Muito, 14 de agosto de 2011
Sérgio Vilar // sergiovilar.rn@dabr.com.br

A brisa areiabranquense moldou a personalidade infantil de Deífilo Gurgel. Mas brotou dos serrotes verdejantes de Caraúbas o alumbramento poético adolescente. A sensação de vislumbre diante daquelas elevações e depressões distintas da paisagem plana de Areia Branca permanece mesmo aos 85 anos. Um dos maiores folcloristas vivos do Brasil gosta da volta ao passado. Recita poesias longas de Ferreira Itajubá, todas elas carregadas de nostalgias. A memória de Deífilo talvez seja tão prodigiosa quanto o seu conhecimento do folclore; tão intensa quanto a sua humildade e frieza quando encara os auspícios da alegria ou as armadilhas da tristeza. Na sobriedade característica, encara a velhice com alguma indiferença. Força a vitória contra as limitações da idade. O caminhar já se faz difícil. Quando se levanta, comenta: “É preciso equilíbrio. Estou igual aqueles prédios que balançam, mas não caem”. E estabelece metas, sonhos para um futuro nem tão próximo. No alongado dos dias presentes, mantém a companhia do seu maiorinstante de euforia vivido: a mulher Zoraide. Além da visita constante dos nove filhos. Mas Deífilo é pai de muitas outras crias. Três delas talvez formem a “santíssima trindade” do folclore potiguar: a romanceira Militana Salustino, o coquista Chico Antônio, e o mamulengueiro Chico Daniel. E se é contra o natural dos acontecimentos o pai ver seus filhos morrerem, este filho legítimo do folclore assiste diariamente a decadência da arte popular, do folclore que o adotou já aos 44 anos. E desde então se tornou seu herdeiro mais legítimo.

Foto: Ana Amaral/DN/D.A Press

Muito se foi dito a respeito das suas descobertas no folclore, sobretudo de Dona Militana, Chico Antônio e Chico Daniel. Qual foi a mais gratificante?

Sim, dei muito mais entrevista do que mereço. Além desses três, redescobri Fabião das Queimadas e um romance cantado por ele desconhecido até então, chamado Cavalo do Moleque Fogoso. Mas o mais gratificante talvez tenha sido Chico Antônio porque foi uma completa surpresa. Maria José (dona Militana), eu já desconfiava porque tinha entrevistado o pai dela, que me cantou dois romances muito bons. Quando Mário de Andrade escreveu em seu diário a vida de Chico Antônio, cantando côco e bebendo sem parar, pensei que ele fosse se acabar logo, mas morreu com mais de 90 anos. Agora, a figura mais importante para a cultura é Militana.

Romanceiro Potiguar – fruto de pesquisa de mais de 10 anos – será lançado quando?

Segundo João Faustino me informou (o senador solicitou verba federal para publicação de quatro livros em parceria como a Academia Norte-rio-grandense de Letras) deve ficar pronto entre setembro e outubro. E como disse Mário Andrade em resposta a Manoel Bandeira, que perguntou qual o folclore mais importante que ele viu, o RN, disse ele.

O RN é detentor de uma cena rica do folclore. O senhor, um pesquisador nato reconhecido nacionalmente. Deífilo Gurgel pode ser considerado o maior folclorista vivo?

Um dos maiores. O professor Bráulio Nascimento, da Paraíba, que vive no Rio desde rapazote, e o paulista Américo Pellegrino Filho são muito bons. Bráulio tem pesquisa vastíssima sobre o romanceiro ibérico e nacional. Américo se debruça mais sobre esse folclore mais novo. E tem outros mais.

Dos cerca de 200 romances catalogados, uns 100 chegaram ao Brasil. Desses, o senhor descobriu uns 40. Quantos o Bráulio descobriu?

De raspão ele toca em quase todos eles, principalmente os romances ligados aos bois.

Esse livro do Romanceiro será o seu último?

Penso na segunda edição do meu livro de poemas, acrescentando alguns inéditos. E também a segunda edição do Espaço e Tempo no Folclore Potiguar. De repente pela Fundação José Augusto.

O senhor trabalhou em várias gestões culturais. Qual delas prestigiou mais o folclore?

Quando cheguei, tinha saído Franco Jasielo e entrou Sanderson Negreiros, sem muito interesse pela cultura popular. Depois veio Evaristo Leão, um professor de educação física que não fez p*… nenhuma pelo folclore. Depois, Valério Mesquita: fez alguma coisa, sem muito destaque. Seguido por Paulo Macedo, também sem interesse. Cláudio Emereciano também não. Iaperi talvez tenha sido o melhorzinho. Mas foi João Faustino quem realmente trabalhou pelo folclore.

Até hoje falta concretizar o espaço Xico Santeiro…

De uns tempos pra cá, desde aquelas nossas primeiras conversas, pensei no seguinte: esses grupos têm um repertório incrível. Há dez anos, por exemplo, filmei três horas de brincadeiras e cantorias da Chegança. Quem hoje tem saco para ver isso? Não assistem nem mais TV durante esse período. Ninguém entende mais o significado daquilo. Folclore precise de leitura.

Esse espaço não seria então um local de resistência?

Seria uma boa um espaço assim e um corpo de auxiliares que me ajudassem na revisão disso tudo. Em vez de 27 cantorias da Chegança, por exemplo, cantariam cinco. Em vez da apresentação com 40 figurantes do Fandango, só 20. E um microônibus deslocaria essa gente pelo interior e casas de cultura. Seria uma maneira de manter vivos os grupos, as casas de cultura e o folclore.

E há alguns resistentes…

Chico Daniel foi inegavelmente o maior mamulengueiro, mas o filho dele, Josivan, está aí. Mas é um cara que precisaria ser bem pago para continuar sua arte. Severino Guedes, do Bambelô Asa Branca, no Alecrim, morreu, seus filhos tentaram manter, mas desistiram; seguiram a religião evangélica: um sumidouro para o folclore. Se tivessem recebido incentivos talvez tivessem permanecido. Faz um tempo, vieram dois pernambucanos documentar o Fandango e Chegança de Canguaretama. Isaura (Rosado) me disse que assistiu uma apresentação de um grupo mirim de Fandango em Pernambuco. Só pode ter sido influência desse trabalho feito no Rio Grande do Norte. É questão de planejamento. Mas pra eu pensar tudo só, é de lascar (boceja, quando eram 21h).

E rotina: faz exercícios?

Faço exercício no quarto mesmo, quando acordo: uns exercícios respiratórios, uma flexões nas pernas, nos braços. Inclusive tenho uma bursite no braço – ô nome feio da p*…, ne? (risos).

E alimentação: conserva os hábitos interioranos?

Nos tempos de jovem eu fazia compra naquele mercado da Cidade Alta que pegou fogo. Comprava carne de gado, umas costelas com dois dedos de gordura. Eu cortava a gordura, parecia um queijo, aí comia pura. Isso me rendeu uma ponte de safena e duas mamárias. Mas foi há dez anos. Desde então, nunca mais. Hoje como principalmente frutas. Tenho meus 50 e poucos quilos. Mas meu peso nunca passou de 70.

A velhice é mesmo a chamada melhor idade?

Fico admirado de estar vivíssimo com 85 anos. Meu pai morreu com 64 com câncer no pâncreas. Minha mãe morreu com 77 de velhice. E do jeito que estou vivo e estribuchando, vou durar mais um bocado (risos). São raros os da família com mais de 80. Só meu avô paterno, que durou mais de 90 anos, mas era aquela vida no Sertão, né?

Quais foram os estresses?

(Olha para Carlos Gurgel, à frente, e ri) Foi desobediência. Esses danados (os filhos)… eu falava o que era o certo, mas insistiam em desobedecer. Mas cresci e evolui. Cansei de dizer o que é certo e errado. Não vim ao mundo para julgar, mas para tentar compreender meus semelhantes. Convencer o outro de que o melhor é o ABC ou o América é besteira.

São nove filhos. E a TV?

(Risos) Quando fiz os cinco primeiros, não tinha TV. Todo ano era um. Depois foram de três em três anos. E aí foram mais quatro.

Qual a maior alegria na vida?

Sei nem lhe dizer. Sou muito frio, sem muitas expansões pra essas coisas: nem para alegria nem para tristeza. Quando meu pai faleceu, fui ao sepultamento em Mossoró. Os outros filhos choravam, mas eu não sentia vontade. Com minha mãe,também. Mas quando descobri Zoraide pela primeira vez, fiquei emocionado, admirando a beleza dela. As amigas diziam que era a mulher mais bonita da cidade. E eu, um provinciano que veio do oco do mundo, iria conquistar? Mas depois de muito assédio, conquistei a rainha.

E a maior decepção?

Sou um cara que me acomodo muito com os percalços da vida. Mas o meu primeiro emprego veio quando passei em primeiro lugar entre 120 candidatos no concurso público para cargo de datilógrafo no Ipase. O gerente, Jurandir Cerri, viu meu interesse no serviço e fui promovido. Quando Getúlio Vargas foi deposto, o gerente eleito foi Eurico Dutra. Ele esculhambou o Ipase, quando eu já era delegado lá, e me substituiu por um contínuo do partido político dele. Eu nunca tive partido na vida. Aí fiz uma representação direta para o presidente Alcides Carneiro, da Paraíba. A resposta foi dez dias de suspensão. Não contei conversa e pedi demissão depois de oito anos no Ipase. Depois fui ser caixa no Banespa, onde passei 17 anos (nesse período, Deífilo se forma em Direito, em 67). Mas lá também pedi pra sair. Eu era meio doido nessa época. E me vi cinco meses desempregado, casado e com cinco filhos.

Foi quando a cultura o salvou?

Eu morava em uma casinha humilde em Areia Preta. Estava sentado em um banquinho próximo à Praia da Jangada, conversando com Zoraide sobre a vida, e João Faustino me aparece dizendo que tinha sido nomeado pra secretário de cultura na administração de Ubiratan Galvão e me convidou para ser diretor de promoções culturais, ganhando até mais. Não pensei duas vezes.

Qual sua ligação com a cultura e com João Faustino?

Edson Maranhão, pai de João Faustino, foi assessor jurídico no Ipase. Era amigo meu. E conheci João ainda menino de calça curta. Ele acompanhou a publicação de meus poemas nos jornais e resolveu me convidar. Minha função na secretaria era promover a cultura erudita e popular, mas me virei totalmente à arte popular, que não tinha praticamente nada a respeito. Cascudo só publicou o primeiro livre sobre folclore em 1949! (Sobre Vaqueiros e Cantadores).

Como os trabalhos iniciaram?

Já era 1970. Djalma Maranhão havia sido deportado há oito anos. No governo dele aconteciam grandes festivais de folclore. Nunca me interessei. Quando fui trabalhar com João, a mulher do governador Cortez Pereira, Aída Cortez, resolveu promover uma festa natalina com várias apresentações dos grupos tradicionais dos antigos festejos promovidos por Djalma. E eu fui o encarregado disso. Chamei o senhor Joaquim Caldas Moreira, braço direito de Djalma naquela época, para arregimentar esses grupos. Quando vi a primeira apresentação, do boi de reis de São Gonçalo, veio meu interesse. Me cerquei de uma biografia razoável e me aprofundei no estudo do folclore.

E a ligação com a poesia?

Trazemos do berço. Em Areia Branca eram aquelas águas desaguando no oceano: uma paisagem muito plana. Eu já sentia alguns pluridos poéticos, mas pela pouca idade e falta de orientação, não me arrisquei. Quando eu ia de férias à casa do meu avô em Caraúbas, já com10 ou 12 anos, ficava encantado com aquela natureza, aquelas serras. Eu ficava na calçada do meu avô olhando aquilo tudo. E lá não passava automóvel, só carros de boi, jumenteiras. E escrevia meus primeiros poemas: “Da esquina da rua do meu avô/ eu via o trem de carga do Patu/ que passava por trás do sítio de seu Joaquim Amâncio/ lançando na calma tarde sertaneja/ o seu apito longo e dolorido/ e lançava no meu coração doente de menino/ as primeiras sementes de poesia”. Muita coisa da minha poesia, até hoje, são evocações de minha época de menino.

A poesia vem de Caraúbas e…

Tem uma frase de poema meu que sintetiza bem isso: “Onde termina o real; onde começa a poesia”. (E cita um poema) Era ali que começava a poesia em mim.