Nelson Patriota entrevista o poeta Jarbas Martins

Por Nelson Patriota

“Acho que para mim ela [a poesia] tem uma finalidade que os antigos provençais nela vislumbravam: afastar o tédio. Nada mais eficaz”.

Na confortável condição de poeta e crítico de poesia de crescente visibilidade na seara das letras potiguares, Jarbas Martins é um interlocutor indispensável para a compreensão de tudo o que acontece no seu campo de pesquisa. Não é de todo ocioso lembrar que, embora tenha se limitado bibliograficamente a dizer-se autor de tão somente duas obras – “Contracanto” (1979), “14 versus 14 – itinerário do soneto norte-rio-grandense” (1994), em 2008, lançou um pequeno poema ilustrado sob o título de “Antielegia para Emmanuel Bezerra” (2008) e anunciou o lançamento para breve de uma coleta de inéditos e dispersos enfeixada no título “re-Visões e outros poemas contra-acabados”. Enfim, destaca-se também como profícuo tradutor de poesia, como atesta a “Antologia poética de tradutores potiguares”, organizada pelo escritor Nelson Patriota e publicada pela Editora da UFRN.

Crítico das vanguardas, Jarbas Martins não desmerece os contributos dos seus múltiplos avatares, especialmente o poema/processo. Leitor e buscador de novidades poéticas onde quer que se encontrem – a rede mundial é seu novo fetiche – Jarbas Martins responde aqui, em doze etapas, algumas indagações sobre as relações que mantém com a poesia – a sua e a alheia – e a crítica poética.

01 – Na dupla condição de poeta e de estudioso de poesia, que contribuição você acha que já deu à poesia potiguar e o que você que ainda poderá dar a essa poesia?

JARBAS MARTINS: Meu interesse pela poesia potiguar surgiu desde cedo, aí pelos dez anos. Meu pai, autodidata e bom leitor, falava-me, às vezes, da poesia de Auta de Souza. Ele era muito religioso e a poesia de Auta parecia lhe tocar muito. Ouvia também do meu avô paterno, que sempre viveu em Angicos, muitas referências a Auta e seu irmão, também poeta, Henrique Castriciano. Eles, em épocas diferentes, passaram algum tempo no sertão angicano, em busca da cura da tuberculose. Corre a lenda que o soneto “Pelo Sertão” foi escrito por Auta de Souza, em sua passagem por Angicos. Quanto à poesia de Henrique Castriciano. Só muito tempo depois é que tive dela conhecimento. Próximo a terminar o curso secundário no Atheneu conheci (e que deslumbramento) a poesia de Zila Mamede.Quando comecei a ensinar Português, ou melhor, Literatura Portuguesa e Brasileira, nos colégios públicos (Atheneu, Winston Churchill) vez ou outra falava nesses autores, tão esquecidos dos compêndios escolares.Decidi pesquisá-los. Até hoje. Meu deslumbramento de agora é com a poesia multimidiática de Carito, conhecimento via internet. A poesia diante das novas tecnologias tem sido o foco dos meus estudos ultimamente. E tento passar essa motivação para os meus alunos de Comunicação e Artes Visuais, no Departamento de Comunicação Social, da UFRN, onde leciono.

02. Você está preparando uma segunda edição de seu livro 14 versus 14, seleta do soneto norte-rio-grandense. Quando ocorrerá o lançamento dessa obra?

JM. Considero-me, antes de tudo, um antologista. Daí meu interesse pela poesia alheia, muitas vezes em detrimento da poesia que escrevo. Organizei em 1994 uma breve antologia do soneto norte-rio-grandense, que teve, para minha surpresa, uma certa receptividade por parte da crítica local. Em 1995, ou seja, há quinze anos comecei a organizar uma segunda edição ampliada. As notas, que são muitas, estão sempre sendo atualizadas. Tenho que parar. O ano que entra fará 16 (número que lembra um soneto estrambótico) anos que estou preparando essa antologia. Bom ano para o lançamento.

03. A propósito do soneto, qual o lugar que ele ocupa na nossa poesia, hoje?

JM. Nenhuma outra forma poética exibe esse traço de permanência, característica da história do soneto. Nos dias atuais essa obscura flor provençal tem dado prova de vitalidade, seja em seu formato clássico e canônico, seja através de seus avatares: o soneto visual pós-vanguardista de Avelino de Araújo, o sonetilho de Luís Carlos Guimarães, o parassoneto de Nei Leandro. Conteudisticamente se enriquece, de que são provas os falsos sonetos de Iracema Macedo (o soneto fake) ou o soneto pop-midiático de Alex Nascimento, de ampla receptividade. Essa forma poética dialoga também (como nos seus primórdios) com a música, como se vê em composições de Mirabô Dantas,Tico da Costa e Geraldinho Carvalho.

04. Como estudioso da poesia potiguar, você acha que os pontos fortes dessa poesia estão situados no passado, ou, ao contrário, no presente?

JM. Resposta para um futuro que não alcançaremos. Passados cem anos, talvez os nossos tetranetos ainda se lembrarão da forte sonetística de Zila Mamede ou das graciosas mímicas, em catorze linhas, de Avelino de Araújo ou de Alex Nascimento.Ou provisoriamente poderão se esquecer do lirismo de Ferreira Itajubá e Othoniel Menezes.Adivinhar quem há de ?

05. E a poesia brasileira de hoje, que julgamento você faz dela?

JM. Em seu ecletismo, em sua diversidade, é impossível fazer o mapeamento da poesia atual. De maneira que dela só teremos uma visão parcial. E muitos questionamentos. Quem se atreve no momento a fazer um levantamento da chamada infopoesia, ou das chamadas práticas literárias na internet ? Como avaliá-las? É um grande desafio.

06. O que acontece de mais específico e promissor na poesia brasileira?

JM. A poesia que surgirá com o e-book, a que se mesclará com outras tecnologias ou a poesia oral ou sonora que reaparecerá viva e original como em Homero. Ou como em qualquer outro poeta, cujo nome se perdeu no tempo.

07. A poesia norte-rio-grandense teve, durante algumas décadas decisivas, um forte pendor para o experimentalismo, que se traduziu em tentativas ousadas de movimentos de vanguarda. Que balanço você faz desses movimentos e o que resultou de positivo nisso para a nossa poesia?

JM. Vanguarda, experimentalismo são coisas datadas e, portanto, historiografadas. Pertence ao nosso patrimônio histórico. O poema/processo de que fui crítico, até pouco tempo, deixou marcas profundas na poesia brasileira e, em particular, na poesia potiguar. Não se pode negar isso. Nomes de ponta como Avelino de Araújo ou performáticos como Carito pagam tributo a esse importante movimento que foi o poema/processo. Entretanto, é bom que se diga, esse movimento não revelou grandes poetas. E sim pouquíssimos poemas geniais, porque ousados. Costumo dizer que o Rio Grande do Norte é o Estado mais silencioso do Brasil. Poemas como O OLHO de Anchieta Fernandes se fez ouvir e ver em tudo que era Brasil por esse mundo afora. Foi copiadíssimo e diluído. Foi pastichado por uma empresa, e podemos ver os traços do poema de Anchieta até nas camisas de jogadores e nos estádios de futebol. Os livros didáticos costumam reproduzir O OLHO sem citar o nosso conterrâneo. Mas a culpa aí deve ser de Anchieta, Moacy e demais teóricos do movimento, que falavam em abolir o direito autoral. Nesse ponto o poema/processo foi profético. Nada mais atual, nesse mundo fake e de piratarias.

08. Qual movimento de vanguarda deixou contribuições mais importantes?

JM. O poema/processo, sem dúvida. Era realmente o que se podia chamar de uma obra aberta. Além do seu caráter icônico, antecipou a arte da performance, as atuais instalações, reinventou a poesia sonora e a arte povera de origem européia. Dessemantizou e ressemantizou a poesia brasileira. Às vezes parecia que o movimento fazia muito barulho para nada. Mais criatividade do que isso, impossível.

09. Nossa poesia precisa de uma nova vanguarda nos dias atuais?

JM. O termo vanguarda é datado, como já falei. Qualquer tentativa de revisitar o termo soa-me falso. Mas o falseamento é próprio das artes nestes tempos pós-modernos. Moacy Cirne veicula belíssimos poemas em um blog chamado Poema Processo. Claro que Moacy Cirne sabe que a vanguarda não está ali e nem em canto nenhum mais. São outros tempos, outros suportes, outra utopia, outros tudo. Mas o velho Moa, que anda cada vez mais parecido com esse Jeová Barbudo, o Karl Marx, insiste em sonhar. Nada mais saudável.

10. Que traços definem a atual poesia potiguar?

JM. Um experimentalismo disfórico. Mas esse é também um traço presente na poesia universal. Estou lendo atualmente, numa tradução portuguesa, Hans Magnus Eiszemberg. Grande poeta que parece estar remendando e emendando o vazio. Sinal dos tempos.

11. Qual a utilidade (filosófica ou prática) da poesia para a sua vida?

JM. Acho que para mim ela tem uma finalidade que os antigos provençais nela vislumbravam: afastar o tédio. Nada mais eficaz. Digo sempre isso aos meus alunos.

12. Qual o futuro da poesia?

JM. Parafraseando Fernando Pessoa: um futuro outrora agora.

(Fonte: site Substantivo Plural)