Yuno Silva – Repórter

Espalhados pelo mundo, cada vez mais ouvimos falar de potiguares que se destacam em suas respectivas áreas de atuação. Seja na política, Cultura ou no meio acadêmico, topamos com um ou outro nome que representa a província além das fronteiras do RN. Para compartilhar experiências, a Fundação José Augusto abre ciclo de encontros mensais com filhos ilustres. O primeiro desses encontros está marcado para hoje, às 20h, no Teatro de Cultura Popular, onde o escritor e crítico de arte Geraldo Edson de Andrade, papa-jerimum da gema radicado no Rio de Janeiro há quase seis décadas, irá traça detalhes de sua trajetória profissional.

César Romero

Escritor e crítico de Arte, Geraldo Edson de Andrade abre o projeto “Arte potiguar pelo mundo”, no Teatro de Cultura Popular

Convidado para abrir o projeto “Arte Potiguar no Mundo”, Geraldo de Andrade também aproveita a ocasião para lançar o livro “Natalenses” (Giostri Editora). O evento é gratuito e aberto ao público.

Norteado pelo tema “Um passeio pela memória”, Geraldo Edson de Andrade, 79, adiantou alguns detalhes de sua palestra durante conversa por telefone com a TRIBUNA DO NORTE. Professor aposentado pela UERJ, onde ministrava aulas de História da Arte, o potiguar já publicou oito livros de ficção e pelo menos vinte títulos sobre aspectos da arte brasileira. Mais conhecido por sua verve crítica, Geraldo é presidente de honra da Associação Brasileira de Críticos de Artes e seu currículo acumula prêmios literários e curadoria em mais de 80 exposições. Também foi diretor-adjunto do setor de Artes Plásticas da Funarte; assessor do Museu de Arte Moderna do Rio; presidente do Conselho da Fundação Bienal de São Paulo; e diretor do Museu de Arte e História do RJ.

“Saí de Natal bem jovem, no início da década de 1950, por falta de oportunidade. Não que quisesse ter saído, mas é que na época só tinham os cursos de Farmácia e Odontologia na Universidade e não me identificava com nenhum dos dois”, lembra. Caçula de sete irmãos, sua trajetória se confunde com a de qualquer nordestino que parte em busca de um lugar ao sol na grande cidade: “Fui da última turma do velho Atheneu, e sempre tive uma queda pela Cultura. Meu pai, Amaro Pedroza de Andrade, foi um dos primeiros animadores culturais da cidade, um dos primeiros Rei Momo e estava sempre nos palcos. Ele fazia parte do Grêmio Dramático de Natal, e desde pequeno me levava para assistir as peças em cartaz no teatro Carlos Gomes (atualmente Alberto Maranhão). Natal para mim não é lembrança, é uma permanência”, garante.

Morador do Leblon, atualmente um bairros mais cobiçados da zona Sul da capital fluminense – “quando cheguei por aqui, ninguém queria vir. Era longe, um bairro suburbano que não tinha comércio, nem cinema. Porém, minhas lembranças são todas do tempo que morei na Rua Santo Antônio, Cidade Alta, onde passei os primeiros 18 anos da minha vida. Pena que não tenho mais nenhum parente próximo em Natal, a família acabou ficando toda por aqui no Rio: filhos, netos”, lamenta com saudade. “Por isso, quando meus amigos brincam ‘lá vem o defensor de Natal’, sempre digo: que somos poucos potiguares, mas valemos o mundo!”, finaliza.

Encontros com personalidades serão mensais

Geraldo Edson contou que toda sua literatura tem a ver com a Natal dos anos 1940 e 50, inclusive seu livro “Natalenses” é uma reedição que reúne dois outros livros: “Coração partido ao meio” (1982) e “O dia em que Tyrone Power esteve em Natal” (1984).

“A última vez que estive aí foi em 2008, quando relancei ‘A traficante do Morro do Careca’ (originalmente publicado em 1976). Esse livro tem uma história curiosa, pois a primeira versão saiu assinada com um pseudônimo por causa da censura – também tive que amenizar tanto os trechos eróticos que ficou ingênuo. A nova versão tem mais consistência, mais eroticidade”, aponta. Sobre a novela da traficante ele só adiantou que boa parte da história se passa nos Estados Unidos e que a protagonista é neta de uma potiguar que se casou com um norte-americano na época da Segunda Guerra: “Tem que ler o livro para saber onde é que entra o Morro do Careca nessa história”.

Segundo Isaura Rosado, secretária Extraordinária de Cultura do Estado/FJA, o objetivo do “Arte Potiguar pelo Mundo” é registrar e reconhecer o talento de conterrâneos, notáveis em suas áreas de atuação. “São potiguares que tiveram sucesso lá fora, e seus exemplos de vida podem estimular os mais jovens”, aposta. Isaura informou que a FJA está trabalhando em parceria com escolas públicas próximas, Atheneu e Augusto Severo, cujos alunos farão parte da plateia: “É uma forma de elevar a autoestima deles”, garante. Na programação ainda figuram nomes conhecidos como o editor José Xavier Cortez (Cortez Editora), o diretor de teatro e cinema Moacyr Góes, o chargista Cláudio Oliveira e o escritor Ney Leandro de Castro.
(In Tribuna do Norte de 18.05.2011, caderno Viver)