“A poesia brasileira anda hoje num sublirismo insuportável”:

Por Justino Arantes

Dailor Varela¹, um dos líderes do Movimento do Poema/Processo, em 1968, mora hoje em Monteiro Lobato (SP), onde batemos um papo sobre poesia para o site Carta Potiguar de Natal (RN).

— Você está escrevendo um romance, após 14 livros de poesia. Como está sendo isso para você?

DailorAcossada (Cocaína e Utopias) é um romance que mistura ficção com realidades. Conta a história de uma amiga minha paulistana, Patrícia, viciada em cocaína e minha própria história. O romance passa por Natal, Nova Iorque, São Paulo e outras cidades. Estou gostando da experiência de fazer um romance. Na passagem da personagem Patrícia, por Natal, Mirabô, Falves estão no romance.

— Como você vê a atual poesia brasileira?

Dailor — Dominada por um sublirismo insuportável. A maioria dos nossos “jovens poetas” são muito ruins. É óbvio que existem poucos e bons poetas. A maioria desconhecidos pela mídia, que é idiotizada.

Diva Cunha e Marise Castro de Natal (RN) são  poetas de primeira grandeza e produzem uma poesia de altíssima qualidade. Eu recebo muitos livros de poesia, pelo fato de pertencer a UBE  (União Brasileira de Escritores), mesmo sendo um sócio relapso. A maioria desta produção poética é péssima. Do que tenho recebido, só Diva Cunha e Marize Castro me causaram impacto.

— Você trabalha o poema visual e ao mesmo tempo faz livros com palavras, versos. Explique isso?

Dailor — Depois de 13 livros publicados, a maioria versos, cheguei a conclusão de que sou bem mais criativo na poesia visual. Dificilmente lançarei mais algum livro de versos. Se o fizer é por puro marketing. Acredite se quiser: eu vendo muito bem meus livros. Mas me sinto mais criativo na experimentação da poesia visual.

— E seu livro de versos P. U. L. S. O. S.?

Dailor — Talvez seja meu último livro de versos e que sairá ainda este ano pela LETRASELVAGEM que é uma ONG, editora, do escritor amazonense, Nicodemos Sena, um dos maiores talentos do romance brasileiro, meu amigo e um produtor literário independente que eu amo com todas as letras. Por isso entreguei os originais de P. U. L. S. O. S. para ele publicar. É um livro extremamente amargo no que descreve a putrefação da carne e a desesperança que tenho no ser humano.

— Existencialmente, não há esperança no final do túnel?

Dailor — Não vejo, nem sinto. Não acredito no se humano. Aliás, acredito cada vez menos, quando ligo no Jornal Nacional.

— É verdade que você pretende publicar, por puro marketing, um livro de poemas de amor?

Dailor — É verdade. Embora eu não acredite no amor, como é exposto nesta sociedade “normal”, penso em fazer um livro brega, bem J. G. de Araújo Jorge, onde vou usar o pseudônimo de Lindonéia da Silva, numa homenagem ao Tropicalismo. Pra vender mesmo. E será certamente muito divertido.

— Ainda há tropicalismo em você?

Dailor — Com certeza. Pra mim dois movimentos culturais explodiram este “país tropical abençoado por Deus”, o Tropicalismo e o Poema/Processo. Óbvio que o Tropicalismo ganhou a mídia, fundiu a cuca da mídia. O Poema/Processo fundiu ainda mais. Tanto que a mídia até hoje se assusta com o Poema/Processo, o poema visual. E o Tropicalismo nunca esteve tão vivo. No exterior, Caetano, Tom Zé, Mutantes estão vivíssimos e enlouquecendo a mídia musical pop.

— Uma cesta básica com várias manifestações culturais (cinema, poesia, prosa, etc)?

Dailor — Vamos lá: poesia brasileira, João Cabral de Mello Neto. Poesia estrangeira, Maiakovsky, Pound e Dylan Thomas. Poesia de vanguarda: a produção dos poetas/processo de Natal, de altíssimo nível criativo. O que mais? Cinema nacional: Glauber, Glauber, Glauber. Cinema estrangeiro: Fellini e Antonioni. MPB? Fica difícil. Porque é extraordinária, a música popular mais rica do mundo. Ouço muito. Mas João Gilberto está sempre mais na minha cabeceira. Durmo e acordo ouvindo João Gilberto. Prosa? Não leio muito. Mas sou apaixonado pela obra de Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu. Recentemente li Pan América de José Agripino de Paula. Pirei. É maravilhoso.

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¹ Dailor Pinto Varela, um dos lançadores do poema/processo em Natal, em 1967, ao lado de Anchieta Fernandes, Moacy Cirne, Nei leandro de Castro, Sanderson Negreiros, Falves Silva, entre outros, nasceu em Anápolis, Goiás, no dia 10 de junho de 1945, mas já aos três anos de idade sua família, originária do Rio Grande do Norte, está de volta a Natal. Aí, esse potiguar “de coração e vivência familiar”, começa seus estudos.
Fez o primário na antiga escola da dona Mousinha; o ginásio no colégio Marista, colégio Municipal e Atheneu Norte-rio-grandense, onde termina o clássico.
É dessa fase, “péssimo aluno de ciências exatas e excelente aluno de Redação”, que começa sua paixão pela Literatura, já tendo escrito os primeiros versos aos 16 anos de idade, muito influenciado pelo romantismo de Castro Alves.
Mas dailor Varela vai atualizar suas leituras, passando a apreciar João Cabral de Melo Neto, já num período em que também milita na carreira jornalista.
Trabalhou na Tribuna do Norte, onde fundou um suplemento literário com Nei leandro de Castro, Moacy Cirne, Sanderson Negreiros, um suplemento revolucionário na época, onde foram publicados poemas concretos e experiências visuais.
Os livros de poesia de Dailor Varela começam a sair desde a década de 1970, estreando com Babel (poema/processo), de 1976. Daí em diante, sua poesia que passara significativamente pela área dos signos visuais, tende também para a área dos signos verbais, onde produz a maioria de seus livros, em destaque A louça suja da convivência (1984), Escrevivências (1992), Do meu caderno amarelo (1994), passando por uma antologia de suas obras, Travessia (1990) e pelo poema/processo de Cantilena diabólica (1993).
Desde 1975, dailor varela está em São Paulo, onde, sempre ao lado da poesia e atuação cultural, tem trabalho em revistas e jornais. Em São José dos campos foi editor dos jornais Agora, Valeparaibano. Atualmente trabalha em O Diário. Em 1977, quando o poema/processo completa 30 anos, pretende publicar toda a sua obra visual. O poeta mora hoje em Monteiro Lobato, pequena cidade do Vale, na serra da Mantiqueira.

(Descrição extraída na Enciclopédia Nordeste)

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