“A leitura é um dos caminhos para recuperar o tempo perdido”

 

 

Por Juliska Azevedo, Luiz Freitas e Adriana Amorim


O escritor, poeta e cronista mineiro Affonso Romano de Sant’Anna foi um dos destaques da quinta edição do seminário Prazer em Ler, promovido na semana passada pelo Instituto de Desenvolvimento da Educação (IDE) em parceria com o Instituto C&A. Nascido em 1937, aos 16 anos escrevia o primeiro texto em jornal. Filho de pais protestantes, foi criado para ser pastor. Aos 17 anos pregava o evangelho em várias cidades de Minas Gerais, visita favelas, prisões e hospitais, convivendo com pessoas pobres e sofridas. Leva a elas sua mensagem. Essa experiência iria influir, futuramente, no estilo de seus textos e poesias, com forte conteúdo social. Publicou sua primeira obra, O Desemprego da Poesia, em 1962, e de lá para cá já lançou mais de 50 livros, todos com forte conotação social. Nesta entrevista, ele aborda aspectos do novo trabalho, Ler o Mundo, cujo conteúdo foi tema de sua palestra em Natal. O livro, lançado pela Global Editora, reúne crônicas, ensaios e depoimentos sobre o mundo fantástico da leitura, registros de suas viagens ao exterior, participação em congressos, festivais e bienais de literatura, mas especialmente de sua experiência à frente da Fundação Biblioteca Nacional, tendo sido ele o primeiro presidente da instituição, na década de 1990.

O Poti/Diário de Natal – Ler o Mundo traz quais abordagens?

 

Affonso Romano – O livro tem três níveis. O primeiro envolve crônicas enfocando a questão da leitura em diversos âmbitos, como hospitais, favelas, contando histórias; outros quatro ou cinco textos são teóricos, e tem a parte final, que é um depoimento sobre os seis anos em que passei na Biblioteca Nacional, o que foi estar envolvido com o poder, ter um programa de leitura, a estrutura básica que o governo tem e o que foi realizado. E contando coisas que ninguém conta.

O que ninguém conta?

 

Uma das coisas que eu dizia era de que o governo anda sobre rodas quadradas. Então, você precisa fazer a carruagem andar de qualquer maneira. Quando assumi a Biblioteca Nacional, a estrutura estava caindo aos pedaços. Havia ameaças de incêndio o tempo todo, enchentes, chuvas, não tinha computador, ar-condicionado. Um ano depois, já tinha mudado completamente. E seis anos depois, já era tida como a melhor instituição federal do Rio de Janeiro. Eu conto detalhes desse processo, o que foi feito e como deve ser feito um programa de promoção da leitura, o sistema nacional de bibliotecas e outros.

Falta boa vontade para fazer a roda quadrada girar? Qual o problema do Brasil?

 

Quando você quer fazer, faz sem dinheiro mesmo. Na época da Biblioteca, tirei pessoas da universidade para trabalhar de graça. Foi quando a Biblioteca virou assunto. Quando você sente que a população está reagindo, vai criando uma força, e você vai tirando dinheiro. Consegui tirar dinheiro de algumas fundações e instituições. Ou seja, é preciso haver alguém que queira fazer. Esse discurso do “difícil” é muito comum.

Como é promover a literatura entre os jovens, hoje?

 

Hoje, o fascínio pela dispersão é muito grande. Existe um estudo sobre a existência de uma geração que nasceu na década de 1980/1990 e que vive zapeando hoje, nos tempos da internet. Eles fazem cinco coisas ao mesmo tempo, o que é ótimo. O mercado de trabalho tem preferido esse tipo de gente. Agora, a leitura exige concentração. Uma das coisas que ocorre e que os teóricos enfrentam é que o conceito de leitura está mudando. Existe uma outra forma de ler o mundo, e esse pessoal mais jovem está exercitando. É um apelo o tempo todo para o visual, mas a leitura tradicional exige concentração. O Brasil passa por uma situação muito peculiar. Não conseguimos em 500 anos construir a quantidade ideal de biobliotecas e nem implantar livrarias suficientes. Mas, nesta era digital, como transformar os notebooks, I-Pads, celulares em bibliotecas individuais e sociais? O Brasil já conseguiu construir 17 mil telecentros. O MEC deveria interferir nisso com ênfase na educação, ter um programa. Acho ótimo a distribuição de iPads, mas é preciso ter conteúdo incluso.

Como seria essa inclusão digital aliada à leitura?

 

É preciso ter uma inclusão cultural. É preciso ensinar a usar esses equipamentos. A Classe C, com 30 milhões depessoas, está consumindo coisas, viajando, se hospedando em hoteis, mas os jornais e editoras tendem a atender essa classe apenas baixando o preço dos livros, dos produtos. Você não pode transformar consumidores em produtos de consumo, mas elevar o nível deles. É preciso ter um projeto de governo de como usar os meios de comunicação com eficiência.

Qual a maior dificuldade que o Brasil enfrenta?

 

Falta um projeto cultural que seja mais contínuo. Fernando Henrique Cardoso era um sujeito formidável, mas fez uma péssima gestão nas áreas de Cultura e Educação. Lula, que nunca havia lido um livro, fez com que o Ministério da Cultura fizesse o que ninguém fez em 20 anos. Agora, conseguiram implantar uma biblioteca em cada município do país. Quando assumi a Biblioteca Nacional, existiam seis mil cidades sem bibliotecas. Hoje, o Brasil vivencia uma nova realidade com o surgimento de mediadores de leitura, com resultado do ProLer, com a implantação de leitura em hospitais, favelas, açougues, borracharias. O Vivaleitura tem mais de 10 mil projetos no país, leitura de pescadores, canavieiros. A leitura é um dos caminhos para recuperar o tempo perdido. Temos um problema nacional de reeducação muito grande. Não basta apenas reeducar a classe C, mas as classes A e B.

 

 

Como analisar um país em que lê-se pouco, mas se lançam muitos livros?

 

A nossa geração de escritores, livreiros e jornalistas foram pegos por uma grande tsunami. O suporte e o conteúdo estão mudando. Há uma nova coisa no ar que estou tentando descobrir o que é. Eu, por exemplo, lanço um livro a cada cinco anos, em média. Mas, o editor está lançando cerca de 80 livros por mês. No Brasil, 300 livros novos por dia surgem. Então, essa quantidade não possibilita fazer resenhas. Hoje, pode ocorrer de eu lançar um livro e não haver resenha, Isso não acontecia no início da minha carreira. Os jornais transformaram os suplementos em revistas. O apelo visual seduz mais o leitor, acabou-se a crítica literária que havia. Tudo se resume a uma reportagem. O sistema está muito diferente do que era, e todo mundo tenta entender. Não é questão de ser positivo ou negativo. Do Modernismo para cá tudo acontece ao mesmo tempo.

E o diálogo com escritor hoje?

 

Hoje, com site e blog, é uma abertura incrível, mas há o risco de o escritor ficar à mercê desse público, de escrever direcionado.

O senhor já conhecia Natal?

 

Estive em Natal e em Mossoró fazendo conferência. Acho a cidade muito diferente, me parece mais moderna, tem um design moderno e fiquei impressionado com o número de shoppings.

Qual é o papel do escritor?

 

Cada um escolhe o seu. No meu caso, sou um tipo de escritor que tem obrigação de participar socialmente. A crônica, que pode ser vista como uma brincadeira, pra mim pode alterar socialmente, pode provocar uma interferência, fazer pessoas mudarem de vida.

(O POTI/DN, 02.10.2011 – Cidades)