A primeira mulher a entrar para a Academia aniversaria e faz um balanço de sua vida, falando das gerações literárias que viu florescer.

Por HERMES RODRIGUES NERY

Você acha possível acontecer na literatura brasileira um outro grande momento como aquele de que você participou, nos anos 30? - Sempre digo que a literatura acontece por ciclos, assim como a geração de romancistas daquela época, com o ciclo do Nordeste, da qual eu e Jorge Amado somos os remanescentes, os únicos vivos. A poesia também, daquele tempo, fez aparecer o Bandeira, o Drummond… e depois veio a geração dos grandes poetas de 45, como Vinicius, João Cabral, Lêdo Ivo, Gullar, Paulo Mendes Campos, etc… Eu acredito que surgirá um novo ciclo e que dará a sua contribuição, respondendo às necessidades de seu momento.
Vai aparecer mesmo? – Sim, vai aparecer. E se o livro como expressão de comunicação diminuir a sua intensificação, há as outras que são também igualmente importantes: o teatro, o cinema, a tv, o vídeo… Por que desprezar esses meios de comunicação? Não creio que seja preciso agir assim. Se a gente marcha para a comunicação eletrônica, vamos adotá-la e saber trabalhar com ela. Temos que viver para o nosso tempo.

Qual o futuro do livro? – Creio que o livro nunca será inteiramente destituído ou destronado, porque o livro permanece mais do que qualquer outro. Uma das minhas preocupações é com essa nossa civilização atual, do século XX, caminhando para o XXI, e a precariedade e a obsolescência de tudo o que se produz, na arquitetura, na arte em geral. É um mundo de plásticos e fiozinhos, de arame e tudo artificial. Os grandes edifícios, por exemplo, não conseguem chegar a cem anos de vida útil. Os grandes edifícios de concreto armado são extremamente perecíveis. Daqui a quinhentos anos, ou mil, se o mundo como a gente o conhece chegar lá, esses edificios terão desaparecido. Você veja que as pedras do Egito estão com três mil anos de idade e ainda estão lá porque a civilização deles não era como a nossa, voltada ao descartável. As bibliotecas dos cuneiformes, dos assírios, dos hititas, dos povos mais antigos que praticaram a escrita foram feitas de tijolinhos de barro cozido, e estão lá, íntegros, porque têm o que nos dizer. E os nossos livros, com o papel de hoje, o que restará das nossas bibliotecas deste século? O que restará das grandes reservas de vídeos, de filmes, daqui a quinhentos anos? E depois, a obsolescência é muito rápida. Acho que esta nossa civilização vai deixar muito pouca marca e, depois, o mundo pode ter se acabado e a gente nem sabe como reconstruí-lo. Talvez estejamos assim: reconstruindo o já acabado.

Essa é uma visão pessimista… – Pense como o Thomas Mann: “Depois de mim será como antes de mim, o mundo já existia sem ti, e o mundo vai existir sem ti”. Então, deixa o mundo viver como quiser. (Ri) A nossa passagem aqui é tão curta… O nosso risquinho na areia é tão pequeno, tudo tão efêmero, que deixa o mundo acabar quando ele quiser. Mas não se iluda: estamos numa civilização descartável.

Não podemos extrair o que há de bom no passado e criar a ponte do possível ? – Todos nós temos uma tendência a idealizar o passado. Isto me lembra aquela história do Álvaro Moreyra, “as amargas, não”. A gente pensa no passado em termos de seleção. Você pergunta: “Quais são as mulheres do passado que você mais admira?” Você nunca pergunta: “Quem eram as chatas, as impertinentes?” Você não pergunta porque não queremos a memória delas. A gente idealiza o passado.

Você chega hoje aos 80 anos, como a primeira mulher a entrar para Academia Brasileira de Letras e mais importante escritora do País. É uma boa ocasião para falarmos do seu passado. Conte-nos, como foi que o livro chegou em sua vida? O que lia a menina Rachel de Queiroz? – Eu nasci numa casa de livros. Meus pais viviam lendo, gostavam de ler e me ensinaram a ler. Sempre conto uma história de minha mãe: uma vez, no colégio de freiras, eu estava lendo um desses livrinhos de moça, água com açúcar, de um autor francês. Um livrinho de bolso que contava a história de uma moça que assiste a um casal se beijando e fica toda enlevada, e depois ela vai encontrar com aquele mesmo camarada, e por aí afora… Mamãe chegou e eu estava lendo o livro (eu tinha uns doze anos), ela olhou assim e disse: “Ah, minha filha! Não fique lendo esses livrinhos que só tratam de sexo e nunca saem disto. Já que você quer ler mesmo, tome, leia este que você vai gostar”. E ela me deu A Cidade e as Serras, do Eça de Queiroz. “Vai ler isto que é bom”, continuou ela. Isto para você ver o critério de minha mãe.

Houve um grande incentivo por parte de sua família… – Com isto que lhe contei você veja como fui modelada ali. Eu não tive uma educação regular… O primeiro colégio em que entrei na minha vida, eu tinha dez anos e meio, porque minha avó paterna foi mandar eu rezar, e eu não sabia rezar direito (meus pais não eram multo religiosos) e ela ficou muito indignada por eu não saber rezar e me botaram num colégio de freiras, que eu adorei, porque tinha uma loucura para ir ao colégio. Fiquei lá até me diplomar (me diplomei cedo) aos quinze anos, e depois nunca mais tive uma instrução formal. A minha família não topava esse negócio de gente ir para o colégio. Papai me dizia: “Não vai pro colégio coisa alguma, vamos embora pra fazenda. Você pega um papelzinho assinado e vamos embora que você vai aprender outras coisas”. Ah! Minha família era muito legal.

Uma educação que veio do berço, um pouco como a de Gilberto Freyre? – As nossas famílias rurais nordestinas cultivavam muito as letras. Quase todas as famílias eram assim como a de Nabuco, a de José Lins do Rego, a de Gilberto Freyre… as famílias rurais, os donos de engenho eram assim. No Ceará, as fazendas eram muito mais modestas, porque a região era mais pobre. Nós vivíamos só do pastoreio, a gente não tinha grande agricultura, só uma pequena agricultura de manutenção. Era o gado que sustentava as famílias. Tanto que nem se chamava Casa-Grande. Era a Fazenda. Falava-se: “Vou pra fazenda”, a fazenda no sentido de casa de residência. Não tínhamos o palaciado das Casas-Grandes. As nossas casas eram rústicas, mais modestas. Nestas casas tinham sempre um filho doutor ou padre, a filha professora ou freira, o genro era sempre bacharel ou médico ou o doutor que vinha para aquela área e casava com as filhas…

Você pode contar alguma história sua deste período? – Eu me lembro da minha avó Rachel, ela já velhiha, perto dos oitenta anos, e a gente na fazenda tinha sempre uma ou mais netas com ela. (Ela tinha muitos filhos e uma quantidade grande de netos). Então, a obrigação da neta que estava lá, digamos assim, de serviço, era ler romances em francês, para ela ouvir. Ela gostava mais daqueles religiosos. E ai da gente se não lesse direito. Esse era o nível de educação que a gente teve e que hoje não se encontra mais. Nessas casas, você encontrava moças tocando piano, lendo Voltaire, Sterne, tudo no original… Velhos tempos esses! Uma dessas moças da nossa fazenda teve um namoro muito grande com Gonçalves Dias, que era separado da mulher, portanto um namoro pecaminoso na época. A família conta essas histórias. Dizem que aquele poema do Gonçalves Dias, “Os Seus Olhos” foi dedicado a esta minha tia bisavó. Isto em 1852/53.

Você, Rachel, além de romancista, contista e cronista, destacou-se por primorosas traduções, entre elas as de Dostoiévski, Cronin, Tolstói, Emily Bronte, Chaplin e tantas outras. Você disse uma vez que nunca pôs a literatura à frente dos outros problemas da sua vida. Isto me lembra Dostoiévski (da sua tradução de Os Irmãos Karamazov) e mais dois outros autores franceses, que sofreram desesperadamente para se tornar escritores, dedicando a sua vida com exclusividade à literatura, que são eles: Balzac e Zola. Como você explica isso? – Primeiro que não tenho o porte de um Balzac nem de Dostoiévski. Não tenho a força do grande escritor que eles foram. Sou uma escritora de médio porte, não tenho direito a esta fama assim. E depois, eles encontraram dificuldades materiais e a opressão. Segundo, eles vinham de origens muito modestas, de famílias muito pobres. Tinham todos que manter famílias, que não foi o meu caso. Eles tinham que sustentar mulher e filhos etc… menos o Balzac. Mas o Balzac tinha grandes ambições sociais, então ele era na verdade um homem ambicioso, queria subir até os altos cumes sociais. Ele quase subordinava a literatura dele às suas conquistas sociais.

Mas sua vocação de escritor falou mais alto… – Essa vocação de escrever é uma espécie de compulsão. Comparo o livro que se concebe como a um filho que a gente traz dentro de si e que temos de botar pra fora. Você tem que conceber o filho, gestá-lo e depois entregá-lo ao mundo. Então, eles tinham essa compulsão de escrever, porque ele eram gênios. Dostoiévski, por exemplo, era um gênio. No caso de uma modesta escritora como eu, a compulsão deles foi muito maior e o sofrimento também. Posso me dar ao luxo de deixar de escrever que não vou fazer falta na literatura mundial. Você já pensou o mundo sem Dostoiévski?

Enquanto Rachel oferece um cafezinho, conta como foi que escreveu “O Quinze”. A conversa começa quando ela diz que gente nova pode se dar ao luxo de comer açúcar que não fica gorda. Ao responder que estava magro demais, ela tranqüilizou-me dizendo que, depois dos quarenta, começa-se a engordar um pouquinho. A partir disso, ela passa a reviver os dias em que escreveu sua obra pioneira.

- Eu era magrinha. Minha mãe tinha medo de que eu ficasse tísica. Escrevi “O Quinze” escondida porque eu só escrevia de noite, a nossa casa tinha muita criança…

Escondida? – Eu tinha tido uma congestão pulmonar e tinha cuspinhado sangue; então minha mãe me proibiu de escrever e ler à noite. Depois das dez horas ela dizia que tinha de apagar a luz, descansar, tomar cuidado, aquelas coisas… A gente dizia que mãe tem mania de perseguição. (Ri) Aquela coisa de dizer que ia ficar tísica, me apagava a luz e me obrigava a dormir. Como a minha casa era muito grande, casa de sítio (na área rural não se enceravam as casas, elas eram lavadinhas com areia, o chão era agradável, bem limpinho, soalho areado, como se dizia então), dormíamos com o lampião da sala aceso (não tinha luz elétrica, até então). Quando todo mundo da casa ia dormir, eu saía do meu quarto e vinha me deitar no chão, no soalho, com um caderno de colégio na mão e lápis; sob a luz daquele lampião, fui escrevendo todo o livro. Quando “O Quinze” estava pronto e eu mostrei para meus pais, minha mãe teve um susto: “Você podia ter ficado tuberculosa. Por que não deixei pelo menos você escrever sentada… ah, você no chão e tal…

E você não ficou doente? – Fiquei nada. É que nem aquela conversa de que ler muito estraga os olhos. Estraga nada. Ao contrário, os meus médicos mandam eu ler e exercitar ao máximo os olhos, porque eles melhoram. Recuperei muito da minha vista, lendo.

Como é Rachel de Queiroz aos 80 anos? – Olha, Hermes, esse negócio de envelhecer é uma coisa muito curiosa. O tempo é o meu tempo sempre. Estou viva, então o tempo me pertence. O tempo passa através de você, e você vai vendo as coisas da sua civilização, você faz parte destas coisas, você cresce com elas. Esse negócio de faixa etária é muito arbitrário. Eu, quando era jovem, me dava muito bem com os velhos. Há jovens velhos e velhos bastante jovens. Conheci e fiz, na minha mocidade, muita amizade com velhos bastante jovens e cheios de vida, e que me ensinaram muito. Conheci Graça Aranha com setenta e tantos anos, e eu tinha vinte , e nós conversávamos de igual para igual. O meu grande amigo e guru, quando eu era jovenzinha e comecei a escrever, tinha sessenta e oito anos, por aí. Era o Antônio Salles, tio do Pedro Nava, um grande romancista foi o Salles (um injustiçado, por não ter tido aquele fator sorte). O Manuel Bandeira tinha a idade do meu pai e foi um dos grandes, melhores e mais queridos amigos que eu tive. Nunca a diferença de idade contou. Quando fui ser amiga do Gustavo Corção, ele tinha feito oitenta anos . O Austregésilo de Athayde, com 90 anos, é um homem moderníssimo. O Alceu Amoroso Lima, com 90 anos, era um jovem e tanto. O Vinícius com vinte anos era mais velho que o Vinícius dos sessenta. Conheci Vinícius gravíssimo, escrevendo poemas católicos, à moda de Claudel. Você, quando chegar à minha idade, pode estar mais moço do que agora, com vinte e poucos anos. Por aí você pode ver como são as coisas…