Por Homero Senna

Entrevistado por Homero Senna            /           Publicada originalmente na

República das letras. 3ed. R.Janeiro: Revista do Globo, n. 473,     Civilização Brasileira, 1996                     18/12/1948

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Principio por pedir a Graciliano Ramos que me diga alguma coisa sobre os começos de sua vida, no interior de Alagoas, na cidade de Quebrangulo (não Quebrângulo, como geralmente se diz), onde nasceu.

Mas isso tudo está contado em Infância… Valeria a pena repetir?

E como eu dissesse que sim, resumiu:

De minha cidade natal não guardo a menor lembrança, pois saí de lá com um ano. Criei-me em Buíque, zona de indústria pastoril, no interíor de Pernambuco, para onde, a conselho de minha avó, meu pai se transferiu com a família. Em Buíque morei alguns anos e muitos fatos desse tempo estão contados no meu livro de memórias.

 

Abro o volume, para conferir, e, entre outras coisas, lá encontro este perfil psicológico do velho Ramos, traçado pelo filho: “Tinha imaginação fraca e era bastante incrédulo. Aborrecia os ateus, mas só acreditava nas contas correntes e nas faturas. Desconfiava dos livros, que papel agüenta muita lorota, (1) e negou obstinadamente os aeroplanos. Em 1934 considerava-os duvidosos…”

De quem o romancista teria herdado, então, o gosto pela literatura? Talvez do avô paterno,  cujo retrato desbotado costumava admirar no álbum que se guardava no baú, e de quem admite tenha recebido em legado “a vocação absurda para as coisas inúteis”. De sua mãe, o espírito infantil recolheu esta impressão: “Uma senhora enfezada, agressiva, ranzinza, sempre a mexer-se, várias bossas na cabeça mal protegida por um cabelinho ralo, boca má, olhos maus que em momentos de cólera se inflamavam com um brilho de loucura”, ente difícil que na harmonia conjugal “se amaciava, arredondava as arestas, afrouxava os dedos que batiam no cocuruto, dobrados, e tinham dureza de martelos”.

De Buíque, onde o romancista freqüentou a primeira escola, experimentou os primeiros desânimos diante dos livros didáticos do Barão de Macaúbas e viveu algumas das inesquecíveis aventuras de sua meninice, a familia mudou-se para Viçosa, não a de Minas, terra do presidente Bernardes, mas açucareira do interior de Alagoas. O que foi a extensa caminhada, de dezenas de léguas, desde os campos ralos, povoados de xiquexiques e mandacarus, até uma nova paisagem, de vegetação densa e muito verde, longa viagem feita em lombo de animal, está contada numa das melhores páginas de Infância.

De Viçosa, Graciliano passou a Maceió, onde freqüentou um colégio mau; voltou e, aos 18 anos, foi morar em Palmeira dos índios, no interior do Estado. Em Palmeira dos Indios chegaria a prefeito, e foi graças a dois relatórios, que nessa qualidade escreveu, que se tornou conhecido.  Mas não precipitemos os acontecimentos.

Estamos ainda em 1914. Nesse ano realiza Graciliano sua primeira viagem ao Rio, tendo trabalhado aqui como foca de revisão. No Correio da Manhã e n’O Século, de Brício Filho, não passou de suplente de revisor, trabalhando apenas quando o revisor efetivo faltava. Em A Tarde, porém, um jomal surgido, naquela época para defender Pinheiro Machado chegou a revisor efetivo. Morou em várias pensões, naquele Rio dos princípios do século, que tantos cronistas já têm descrito. Os antigos endereços ficaram-lhe na memória, e sem qualquer esforço o romancista os vai citando: Largo da Lapa 110; Maranguape 11, Riachuelo 19… Todos numa zona então muito pouco recomendável, porque bairros de meretrício, de desordeiros e boêmios.

- A pensão do Largo da Lapa está em Angústia confessa-me o escritor. – Dagoberto foi meu vizinho de quarto

- Nessa sua primeira viagem à Corte procurou aproximar-se de algum escritor, fez camaradagem literária,?

- Nenhuma.  Os escritores daquele tempo eram cidadãos que, nas livrarias e nos cafés, discutiam colocação de pronomes e discorriam sobre Taine. Machado e Euclides já haviam morrído, e os anos de 1914-1915, em que estive aqui, assinalam, na literatura brasileira, uma época cinzenta e anódina, de que é bem representativo um tipo como Osório Duque Estrada, que então pontificava …

 

- Ficou aqui até quando?

Até 1915. Depois de curta e nada sedutora permanência na capital, achei melhor voltar para Palmeira dos Indios, onde já havia deixado um caso sentimental e onde minha família estava toda sendo dizimada pela peste bubônica. Num só dia perdi dois irmãos.(2) Alarmado, e também desgostoso com a vida que aqui levava, tratei. de voltar para Alagoas. Em outubro de 1915 casei-me e estabeleci-me com loja de fazendas em Palmeira dos Indios. A mesma loja que fora de meu pai.

- Nessa ocasião já tinha preocupações literárias?

- Lia muito e escrevia coisas que inutilizava ou publicava com pseudônimos. (3)

- Quer revelar alguns desses pseudônimos? (4)

- Você é besta…

- Fazia versos?

Aprendi isso, para chegar à prosa, que sempre achei muito difícil. Tendo vivido quinze anos completamente isolado sem visitar ninguém, pois nem as visitas recebidas por ocasião da morte de minha mulher eu paguei, tive tempo bastante para leituras. Depois da revolução russa, passei a assinar vários jornais do Rio. Desse modo me mantinha mais ou menos informado, e os livros, pedidos pelos catálogos, iam-me daqui, do Alves e do Garnier, e principalmente de Paris, por intermédio do Mercure de France.

- Então, se procurava manter-se tão bem informado a respeito do que se passava no Rio e no resto do mundo, deve ter acompanhado, lá de Palmeira dos Indios, o movimento modernista.

Claro que acompanhei. Já não lhe disse que assinava jornais?

- E que impressão lhe ficou do Modemismo?

Muito ruim. Sempre achei aquilo uma tapeação desonesta. Salvo raríssimas exceções, os modernistas brasileiros eram uns cabotinos. Enquanto outros procuravam estudar alguma coisa, ver, sentir, eles importavam Marinetti.

- Não exclui ninguém dessa condenação?

Já disse: salvo raríssimas exceções. Está visto que excluo Bandeira, por exemplo, que aliás não é propriamente modernista. Fez sonetos, foi parnasiano. E o Solau do Desamado (5) é como as Sextilhas de Frei Antão (6). Por dever de ofício, pois estou organizando uma antologia de contos brasileiros, antologia que rola há mais de três anos, tive de reler toda a obra de um dos próceres do Modernismo. (7) Achei dois contos de cinco ou seis páginas cada um. E pergunto: isso justifica uma glória literária?

Franze a testa, detém-se um instante, mas logo prossegue

Os modernistas brasileiros, confundindo o ambiente literário do país com a Academia, traçaram rígidas (mas arbitrárias) entre o bom e o mau. E querendo destruir tudo que ficara para trás, condenaram, por ignorância ou safadeza, muita coisa que merecia ser salva. Vendo em Coelho Neto a encarnação da literatura brasileira – o que era um erro – fingiram esquecer tudo quanto havia antes, e nessa condenação maciça cometeram injustiças tremendas. Nas leituras que tenho feito, para a organização da antologia a que me reeferi, encontrei vários contos, de autores propositadamente esquecidos pelos modernistas e que seriam grandes em qualquer litratura. Lembro-me de alguns: O ratinho tique-taque, de Medeiros e Albuquerque; Tílburi de praça, de Raul Pompéia; , de  Domício da Gama; Coração de Velho, de Mário de Alencar; Os Brincos de Sara, de Alberto de Oliveira. (8). Nas antologias que andam por aí essas produções geralmente não aparecem, e de alguns dos autores citados são transcritos contos que não dão idéia exata do seu talento e do domínio que tinham do gênero. Só posso atribuir isso, como já disse, à desonestidade. Porque se os compararmos aos produtos dos líderes modernistas, estes se achatam completamente.

- Quer dizer que não se considera modernista?

Que idéia! Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão.

 

- E como foi que chegou a prefeito da cidade?

Assassinaram o meu antecessor. Escolheram-me por acaso. Fui eleito, naquele velho sistema das atas falsas, os defuntos votando (o sistema no Brasil anterior a 30), e fiquei vinte e sete meses na Prefeitura.

- Consta que, como prefeito, soltava os presos para que fossem abrir estradas…

Não era bem isso. Prendia os vagabundos, obrigava-os a trabalhar. E consegui fazer, no município de Palmeira dos índios, um pedaço de estrada e uma terraplenagem difícil.

 

- Em que ano foi isso?

Em 30.

- O ano do relatório…

Os relatórios são dois: há o de 29 e o de 30.

- Relatórios do prefeito ao Governador do Estado, dando contas de sua administração, não é?

Justo. Apenas, como a linguagem não era a habitualmente usada em trabalhos dessa natureza, e porque neles eu dava às coisas seus verdadeiros nomes, causaram um escarcéu medonho. O primeiro teve repercussão que me surpreendeu. Foi comentado no Brasil inteiro. Houve jornais que o transcreveram integralmente. (9)

- E assim nasceu o escritor…

Não. Nasceu antes. Mas tinha o bom senso de queimar os romances que escrevia. Queimaram-se diversos. Caetés, infelizmente, escapou e veio à publicidade.

- Numa edição Schmidt.

Exato. Por intermédio de Rômulo de Castro, Schmidt, que aqui no Rio lera os meus relatórios, pediu-me que lhe enviasse artigos para a imprensa. Como não me interessasse fazer carreira no jornalismo, nem construir nome literário, recusei-me. Aliás, nessa ocasião já estava de mudança para Maceió, pois fora nomeado diretor da Imprensa Oficial. Com a revolução, quis demitir-me, mas não pude. E lá fiquei até dezembro de 31. Não suportando os interventores militares que por lá andaram, larguei o cargo e voltei para Palmeira dos índios, onde, numa sacristia, fiz São Bernardo. Estava no cápítuio XIX, capítulo que escrevi já com febre, quando adoeci gravemente com uma psoíte e tive de ir para o hospital. Do hospital ficaram-me impressões que tentei fixar em dois contos: Paulo e O Relógio do Hospital – e no último capítulo de Angústia. No delírio, julgava-me dois, ou um corpo com duas partes: uma boa, outra ruim. E queria que salvassem a primeira e mandassem a segunda para o necrotério. Estava convalescendo, em janeiro de 33, quando tive notícia da minha nomeação para diretor da Instrução Pública. Não acreditei.

- Qual o interventor que o nomeou? Graciliano sorri e satisfaz a minha curiosidade:

O capitão Afonso de Carvalho, hoje coronel.  Foi disparate.

E depois de uma pausa:

Permaneci no cargo até 3 de março de 1936. Em 1933 Schmidt lançara Caetés, que eu trazia na gaveta desde muito tempo. Naquele dia do mês de março de 1936, porém, sem qualquer explicação, fui preso e remetido para o Recife. onde passei dez dias incomunicável. Depois fui metido no porão do “Manaus” e vim para cá.  Tive dez ou doze transferências de cadeia.

 

- Qual o motivo da prisão?

Sei lá! Talvez ligações com a Aliança Nacional Libertadora, ligações que, no entanto, não existiam. De qualquer maneira, acho desnecessário rememorar estas coisas, porque tudo aparecerá nas “Memórias da prisão”, que estou compondo. (10).

- Foi assim, então, que veio para o Rio?

Foi.  Arrastado, preso.

- Mas valeu a pena, não?

Sinceramente, não sei. Nunca tive planos na vida, muito menos planos de sucesso. Depois daquela experiência da mocidade, o Rio não me atraía. No entanto vim, no porão do Manaus, e aqui vivo.

Estávamos, portanto, diante de um antipará. Os “parás”, na saborosa classificação de Jaime Ovale – Manuel Bandeira (ver A nova gnomonia, in Crônicas da Província do Brasil), são “esses homenzinhos terríveis que vêm do Norte para vencer na capital da República; são habilíssimos, audaciosos, dinâmicos e visam primeiro que tudo o sucesso material, ou a glória literária, ou o domínio político”. Que pensaria Graciliano dessa fauna? Lanço a pergunta e a resposta não tarda:

Está claro que existe um “Exército do Pará”.  Na maioria dos casos, porém, os seus milicianos já chegam feitos do Norte. Aqui vêm apenas colher os louros, ou, mais positivamente, as vantagens. E no Rio em geral definham, tornam-se mofinos. Ignoro se também sou “pará”.  Nunca fiz coisa que prestasse, mas ainda assim o pouco que fiz foi lá e não aqui, onde a vida não nos deixa tempo para nada. Hoje leio apenas jornais, um ou outro romance. De manhã escrevo; à tarde saio para as minhas ocupações (inclusive para o “papo” na Livraria); à noite trabalho.  Onde iria achar tempo para leituras? E se não tivesse lido um pouco no interior, onde os dias são intermináveis, seria inteiramente analfabeto.

- Quer dizer que acha preferível, para o escritor, a vida na província?

No Nordeste não podemos falar em “provincianismo”, luxo dos Estados grandes: São Paulo, Minas, Rio Grande do Sul … Nós, do Nordeste, temos de ser “municipais” ou “nacionais”. E, a ter de morar em qualquer dos Estados daquela região, acho preferível o interior às capitais, porque estas, seus mexericos, seus grupinhos literários, suas academiazinhas, seus institutos históricos, são sempre muito ruins. Já no interior poderá um homem entrar em contato íntimo com a terra e o povo. É, por exemplo, de onde vem a força de um José Lins do Rego, de uma Raquel de Queirós, de um Jorge Amado.

A conversa já ia longa, mas o questionário do repórter guardava ainda várias perguntas:

- Sabe que é apontado como um dos nossos escritores modemos que melhor manejam o idioma?

Conversa. Talvez, se houvesse alguma verdade nisso, eu devesse muito aos caboclos do Nordeste, que falam bem. É lá que a língua se conserva mais pura. Num caso de sintaxe de regência, por exemplo, entre a linguagem de um doutor e a do caboclo – não tenha dúvida, vá pelo caboclo, e não erra. Note que me refiro ao caboclo do sertão. O do litoral vai-se estrangeirando…

- Mas não me venha dizer que seu aprendizado da língua se fez apenas com os caboclos de Buíque e Palmeira dos índios.

Claro que não… Muitas coisas não poderiam eles ensinar-me. Está visto que tive de chatear-me lendo gramáticas. E arrepiei-me com a leitura dos frades.

 

- Consta que você, como Euclides da Cunha e Monteiro Lobato, é grande leitor de dicionários…

Consta e é verdade. Dicionário, para mim, nunca foi apenas obra de consulta. Costumo ler e estudar dicionários. Como escritor, sou obrigado a jogar com palavras. Logo, preciso conhecer o seu valor exato. (12)

- Acha isso uma qualidade?

Não sei…  O que sei é que não há talento que resista à  ignorância da língua… (13)

Poderia, hoje, deixar de escrever?

Quem me dera poder deixar..

Sua obra de ficção é autobiográfica?

Não se lembra do que lhe disse a respeito do delírio no hospital? Nunca pude sair de mim rnesmo. Só posso escrever o que sou. E se os personagens se comportarem de modos diferente, é porque não sou um só. Em determinadas condições, procederia como esta ou aquela das minhas personagens. Se fosse analfabeto, Por exemplo, seria tal qual Fabiano… (14)

- Já se pode viver, no Brasil, da profissão de escritor?

 

Não creio. A última edição minhas obras rendeu-me 50 contos. Da edição americana de Angústia, recebi 10 contos apenas. Tenho também três livros traduzidos para o espanhol. Mas os negócios na Argentina e no Uruguai andaram mal. Como não tenho o hábito de freqüentar os suplementos e as revistas ilustradas, a literatura me rende pouco.

 

- Que outras atividades exerce?

Trabalho no Correio da Manhã e sou inspetor de ensino secundário no Ginásio São Bento.

- Gosta do emprego que tem?

É-me indiferente. Trata-se de uma sinecura como outra qualquer. Emi todo caso, nunca tive uma falta nem tirei licença.

- E no Correio da Manhã, qual o seu serviço?

Corríjo a gramática dos repórteres e noticiaristas. (15)

-Trabalho cacete…

Nem tanto.

- Gosta de jornalismo?

Não.  Nem me considero jornalista.

- Com essa vida de jornal, naturalmente dorme tarde…

À uma hora, via de regra. E me levanto às sete.

Nos seus livros trabalha, portanto, apenas de manhã .

Exato.  Até às onze, mais ou menos.

- E para trabalhar, exige um bom ambiente ou não liga a isso?

Trabalho em qualquer parte. Angústia foi escrito em palácio, quando eu era diretor da Instrução Pública de Alagoas. São Bernardo, em péssimas condições, numa igreja. Qualquer canto me serve. Mas disponho, hoje, em casa, de uma confortável sala de trabalho: isso que os burgueses costumam chamar “escritório”…

- Gosta da casa onde mora?

Em qualquer lugar estou bem. Dei-me bem na cadeia… Tenho até saudades da Colônia Correcional.  Deixei lá bons amigos.

Casado duas vezes, Graciliano tem seis filhos e duas netas. Pergunto-lhe se costuma ajudar a mulher em casa, e ele se espanta:

Já faço muito em pagar as despesas… Aliás, tenho horror a compras. E quando ouço o telefone, tranco-me.

- Aos domingos, que costuma fazer?

Em geral escrevo pela manhã e à tarde durmo.

O autor de Vidas Secas não faz visitas, não vai a concertos nem a conferências e não gosta de música. Tem, entretanto, um velho hábito: vai diariamente à Livraria José Olímpio, na Rua do Ouvidor, e fica lá várias horas, num banco que já é quase propriedade sua, localizado no fundo da loja. (l6)

Muitas vezes vou lá dormir. Mas aparecem amigos, conhecidos, e toca-se a conversar. (l7)

Em virtude desse hábito, muita gente pensa que Graciliano dá a vida por um “papo”. Ele, porém, desfaz-me essa impressão:

Quase sempre converso forçado, porque chegam pessoas. Mas na verdade muitos dias preferiria ficar quieto, sem trocar palavra. Também é fato que lá aparecem bons amigos, desses que a gente revê com prazer.  De um modo geral, porém. sou uma vítima dos cacetes.

Como Manuel Bandeira, Graciliano recebe inúmeros originais, para ler e dar opinião. A Bandeira dirigem-se sobretudo os jovens poetas ainda incertos quanto à própria vocação. E os que se iniciam na prosa, geralmente procuram mestre Graciliano. Este, assim, tem sempre uma quantidade enorme de originais para ler.

É maçada. Recebo dezenas de originais. São principiantes, geralmente dos estados, que desejam, é claro, alguns elogios. Já me aconteceu receber, na mesma semana, originais do Piauí e de Goiás. Eu devia fazer como José Lins: afirmar, sem leitura, que tudo é magnífico.

Os escritores jovens do Brasil, que dos mais distantes Estados remetem originais para Graciliano Ramos, em busca de uma opinião, e nem sempre recebem resposta, ou a resposta que esperavam, podem, entretanto, considerar-se vingados: na própria casa do romancista surgem originais, e originais que ele tem, forçosamente, de ler, e talvez percorra com olhos mais benignos: os contos de seu filho Ricardo, de 19 anos, e de sua filha Clara, quatro anos mais moça que o irmão. Ambos têm vocação para as letras. Ricardo, jornalista, já tem publicado alguma coisa, naturalmente com a chancela paterna. E, ainda que Graciliano nos afirme o contrário, nos diga que nenhum deles lhe pede opinião, é divertido imaginar o romancista, cansado de emendar o português dos noticiaristas do Correio da Manhã, e de ler originais que lhe chegam, às dezenas, de todo o país, ter, em casa, de dar opinião sobre os trabalhos dos filhos.

Pergunto qual a sua impressão dos contos de Ricardo Ramos, e ele não se nega a opinar:

Regulares. Tem jeito e poderá fazer coisa que preste. (18)

- E Clara ?

É ainda criança. Tem 15 anos apenas e está concluindo o curso secundário. (19)

Despedindo-me de Graciliano, depois da longa conversa que aqui tentei reproduzir, faço-lhe uma última pergunta: Acredita na pernanência de sua obra? E sem qualquer pose, sem nada que deixasse transparecer falsa modéstia, antes dando a impressão de que falava com absoluta sinceridade, esse pessimista seco e amargo respondeu-me:

Não vale nada; a rigor, até, já desapareceu

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Notas:

(1) “Papel agüenta muita lorota”, dizia o pai de Graciliano, sertanejo rude e de poucas letras, sem nem de longe supor que essa mesma idéia seria, muito mais tarde, a de um escritor requintado e culto como Paul Valéry, para quem “se fosse necessário gravar na rija pedra, a Literatura seria outra coisa”. (Apud Willy Lewin, artigo in Correio da Manhã de 18/04/1962.)

(2) Na Cronologia de Graciliano Ramos, anota Rolando Morel Pinto: “1915 – Após o recebimento de telegrama de Palmeira dos Indios, comunicando o falecimento em um só dia de duas irmãs, um irmão e um sobrinho, todos de peste bubônica e que a mãe e duas irmãs se achavam gravemente enfermas da mesma moléstia, regressa àquela cidade.” (Graciliano Ramos, Autor e Ator.  Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis. São Paulo, 1962, p. 177.)

(3) A propósito vale a pena registrar o depoimento de José Lins do Rego, que o conheceu ainda nessa pequena cidade do interior de Alagoas: “O tabelião de Mata Grande nos havia dito: Os senhores vão encontrar em Palmeira dos Indios o homem que mais sabe mitologia em todo o sertão. Nós éramos dois literatos numa comitiva oficial. Que homem terrível seria este de Palmeira? Um homem com todos os deuses e deusas da mitologia para nos esmagar na con­versa. Fiquei com medo do sábio sertanejo. E de fato, na tarde do mesmo dia  entrávamos em contato com a fera em carne e osso. O prefeito nos apresentou: Este é o professor Graciliano Ramos. – Professor de coisa nenhuma – foi  nos dizendo ele. E ficou para um canto da sala encolhido, de olhos desconfiados, com um sorriso amargo na boca, enquanto o governador falava para os correligionários. Quis provocá-lo, e tive medo da mitologia. Mas aos poucos  fui me chegando para o sertanejo quieto de cara maliciosa. Falou-me de uns artigos que havia lido com a minha assinatura, com tanta discrição no falar, com palavras tão sóbrias que encantaram.  O homem que sabia mitologia também entendia de Balzac, de Zola, de Flaubert, de literatura, como se vivesse disto. Soube que era comerciante, que tinha familia grande, que era ateu, que estivera no Rio, que fizera sonetos; que sabia inglês, francês, que falava italia­no” O mestre Graciliano, in Homenagem a Graciliano Ramos.  Rio de Janeiro, Oficinas Alba, 1943, p. 89.

(4) Em artigo publicado na imprensa carioca, em outubro de 1962, quando o romancista faria 70 anos de idade, Aurélio Buarque de Holanda divulgou, entre outras, a seguinte sátira de Graciliano:

Aquela carcaça ingente

Tanta gordura juntou

Que um dia, logicamente,

- Tinha de ser – rebentou.

- Com dez arrobas de banha

Na pança, todos dirão.

É certo que a terra apanha

Pavorosa indigestão.

Esclarecendo que os versos foram publicados no jomal O índio. de Palmeira dos Indios, de 30/01/1921, observou o autor do artigo: “As quatro sátiras transcritas figuram numa seção, em prosa e verso, chamada ‘Fatos e Fitas’, com o criptônimo ‘Anastácio Anacleto’.  No mesmo jornal em que elas aparecem manteve Graciliano, disfarçado em ‘J. Calisto’, outra seção, toda em prosa.” ln Diário de Notícias de 07/101962.

(5) In A Cinza das Horas, tomo I da edição Poesia e Prosa, da Editora Aguilar, p. 42.

(6) In Poesias de Gonçalves Dias, novíssima edição, precedida de uma notícia sobre o autor por M. Said Ali, Laemmert & C., Editores, Rio de Janeiro, São Paulo, 1896, tomo I, pp. 205/307.

(7) O escritor naturalmente queria referir-se à coletânea de Contos e Novelas, apresentados segundo um critério geográfico (1. vol. – Norte e Nordeste; 2. vol. – Leste; e 3. vol. – Sul e Centro-Oeste), que organizara para a Livraria Editora da Casa do Estudante do Brasil, mas que somente seria publicada em 1957, depois de sua morte.

(8) Todos esses contos foram, de fato, incluídos na antologia por ele organizada.

(9) Esses relatórios podem hoje ser lidos no volume Viventes das Alagoas (Quadros e costumes do Nordeste) – São Paulo, Livraria Martins Editora, 1962.

(10)  Publicadas, em 1953, após a morte do romancista, numa edição José Olympio, com o título de Memórias do Cárcere (4 volumes).

(11) Vol. 11 da edição Poesia e prosa, da Editora Aguilar, pp. 199-203.

(12) Lobato, como se sabe, também pensava assim.  E nas cartas a Godofredo Rangel fala com entusiasmo da “aventura esplêndida” que estava sendo para ele o passeio pelo “oceano das palavras”, isto é, a leitura do dicionário do Aulete. (A Barca de Gleyre, São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1944, p. 94.)

(13) inconscientemente, Graciliano repelia Boileau: “Sans ia langue, en un inot, l’auteur le plus divin / est toujours, quoi qu’il fasse, un méchant écrivain.” (L’art poétique, canto I)

(14) Personagem de Vidas Secas

(15) No velho órgão da imprensa carioca, Graciliano fazia o que hoje se chama copidesque.

(16) Esse banco, por doação do editor José Olímpio, encontra-se hoje no Centro de Literatura Brasileira, da Casa de Rui Barbosa, e é conhecido como “o banco do velho Graça”.

(17) No artigo citado na ref. 4, escreve Aurélio Buarque de Holanda: “Raquel de Queirós observou que às vezes ‘o velho’, como nós dizíamos, ficava sozinho sentado nos fundos da Livraria José Olímpio, a murmurar entre dentes, na sua maneira incisiva de pronunciar tais coisas, os mais cabeludos palavrões. Tudo – acrescentava Raquel – só para se distrair.” E comenta o autor do artigo: “Não seria, aliás, um boca-suja por simples depravação. Em parte será o trato dos clássicos, a consciência dos valores antigos de certas palavras, da sua perdida pureza, que o levava a preferi-las a outras, mesmo em conversas algum tanto cerimoniosas.”

18 De fato, Graciliano não se enganava, e o volume Terno de Reis, entre outros, veio confirmar as qualidades de ficcionista de Ricardo Ramos, falecido aos 20/03/1992, por triste coincidência, no aniversário da morte do pai.

(19) Clara Ramos, falecida muito moça, ern 07/04/1993, se tornaria conhecida principalmente como autora de livros infanto-juvenis, e seria a biógrafa do pai, com o livro Mestre Graciliano.  Confirmação Humana de uma Obra. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1979