Entrevista: Pablo Capistrano

Por Lívio Oliveira

L.O. Como surgiu em sua vida a literatura? Que influências o levaram a abraçar a causa das letras?
P.C. Se você pensar que história em quadrinhos pode também ser considerada como uma forma de literatura eu diria que desde os seis ou setes anos. Por essa idade eu já tinha inventando um grupo particular de personagens de HQs que espelhavam meu contato com a Marvel e a DC Comics. Eu enchia cadernos com desenhos toscos e com balõezinhos. Acho que aprendi a escrever aí, nesse exercício.

L.O. Isso influenciou, também, sua escolha pela Filosofia?
P.C. Cara, eu acho que não é você que escolhe a filosofia. Na verdade a filosofia é que escolhe você. Quando eu lembro do tipo de pensamento que eu tinha quando olhava para o céu ou me enxergava no espelho, mesmo quando era criança, eu digo: “isso é filosofia”, só que sem a nomenclatura é claro, sem o vocabulário e sem os conceitos mais abstratos, mas a inquietação, a busca é a mesma.


L.O. Por falar em Filosofia, é certo que você tem se conduzido dentro das exigências acadêmicas universais, produzindo dissertações, teses (inclusive está em vias de doutoramento) que seguem os padrões exigidos na academia. No entanto, você também trabalha uma linha “pop” (seguida, hoje, por vários outros filósofos) de escrever e divulgar a Filosofia. É imprescindível casar os dois papéis, aproximando a Universidade e o conhecimento filosófico do público em geral?
P.C. Acho que no Brasil isso é vital. Não sei na Europa porque não sei qual o real alcance da filosofia por que conversei já com alunos de ensino médio da Alemanha e dos EUA que já tinham lido Descartes e Schopenhauer na sala de aula. Isso implica um outro padrão de contato com a filosofia. Mas no Brasil, que essa tradição praticamente não existe fora de algum punhado de universidades, é vital oferecer ao público a possibilidade de conhecer um mínimo sobre a filosofia. É como uma isca. Você joga no mar para ver se pega algum peixe. É preciso jogar a isca da filosofia, para ver se ela se interessa em fisgar algum outro sujeito pensativo como eu.


L.O. Isso [pergunta acima] é possível?
P.C. Perfeitamente. Divulgar a filosofia é uma prática corrente nas escolas do primeiro mundo. Você oferece uma introdução aos problemas e dá uma nomenclatura básica ao seu aluno. No meio daquela massa um ou outro são tocados e atravessam a ponte para ter contato com a tradição ocidental. Sabe como é. Filosofia para mim é como Yoga, Capoeira, Kung Fu. Tem um lance de tradição. Eu faço parte de uma tradição que tem mais ou menos 2600 anos, que passa de professor a aluno a mais de dois milênios. A divulgação filosófica não pretende transformar a realidade e criar uma “nação de filósofos”, o que seria insuportável diga-se de passagem (risos). O objetivo é encontrar quem queira manter a tradição ou construir uma (como no caso do Brasil).


L.O. A linguagem axiomática – de que vez ou outra você se utiliza – pode ajudar nesse sentido? Seria uma referência direta a Nietzsche?
P.C. Acho que você faz referência aquele caderno que eu publiquei em PDF (103 totalidades), não é? Na verdade a referência básica daquele exercício é o Wittgenstein, que trabalhou com aforismos e deixou uma obra extensa em forma de fragmentos. Mas ali não há a pretensão de divulgar, mas de construir um exercício de tópicos fundamentais de um pensamento. Aquilo é uma caixa com retalhos de reflexões que eu guardo e que se transformam em textos contínuos depois.

L.O. Que filósofos vivos têm lhe tocado?
P.C. Bem, tem alguns semi-vivos (risos), quer dizer, uns recém mortos, que, levando em conta o tempo necessário para que um pensamento seja absorvido, é praticamente nada. Nesse quadro tem o Richard Rorty (que para mim é uma referência principalmente na tentativa de unir as tradições de filosofia anglo-americana e franco-alemã), o Jaques Derrida e o John Rawls (no campo da teoria da Justiça). Sim, há também um alemão, que acho que não morreu ainda, que me chamou atenção nos últimos tempos que é o Peter Sloterdijk. Então temos pau para toda obra, um neo-pragmatista, um heideggeriano judeu, um católico kantiano e um neo-nietzscheano. Uma salada da porra! (risos).

L.O. Os “antigos” ainda estão “vivos”?
P.C. Os antigos estão mais vivos do que nunca, porque a modernidade já ofereceu sua náusea. Ninguém pensa mais no futuro como se pensava no pós-guerra. Hoje a humanidade percebe os problemas que o sonho moderno ofereceu ao homem. Fausto está solto com Mefistófeles, andando sobre os campos do mundo rasando a terra e o céu e isso leva a pensar: “o que deu errado?”. Então o retorno à origem (esse é um movimento de Heidegger, bem perigoso, diga-se de passagem) se torna muito sedutor. Nossa civilização parece que anda esvaziada de significados e muito cheia de sentidos, isso leva a repensar o pensamento dos antigos em busca de uma nova fonte para uma mudança nos rumos. Hoje a revolução passa pela releitura do passado e não por uma esperança de futuro como em 1917 ou em 1968.

L.O. Em quais pontos se tocam a Filosofia e a Poesia?
P.C. A filosofia nasce da poesia. Não acredito que haja uma ruptura. Há os que defendem a tese da ruptura da filosofia com a literatura através da idéia de que há uma descontinuidade entre mito e pensamento filosófico. Para mim isso não procede. Hesíodo é tão filósofo quanto Nietzsche é poeta. Agora, há gêneros filosóficos diferentes. Aristóteles faz prosa, parecido com Cervantes. Shakespeare imita Platão. E Dostoievski casa com Descartes. A filosofia é linguagem, assim como a prosa e a poesia, e não podemos falar do ponto de vista do estilo dos textos em “filosofia”. O que existe são “filosofias”.

L.O. Você, recentemente, retomou os rumos de sua produção poética? Que necessidades íntimas levaram a isso?
poemas. Olhe só, que coisa P.C. Cara, foi o vinho e a lua cheia (risos). Na verdade a culpa é do Tácito Costa que aceitou disponibilizar em PDF uma segunda edição do meu primeiro livro de poesias (Domingos do Mundo). Ele foi lançado em 1998 e eu pensei em comemorar os dez anos. De 2002 para cá nunca mais tinha escrito nada de poesia. Curiosamente isso aconteceu depois que eu cai de uma rede na casa de praia de meu sogro, em Cotovelo. Não sei o que aconteceu, o fato é que depois disso eu deixei de escrever poesias. Mas aí quando o Tácito topou disponibilizar o texto de 1998 em PDF eu percebi que não tinha mais cópia eletrônica e tive que digitar tudo de novo e então apareceram vários outros não é? Achei que a humanidade tinha se livrado de minhas poesias (risos).

L.O. Na nova fase poética, há caminhos diferentes que você deseja trilhar? Novas vertentes a trabalhar?
P.C. Percebi que estou transitando de uma poesia mais seca e racional, talvez por influência do meu pai (Franklin Capistrano) para algo mais simples e musical. Comecei a acreditar que poesia não vive sem a música (João Cabral que me perdoe). Não estou mais a fim de consumir uma poesia que não possa ser recitada e talvez eu esteja tentando isso, me livrar da forma mental da poesia e me aproximar mais do acústico.

L.O. A sua disciplina é a mesma – ao escrever poesia – daquela que imprime quando escreve em prosa?
P.C. Não, absolutamente diferente. Eu consigo controlar meu regime de produção de prosa. A prosa vem quando eu quero, a poesia vem quando ela quer, por isso que é diferente. Para escrever um romance é preciso disciplina, para escrever um poema é preciso um grau qualquer de obsessão.

L.O. Pablo, o que é essencial para a construção de um romance?
P.C. Domínio do tempo. Brincar de fazer romance é brincar de dominar o tempo.

L.O. Existe essa coisa de os personagens se rebelarem? Isso não é somente retórica de romancistas?
P.C. Não, não. Isso é verdade, no sentido de que os personagens se encaixam no tempo da narrativa e isso muitas vezes contradiz aquilo que o autor planejou. Se você tenta impor seu plano inicial, muitas vezes acaba estragando a prosa. É preciso aprender a ceder aos personagens quando eles são realmente fortes. Por exemplo, imagine o que aconteceria com o mundo se Shakespeare tivesse tentado calar a boca de Hamlet.

L.O. O seu romance “Pequenas Catástrofes”, em alguns momentos, transparece elementos de um bom roteiro cinematográfico. Você tem alguma pretensão nesse sentido?
P.C. O Aristeu Araújo (cineasta potiguar radicado no Rio) já pediu os direitos do livro para filmar, mas disse que não sabia como iria filmar aquilo porque sairia muito caro fazer locações na Grécia e em Roma (risos). Na verdade eu não pensei que estava fazendo um livro cinematográfico, mas acho que é natural que o cinema entre no meu texto porque eu sou de uma geração que cresceu diante da TV e dentro de uma sala de cinema, com uma revista em quadrinhos embaixo do braço. Esse tempo do cinema, com certeza iria contaminar minha prosa. Isso na verdade não é algo meu, mas de minha geração. Se você lê Hannah Tinti, Martin Page, David Foekinos, o João Paulo Cuenca, Carlos Fialho, Rodrigo Levino, toda essa turma, vai sentir que há um espectro das três forças. Quadrinhos, música e cinema. Não há como fugir disso.

L.O. Que compromisso, Pablo, o escritor tem com a sociedade em que vive?
P.C. Hegel disse que ninguém pode ir além do seu próprio tempo. Isso é significativo. O passado e o futuro só podem ser experimentados a partir do presente. Só do lugar em que eu ocupo é que eu posso lembrar ou ter esperanças. Minha memória e minha esperança nascem do meu lugar, meu “agora” dita o que eu fui e o que eu quero ser. Se isso é assim não há como fugir do nosso momento e uma sociedade é um momento. Um tempo e um espaço. O escritor não está fora desse tempo e desse espaço, por isso ele responde as demandas desse tempo do modo que sabe: com a linguagem.
A questão é ouvir o chamado da escritura e entender o que essa escritura tem a oferecer ao seu tempo e a seu espaço.

L.O. Pablo, quais são os escritores – em poesia e prosa – que lhe são imprescindíveis e que ditaram, de uma forma ou de outra, conceitos importantes que você adaptou à sua obra?
P.C. Kafka, Kerouac e Hesse, foram os três fundamentais, da adolescência. Depois veio o Ginsberg, o Dylan Thomas o Miguel Cirilo na poesia. Na crônica é o Nelson Rodrigues, sem dúvida. Conscientemente eu não consigo distinguir o que há de cada um em meus textos. Eu deliberamente tentei imitar o Nelson Rodrigues certo tempo, nas minhas crônicas, mas desisti porque vi que iria ser destroçado por ele. No meu Romance eu não consigo muito bem identificar o que é de quem. Ultimamente andei me assustando com Thomas Mann e pensando, cara, esse sujeito me imitou (risos), parecia um delírio, por isso é que eu não gosto muito de pensar nisso.

L.O. Que inovações trazidas pela linguagem da internet podem ser aplicadas ou transpostas para a literatura?
P.C. A internet ainda é uma ferramenta muito nova para a gente saber o que é que ela vai produzir. Acho que o impacto dela ainda não pode ser qualificado. O certo é que a geração Blog escreve curto e que o curto muitas vezes é identificado com o veloz (a net exige velocidade e impaciência), o que não é necessariamente correto. Coisas curtas podem ser insuportavelmente lentas se não tem o domínio do tempo narrativo certo. Agora acho que se alguém quiser saber o que a internet pode fazer com a literatura, para o bem o para o mal, basta ler Finnegans Wake ou Ulisses de James Joyce (se você tiver estômago para agüentar a viagem).

L.O. Pablo, até que ponto foi importante ter buscado uma editora nacional (Rocco) para a publicação de seus livros?
P.C. A Rocco me deu três coisas muito importantes. Ela me libertou do desespero de ter que me preocupar com os quesitos materiais e técnicos que envolvem a edição de um livro (algo infernal para um sujeito como eu), me deu muitas estantes e algumas páginas de jornal Brasil a fora.
No que diz respeito a distribuição dos livros isso é vital, porque aqui de dentro é difícil levar teu livro para uma vitrine da Siciliano em um shopping de São Paulo e uma editora grande faz isso por você.

L.O. Muitos planos, atualmente?
P.C. Bem, tem uma tese tentando nascer (o que me provocou uma inflamação na “pá” das costas no fim desse mês de Julho) e um livro de contos que estou trabalhando. Há uma novela encalhada, que talvez nunca seja publicada porque preciso cortar cem páginas dela e não sei como fazer, e há o “Simples Filosofia”, que é produto das crônicas que publico todo domingo no Poti. Esse livro já está encaminhado, porque assinei contrato com a Rocco para a publicação e agora falta só fechar a edição no calendário da editora.

L.O. O que almeja, Pablo, de seu caminho na literatura?
P.C. Hoje me preocupa mais saber o que ela almeja para mim. Que caminho é esse que ela me abriu? Que linguagem é essa que ela me oferece? Que mundo é esse que ela quer que eu construa? Será que eu vou sair vivo dessa?

(25.01.2009)