Aos 75 anos, publicando seu 22 livro, o filósofo Leandro Konder se diz em situação de orfandade. Foi como resposta às “dores e frustrações” diante da falência do pensamento marxista, ao qual dedicou boa parte de sua vida, que ele escreveu “Em torno de Marx” (Boitempo), tentativa de releitura das ideias do pensador alemão por meio do diálogo com as obras de seis marxistas heterodoxos: Walter Benjamin, Theodor Adorno, Hebert Marcuse, Jean-Paul Sartre, György Lukács e Antonio Gramsci. São autores que o próprio Konder ajudou a divulgar no Brasil, e aos quais ele retorna agora com a intenção de repensar o marxismo.

O senhor defende em seu livro que é necessário pensar Marx como um filósofo. Em sua opinião, a dimensão filosófica da obra de Marx foi negligenciada, ou subestimada?

LEANDRO KONDER: Marx se formou em filosofia e faz filosofia desde o começo em sua obra, embora uma filosofia que assuma vínculos com a sociologia nascente, com a reflexão sobre a História, com a crítica da economia política. Ao longo da história, no entanto, predominou uma leitura não-filosófica de Marx.

O que se poderia recuperar nessa releitura de Marx, e como isso seria diferente das leituras predominantes feitas ao longo do século XX?

KONDER: A noção de que o real é inesgotável, irredutível ao conhecimento crítico, dialético, que ele tem sempre algo a nos dizer que não entendemos ainda. Isso contrasta com o tipo de análise que você encontra, por exemplo, em muitos historiadores marxistas. Existem alguns bons historiadores marxistas, mas há vários que são incapazes de se surpreender com os acontecimentos — adotam sempre um mesmo tom conclusivo, como se tudo que acontece pudesse ser previsto de antemão.

Seu livro reúne artigos sobre seis pensadores que divergiram, em diferentes medidas, do marxismo ortodoxo: Walter Benjamin, Theodor Adorno, Hebert Marcuse, Jean-Paul Sartre, György Lukács e Antonio Gramsci. Que diálogo é possível pensar entre eles?

KONDER: Li muito todos esses caras e eles me marcaram, mas lembro que entre os comunistas muitas vezes eram tratados como inimigos, antimarxistas. Quis fazer uma contribuição modesta a um esforço de repensar a obra de Marx, e achei que um bom caminho era confrontar a ideia desses pensadores com as do próprio Marx. Esses pensadores heterodoxos cabem dentro do campo do marxismo? E se cabem, que mudanças isso implica para o marxismo? Não posso dar uma resposta conclusiva, peremptória, a respeito do que deve ser considerado marxista ou não. O mais importante é reconhecer as dores e frustrações que nos atacam quando olhamos em volta para a situação do marxismo hoje. O marxismo oficial totalmente esfacelado, a falência do modelo leninista, e por outro lado a prática de um marxismo difuso, pouco rigoroso, nas áreas vizinhas.

O senhor sente-se hoje mais próximo a algum desses pensadores incluídos no livro?

KONDER: Se eu leio qualquer um dos seis, me sinto sensível ao poder se sedução de qualquer um deles. Talvez, por causa da preocupação com a ação prática, da contribuição que me sinto obrigado a dar na política, escolhesse Gramsci. Mas quando leio Gramsci também discordo de muita coisa. Eu me sinto, e o livro expressa isso, em estado de orfandade. O esvaziamento, a diminuição da importância das referências proporcionadas pelo velho Marx não está sendo compensada hoje por nenhum autor.

Numa certa crítica pós-moderna à pretensão totalizante de alguns pensadores do século XIX, Marx é um dos autores imediatamente lembrados. O senhor reconhece em Marx essa ambição de explicar a totalidade da vida social?

KONDER: A teoria burguesa condena no século XIX tanto Marx como Hegel, de forma ainda mais radical do que hoje. Certas críticas podem ser tomadas como uma homenagem à força do pensamento de Marx, vindo de onde vêm. Mas diria que Marx trabalha sim com um conceito de totalidade, à maneira dele.

Marx considerava necessário escapar à ideologia, à visão de mundo parcial ligada à classe social, para chegar a uma percepção verdadeira da sociedade. Como o senhor vê essa luta contra a ideologia? É possível saber quando afinal conseguimos de fato escapar à ilusão e chegar à verdade? Ou há sempre uma dúvida, a possibilidade de que continuemos equivocados?

KONDER: Não acho que possamos estar certos de ter escapado à ideologia, mas é preciso conservar esse ímpeto de ir além da percepção unilateral dos problemas. Não devemos pensar o movimento teórico como uma superação definitiva da ideologia, é necessário perceber e respeitar a complexidade ilimitada da realidade. Mas, tendo isso em mente, é possível avançar na descoberta da verdade. O conceito de verdade é incômodo, amargo, mas inevitável. Sem ele, não há teoria do conhecimento que resista.

O seu livro é todo remetido à atuação política, a partir da atenção dada ao conceito de práxis desenvolvido por Marx. Como o senhor avalia hoje a política brasileira?

KONDER: Há um movimento muito forte, embora pouco estruturado, no sentido de adotarmos aqui critérios liberais. Existe uma tentativa de aproximar as noções de liberalismo e democracia. Eu sou um democrata. Democracia é outra coisa: transformação econômica, social. Nossos liberais não chegam lá. Param no meio do caminho, pedindo mercadorias. Essa é uma realidade mundial que tem no Brasil uma história particular.

E o governo Lula? Algum candidato empolgou o senhor nas últimas eleições?

KONDER: Lula é um líder carismático, mas ele fez coisas importantes, coisas que não queremos que sejam destruídas. Achei interessante a sucessão de um ex-operário por uma mulher, mas sem ilusões. Temos pela frente um caminho pedregoso.