jornal A República,
duas décadas antes de O Galo, quando criei uma página literária dominical que
deu origem ao suplemento cultural Contexto, na mesma “República”, do qual fui
também editor
.

L.O. Que transformações O Galo produziu no que concerne à Literatura Potiguar (e
Nacional)?

N.P. Não creio que O Galo, em suas diversas fases, tenha produzido alguma
transformação significativa na literatura potiguar, mas sem dúvida deu frutos
diversos. Um deles foi a minha Antologia poética de tradutores
norte-rio-grandenses (EDUFRN, 2008), cujo embrião foi O Galo. A fortuna crítica
que ajuntei à edição crítica do livro Corpo de Pedra, de Bosco Lopes, editado
também pela editora da UFRN em 2007, retirei-a integralmente da edição de O Galo
que dediquei ao poeta Bosco Lopes. A reedição de 113 traições bem-intencionadas,
de Luís Carlos Guimarães, que preparei para a Editora da UFRN, ganhou textos
retirados de edições de O Galo. Essas três obras já permitem ver que não foi vão
o trabalho feito em O Galo, sem falar que outras obras poderão ser retiradas,
num futuro não distante, daí, como uma seleção de entrevistas com poetas e
prosadores, por exemplo. Penso, porém, que o trabalho que desenvolvi n’O Galo
não acabou. De certo modo, prossegue no trabalho que faço como editor da Revista
do Conselho Estadual de Cultura e nas atividades que faço na Editora da
Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

L.O. A Literatura produzida no RN tem autonomia e essencialidade? Em que patamar
se encontra dentro do contexto nacional?

N.P. É difícil julgar coisas como alcance e essencialidade de uma literatura.
Mas é evidente que a literatura potiguar tem suas características, limitações e
contribuições próprias, e permanece sob o domínio do nome de Luís da Câmara
Cascudo, embora menos do que no passado. De todo modo, Cascudo é ainda o nome
que mais repercute para além das fronteiras estaduais. O maior paradoxo dessa
situação é que, sem ter sido poeta nem ficcionista, Cascudo ofusca todos os
demais nomes da nossa literatura. E aí cabe a teoria de Harold Bloom sobre a
angústia da influência. Cascudo é uma influência que continua angustiando cada
autor norte-rio-grandense per se. É no convívio com essa influência que a nossa
literatura terá de amadurecer para ganhar outras referências à altura dele. Não
obstante, é inegável que a poesia norte-rio-grandense tem uma trajetória
evolutiva, se a observarmos desde Auta de Souza e Otoniel Menezes, passando por
Jorge Fernandes e Myriam Coeli, e chegando até Luís Carlos Guimarães, Zila
Mamede e Nei Leandro de Castro. Da mesma forma, o conto potiguar vem ganhando
autonomia crescente desde Antônio de Sousa, Otoniel Menezes, Myriam Coeli e
Eulício Lacerda a Nilson Patriota, Tarcísio Gurgel e Bartolomeu Correia de Melo.

L.O. Em sua opinião, quais os melhores momentos da Literatura feita no Estado?

N.P. A década de 1920, com Otoniel Menezes, Ferreira Itajubá, Gotardo Neto,
Henrique Castriciano, Luís Patriota, o jovem Câmara Cascudo, entre outros, criou
as bases da nossa literatura, definindo sua opção preferencial pela poesia, como
ainda hoje acontece, embora em menor intensidade. Os anos de 1950 e seguintes,
com a geração de Câmara Cascudo, Américo de Oliveira Costa, Otacílio Alecrim,
Esmeraldo Siqueira, Otto de Brito Guerra, entre outros, foi um grande momento
das nossas letras. A geração seguinte, com Jarbas Martins, Nei Leandro de
Castro, Luís Carlos Guimarães, Zila Mamede, Sanderson Negreiros, Nilson
Patriota, Jurandyr Navarro, Moacy Cirne, Diógenes da Cunha Lima, Anchieta
Fernandes, Jaumir Andrade, Manoel Onofre Jr., Francisco Sobreira, Dorian Gray,
Newton Navarro, Bosco Lopes, Tarcísio Gurgel, Dailor Varela, entre outros,
explorou caminhos mais diversificados, como o romance, a poesia, o ensaio, a
crítica literária etc. A geração atual, com Bartolomeu Correia de Melo, Pablo
Capistrano, Paulo de Tarso Correia de Melo, Clauder Arcanjo, Carmen Vasconcelos,
Lenilson Antunes, Leide Câmara, Francisco Ivan, Volonté, Dácio Galvão, Carlos de
Sousa, Cláudio Galvão, Lima Neto, Lívio Oliveira, Davi Leite, Valério Mesquita,
Inácio Magalhães de Sena, Elísio Medeiros, Vicente Serejo, Ivan Maciel, Cláudio
Emerenciano, Iracema Macedo, Marize Castro, Diva Cunha, entre outros nomes, se
mostra não menos produtiva, expandindo os caminhos já explorados pela geração
anterior e aprofundando temas como a tradução poética, a biografia, o ensaio
histórico, a musicologia etc. Com isso, podemos ver que nossas letras seguem num
processo de desenvolvimento, renovação e expansão.


L.O. Nelson, como conciliar os papéis de crítico literário e autor, sem afetar
ambas as facetas do escritor e intelectual?

N.P. Como afirmei acima, minha escritura se alimenta de minhas leituras, na
medida em que me sugerem ideias, me propõem desafios, me inspiram projetos e
enriquecem minha experiência de vida. Assim, não posso ver qualquer tipo de
conflito ou incompatibilidade entre as leituras literárias que faço,
paralelamente às atividades de crítico, ensaísta e tradutor e, ainda, de
ficcionista. Alguns contos do meu livro Colóquio com um leitor kafkiano, de
2009, seriam inimagináveis sem certas leituras literárias, e não só de Franz
Kafka, como agudamente observou o crítico Tácito Costa, aliás um excelente
leitor, da linhagem de Manoel Onofre Jr., Pedro Vicente Costa Sobrinho, Vicente
Serejo e Paulo de Tarso Correia de Melo.

L.O. Fazer crítica literária é algo perturbador? Em que medida é vital para a
Literatura?

N.P. A crítica literária sempre foi uma atividade vista como essencial para a
renovação de qualquer literatura, pois é a crítica que determina, pouco a pouco,
o que é transitório e o que é permanente numa dada literatura, suas nuanças,
suas inflexões, suas inovações etc. Se eventualmente isso pode ser algo
perturbador não é uma questão essencial; a crítica pode ser prazerosa quando
depara com uma descoberta que passara despercebida numa primeira leitura e
aflora numa segunda; pode ser enervante quando depara com um mau livro, um mau
romance, pretensioso e fátuo; pode ser intrigante quando produz perplexidade e
espanto à primeira leitura etc., mas sempre acrescenta e ilumina as veredas
literárias.

L.O. Nelson, você teve publicado recentemente um livro de contos. E tem no prelo
um romance. Em que medida o romance é a continuidade do conto? Ou são gêneros
absolutamente autônomos?

N.P. Romance e conto às vezes se confundem, de tão próximos que são, já que se
distinguem, em geral, pelo número de páginas. É evidente, porém, que o romance
pode se distinguir por dispor de uma estrutura muito mais complexa do que o
conto. No meu caso, posso dizer que o fato de escrever contos há muitos anos, me
deu confiança para tentar o romance. Mas nada implica que não existam
romancistas sem contos e contistas sem romance. O argentino Jorge Luis Borges é
um contista que nunca escreveu romance. Entre nós, Tarcísio Gurgel e Bartolomeu
Correia de Melo são dois contistas que não se aventuraram, até o presente, pelo
romance. É mais raro que se dê o contrário.

L.O. A experiência como tradutor lhe agrada e lhe beneficia como escritor? Em
que medida?

N.P. cheguei à tradução literária depois de ter trabalhado com traduções
diversas de línguas como o francês, o inglês, o espanhol, entre outras. Traduzir
poesia se tornou para mim um desdobramento de outras traduções, haja vista que a
leitura da poesia em outros idiomas sempre traz consigo o desafio da tradução.
Foi assim que comecei a traduzir Skakespeare, Goethe, Tennyson, Auden, Frost,
Borges e, ultimamente, a argentina Maria Negroni cuja prosa poética deita raízes
no Baudelaire do Spleen de Paris e dos Pequenos poemas e prosa e evoca o Pierre
Michon de Vidas Minúsculas e o Haruki Murakami de “Blind Willow, Sleeping
Woman”. Meu interesse por tradução poética cresceu devido ao diálogo permanente
que mantenho com o poeta Jarbas Martins, leitor apaixonado de poesia. A amizade
com o poeta Luís Carlos Guimarães foi outra influência fundamental para a ideia
da “Antologia poética” que publiquei. Como traduzir é também uma forma de
criação (ou recriação), sinto grande prazer intelectual em traduzir Tennyson,
Auden e Goethe e outros poetas de minha eleição.


L.O. Que momento vive hoje a Literatura Brasileira? Temos um futuro
alvissareiro?

N.P. É difícil avaliar a literatura contemporânea brasileira, são muitas
regiões, cada uma com seus autores e que, muitas vezes, ficam restritos a ela e
só após anos é que repercutem em outras. Sei que o Brasil tem hoje, como teve em
outras épocas, bons, medianos e maus escritores. Já temos um presente
alvissareiro em termos literários, haja vista a dinâmica que caracteriza o
mercado editorial brasileiro e o movimento nas livrarias, nas feiras de livros
etc. O nosso amor próprio, porém, só se dará por satisfeito quando tivermos um
Nobel de literatura, como propõe o escritor Fernando Monteiro em seu livro O
Grau Graumann, que imagina um Nobel brasileiro de origem germânica. Mas isso é
outro departamento, como diria o poeta Bosco Lopes.


L.O. E a Literatura do RN? Como se situa no atual contexto das letras nacionais?

N.P. Se formos medir em termos de best-sellers, talvez não tenhamos muito o que
comemorar. Mas se observarmos o vigor, a diversidade e a ousadia dos nossos
poetas e ficcionistas, biógrafos e ensaístas, a literatura que se faz hoje no
Rio Grande do Norte é dotada de grande riqueza e criatividade comparativamente
ao que se faz em Estados vizinhos, como Paraíba, Ceará e Pernambuco.

L.O. Em sua opinião, as Academias de Letras detêm alguma finalidade importante
no contexto atual?

N.P. As Academias de Letras e outras instituições públicas de cultura sempre
tiveram um papel importante enquanto instâncias animadoras das letras, embora,
às vezes, esse dinamismo seja alternado por períodos de acomodação. Lembremos
que faltou à glória da Academia Francesa o nome de Molière; à brasileira, o
grande poeta Mario Quintana e à norte-rio-grandense o grande vate Otoniel
Menezes. É que por trás das instituições estão os homens, com seus interesses,
suas idiossincrasias, seus projetos pessoais que nem sempre traduzem os
interesses maiores da cultura, embora possam, sim, se mostrar em sintonia com
esses interesses. Encaradas de um ponto de vista pragmático, poderíamos afirmar
que as academias de letras e afins são melhores na medida em que mais bem
dialogam com os outros meios culturais, que se abrem à sociedade em que se
inserem, e vice-versa.

L.O. Nelson, estabeleça, se possível e se quiser, um mínimo cânone de autores
mundiais da atualidade.

N.P. Um cânone mundial contemporâneo é algo que foge ao meu alcance, até porque
não me acho em condição de dar conta de tantos nomes, tantas geografias
literárias. Mas tenho minhas preferências estrangeiras: Gabriel García Márquez e
seu insuperável Cem anos de solidão, os tantos romances de Mario Vargas Llosa,
de Adolfo Bioy Casares, dos uruguaios Juan Carlos Onetti e Horácio Quiroga, o
tão presente Borges, o onipresente Saramago… Dos europeus em atividade, os
portugueses Antônio Lobo Antunes, Agustina-Bessa Luís e Miguel Sousa Tavares, os
franceses Michel Houellebecq, Jean-Claude Carrière, J. M. G. Le Clézio e Pierre
Michon, e os ingleses Doris Lessing e Ian McEwan, o italiano Umberto Eco, os
alemães Martin Walser e Günter Grass, o albanês Ismail Khadaré, o egípcio Naguib
Mahfouz, a canadense Margaret Atwood, e, mundo afora, os americanos Philip Roth,
John Cheever, Raymond Carver, Norman Mailer, Paul Auster, o sul-africano J. M.
Coetzee, os japoneses Yasunari Kawabata e Haruki Murakami e outros. Sem falar
que nesse processo de leitura, que é, aliás, um processo livre, podemos
recuarmos aos clássicos e, em seguida, contatarmos um novo escritor, que não
precisa necessariamente ser nosso contemporâneo.

L.O. E nacionais? (Não pedirei, Nelson, para fazer o mesmo com a Literatura do
RN. Afasto de você esse cálice.).

N.P. Estes formam um conjunto muito variado: João Ubaldo Ribeiro, Gilberto
Mendonça Teles, Fernando Monteiro, Raimundo Carrero, Carlos Trigueiro, Rubem
Alves, Ronaldo Correia de Brito, Francisco Carvalho, Jorge Tufic, Ariano
Suassuna, Marco Lucchesi, Maria Lúcia dal Farra, Claudio Aguiar, João de Jesus
Paes Loureiro, Hildeberto Barbosa Filho, Ivo Barroso, Renard Perez, Francisco
Dantas, Ruy Espinheira, Marcus Accioly, Jaci Bezerra Lima, Cristovam Tezza,
Edson Nery da Fonseca, Carlos Heitor Cony, Milton Hatoum…

L.O. O que é que um leitor deseja? Como escolher autores e livros?

N.P. Como leitor, desejo um livro bem escrito e que contenha uma história de
vida, ou seja, um romance, um conto, uma novela, enfim, uma narrativa que fale
de algo que amplie minha visão do humano. Os grandes livros se parecem nesse
aspecto, mesmo quando enveredam pelo terreno do fantástico, das aventuras
extraterrestres, das sagas e dos mitos porque, no fundo, como disse Lukács, toda
literatura é, na essência, realista, isto é, humana.


L.O. O que um escritor almeja? Como conquistar o leitor?

N.P. Lançando mão de um velho truísmo, diria que todo escritor quer ser antes de
tudo lido. A poetisa americana Edna Saint Vincent Millay expressou essa ideia
num verso famoso: “’Read me, do not let me die!” (“Leiam-me, não me deixem
morrer”), e Saramago pediu que o lessem em voz alta, a fim de preservar a
oralidade que perpassa sua prosa. Mas é claro que, no fundo, cabe ao leitor a
última palavra nessa questão, o que revela também a enorme fragilidade que cerca
o ofício do escritor.

L.O. Que contribuições as novas mídias, internet, livros digitais podem dar às
letras?

N.P. Estamos ainda engatinhando na era da internet. Mas o que temos visto até
agora nos permite fazer algumas ilações sobre o potencial da rede mundial e suas
consequências, comparáveis à revolução que Gutenberg promoveu com seus tipos
móveis capazes de reproduzir indefinidamente um texto qualquer. A arte, a
poesia, a ficção, já se beneficiam grandemente de invenções como o e-book, o
e-reader, os leitores eletrônicos, as comunidades virtuais, a instantaneidade
das mensagens, os e-texts, os infopoemas etc. Mas ainda é cedo para avaliar o
impacto dessas invenções sobre o universo literário
.

L.O. Em sua opinião, o livro, como suporte físico da palavra, vai desaparecer
algum dia?

N.P. Não creio, embora admita que muitos internautas tentam vender essa ideia
como uma vantagem. A rigor, acho que se a literatura migrasse totalmente para a
rede mundial, perderia visibilidade e se refletiria num empobrecimento geral do
homem. Não podemos correr o risco de restringirmos a leitura a uma máquina.
Máquinas são falíveis, às vezes “rebeldes” entram em colapso, aturdem, confundem
e respondem mal ao que se espera delas. Há uma questão ainda mais grave por trás
disso: como haveremos de atrair as crianças para a literatura, senão lhes
oferecendo belas edições, com ilustrações, letras atraentes, relevos (pop-ups),
que elas possam transportar para onde o desejarem, abrindo-as e folheando-as

onde quiserem? Isso só poderá ser realizado por meio do objeto livro; uma
máquina, por mais “inteligente” que seja, poderá cair e quebrar. E fechada, não
constituirá qualquer atrativo para uma criança. E se a criança não for atraída
para a leitura e, consequentemente, para a ficção, como formaremos novos
leitores no futuro? Ou contamos com o fim da literatura nesse tempo? Aí haveria
então de se cumprir a maldição de Fukuyama: seria o fim da história, ou seja, da
humanidade. Acho que o livro provou que é um aliado dos homens e não merece
(seria perigoso), portanto, esse degredo que alguns tantos apressados tentam
oferecer como vantagem. Preferirei sempre o livro em papel, até por uma questão
estética, “epicurista”, mesmo. E me dou conta cada dia mais que não sou uma voz
minoritária
.

L.O. Nelson, quais são suas perspectivas e metas quanto à produção literária
pessoal?

N.P. Espero publicar alguns livros que já escrevi na área do conto, do romance,
da crítica, do ensaio. Espero ainda escrever outros livros de ficção e,
sobretudo, ler a ótima prosa literária, a excelente poesia, os grandes ensaios
que, felizmente, existem em farta medida neste mundo. Gosto de pensar, como
Borges, que alimento esse pecadilho da vaidade que é jactar-me dos livros que li
e leio e, às vezes, releio. Os livros alheios nos permitem essa forma
desculpável de vaida
de.