“Devemos lutar para que todo cidadão tenha Direito a pão e livro”

 

Por Yuno Silva

O que o futuro reserva à figura do escritor nesses tempos de convergência digital, redes sociais e comunicação globalizada, onde muita coisa se resume ao famigerado ‘control c/control v’ que manda para o espaço os direitos autorais? A árdua tarefa para se encontrar uma única resposta capaz de esclarecer tal questionamento pode se mostrar infrutífera, até mesmo impossível, e uma das alternativas para tentar entender a situação é se reunir em torno de objetivos literários comuns. Independente do rumo a ser seguido, “pois cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, a próxima segunda-feira (25) marca a passagem do Dia Nacional do Escritor e a secção local da União Brasileira de Escritores – UBE/RN promove evento na Aliança Francesa, às 19h, para não deixar a data passar em branco.
Presidida no biênio 2010-2011 pelo escritor e poeta Eduardo Gosson, a UBE/RN aproveita a  ocasião para lançar o Prêmio Literário Escritor Eulício Farias de Lacerda durante mesa redonda formada por Jarbas Martins, Chico Alves e Nelson Patriota. Além do bate papo com o trio, a deputada Federal Fátima Bezerra (PT) mais um representante do Ministério da Cultura apresentam painel sobre as propostas do Governo Federal para o segmento cultural e a nova lei que regulamenta os direitos autorais no Brasil.

Para Gosson, o encontro na Aliança Francesa será oportuno para divulgar o prêmio e, principalmente, dirimir dúvidas sobre o assunto que tira o sono de muitos autores: “Desde 2009, o MinC vem trabalhando em um novo texto para a Lei dos Direitos Autorais. Abriu o debate para consulta pública, recebeu sugestões e notamos alguns avanços”, garante o presidente. Entre os progressos citados por Eduardo  está a proposta de taxar cópias de livros nas universidades. “Será complexa a implantação de um sistema eficiente para garantir essas cobranças, mas é uma medida necessária”, disse. “Outro avanço identificado no projeto de lei é a maior fiscalização por parte do Governo sobre as atividades do Ecad (Escritório Central de Arrecadação dos Direitos Autorais), instituição que é uma verdadeira caixa preta”, aponta.

Na opinião do presidente da UBE/RN, a literatura brasileira está distante dos leitores devido os altos custos de produção dos livros. “Queremos que os livros sejam tão acessíveis quanto o pão e o leite”, planeja.

Tesão que move

Mas e o escritor? O que significa na prática ser autor de livros? Há o que comemorar no Dia Nacional do Escritor?

Para o jornalista, escritor e crítico literário da TRIBUNA DO NORTE Carlão de Souza o que move o autor é o tesão: “Ninguém vive de literatura no Brasil, a não ser Paulo Coelho e a turma que escreve livros de auto-ajuda. Nem o baiano João Ubaldo Ribeiro vive de literatura, e ele já disse isso com todas as letras. O que sustenta é a coluna que ele mantém no Estadão (jornal O Estado de São Paulo)”, dispara.

“Autores escrevem por puro tesão, pelo simples desejo de propagar ideias e, quem sabe, influenciar”, arrisca o jornalista.

Infopoética

Mesmo com as facilidades da tecnologia e a velocidade da comunicação globalizada, o desafio e a satisfação de publicar livros impressos ainda seduz escritores e o “livro como o conhecemos não vai desaparecer das prateleiras”, diz o jornalista e poeta Jarbas Martins. “Não podemos negar que novas possibilidades estão surgindo com o que costumo chamar de ‘infopoética’, mas precisamos atentar para um novo desafio imposto por essa torrente de informações: temos que ligar o filtro, e mantê-lo arejado para identificarmos o que vale e o que não vale a pena ler”, analisa.

Questionado sobre a superficialidade literária dominante, Jarbas acredita que são sinais dos tempos: “Até meados do século passado, havia uma busca pela densidade do conteúdo, pelo conhecimento. Atualmente o que impera é a indústria do entretenimento, tudo gira em torno do mercado, mas, mesmo assim, temos bons exemplos de autores interessantes”, garante Jarbas, fã confesso de Zeca Baleiro e Arnaldo Antunes,dois novos poetas que, para ele, utilizam a música como ferramenta. “Esse fase pós-moderna começou a ganhar terreno com a chegada da pop-arte, e o que vemos hoje é a ‘popificação’ de tudo e a literatura está no meio”, verifica. “O escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984) é um bom exemplo de literatura pop que não deixa de ser profunda,  uma coisa não anula a outra. Paulo Leminski (1944-1989) é pop, Arnaldo Antunes é pop”, explica.

Jarbas Martins será um dos convidados presentes na mesa redonda que marca o lançamento do Prêmio Literário Escritor Eulício Farias de Lacerda, com quem conviveu: “Eulício (1925-1996) era seguidor de James Joyce e Guimarães Rosa, nomes expressivos da literatura mundial que mesclaram o erudito com a linguagem popular, ou seja, tudo é um ciclo e estamos passando por período de transformações que ainda está sendo processado, entendido”, conclui.

Oportunidade para resgatar o autor Eulício Farias

O escritor Eulício Farias de Lacerda, natural de Piancó na Paraíba, chegou em Natal no início da década de 1950. Graduou-se em Letras, se tornou conhecido como professor de Teoria de Literatura e só estreou na literatura aos 38 anos, quando ganhou o Prêmio Câmara Cascudo com “O Rio da noite verde” – também lançou outros cinco títulos. Adepto da vertente literária contemporânea que tenta estabelecer uma articulação entre o regional e o universal, Eulício criou personagens que vivem conflitos existenciais e e denunciam as injustiças impostas ao homem nordestino. Suas formas literárias preferidas são o conto, a novela e o romance e, nelas, deixa transparecer sua preocupação com a linguagem, numa clara revelação das influências que mais o marcaram: Guimarães Rosa, no Brasil, e James Joyce, no exterior.

Serviço

Dia Nacional do Escritor, dia 25, segunda-feira,  Aliança Francesa, às 19h. Entrada franca. Rua  Potengi, 459, Petrópolis.

A incessante paixão pela escrita

O nome do escritor mossoroense Tomislav Femenick não nega sua origem estrangeira. Descendente de uma família vinda do leste europeu – mais precisamente da Croácia – Femenick coleciona palavras e tem o hábito de produzir livros com a mesma velocidade de uma máquina calculadora nas mãos de um contador experiente. Economista, sociólogo, historiador, professor, jornalista e bacharel em Ciências Contábeis, esta última sua atividade principal, o sorridente senhor de 72 anos também cultiva o costume de descansar a mente lendo romances policiais. “Também gosto de um bom charuto ou cachimbo, e um uisquezinho, por que ninguém é de ferro”, confessa.

Instalado em sua biblioteca particular, onde mantém coleções completas como a rara Brasiliana, Tomislav tem 46 títulos publicados, já lançou três este ano, tem mais dois no prelo e outros cinco prontos – estes últimos sobre os tempos áureos de Mossoró. “Trata-se de uma compilação de artigos e reportagens publicadas entre 1960 e 70, sobre assuntos que influenciaram a região Oeste do RN como a inauguração do porto de Areia Branca, a descoberta de petróleo, a mecanização da salina e  o surgimento das universidades”, adianta o escritor. “Estão prontos desde 2000, mas ainda não tive oportunidade de lançar – uma hora dessas surge o convite”, dá a deixa.

Mais conhecido como autor de livros técnicos, didáticos e paradidáticos, Femenick festeja o fato de antecipar conceitos econômicos ainda pouco abordados pelos meios acadêmicos e chama atenção por não escrever em eco”nomês ou historiês. Escrevo para qualquer pessoa ler e entender, por isso digo que meus livros, apesar de técnicos, não tem aquele tom professoral”, analisa.

Antenado com as mudanças que sacodem o mercado financeiro, o contador e escritor potiguar lembra que sua obra mais recente “Contabilidade Avançada e Dinâmica Gerencial – para negócios globalizados”, publicada pela Editora Juruá de Curitiba (PR), foi aprovada em velocidade recorde: “Quando enviei o original me disseram que a fila de espera para publicação de livros seria de três anos, mas um dos consultores percebeu o ineditismo da abordagem sobre as novas exigências da contabilidade no Brasil, que desde 2009 vem seguindo normas internacionais, e aprovou o texto em três dias. E em junho lancei durante um evento de contabilidade em Salvador (BA)”, comemora.

Apesar de ter começado a escrever sistematicamente aos 13 anos, em um jornal de Alagoas onde morou na infância, só em 2011 lançou-se na literatura com o livro “Uma prosa para Rosecleide” (Paco Editorial, SP), reunião de contos e crônicas publicados em jornais que Tomislav atua como colaborador – “Uma prosa…” chegou às prateleiras em abril deste ano. Avesso à coquetéis de lançamento, suas obras podem ser encontradas nas principais livrarias da cidade.

Além de escritor e contador, Tomislav já foi publicitário, bancário, dono de casa noturna, corretor do mercado de capitais (ações e câmbio), diretor de agência de notícias e especialista em elaboração de projetos econômicos. Seu próximo feito será o lançamento de “Conexões e Reflexões sobre Economia” durante o 19º Congresso Brasileiro de Economia, a ser realizado em setembro, na cidade de Bonito, Mato Grosso do Sul.

( In caderno Viver do jornal Tribuna do Norte 23.07.2011)