Por Sérgio Vilar

 

Mário Prata passeia pelo cult e o popular. Em primeiro conceito, pela qualidade dos escritos já figurados no teatro, cinema, televisão e, claro, na literatura. E o popular pela informalidade das palestras, das palavras e por seus livros figurarem entre os mais vendidos do país. O escritor foi um dos primeiros nomes procurados pela organização, até pela proximidade dos escritores locais com o filho dele, o também escritor Antônio Prata. Mário aceitou a proposta de cachê baixo quando conheceu o conceito do evento: de incentivo à leitura, principalmente entre estudantes. Quando a Fliq mudou a data para a mesma semana da Ação de Incentivo à Leitura, se estabeleceu uma parceria entre os dois eventos e a Fliq também terá Mario Prata e Rafael Coutinho, para degustação literária do público presente. Abaixo, Mário Prata adianta temáticas relacionadas ao gosto pela literatura e leitura. E sem “papas” na língua.

ENTREVISTA – MÁRIO PRATA

Qual o proveito de um encontro literário no incentivo à leitura?
Sempre que acontece algo ligado à leitura abre espaço na imprensa. Tanto que você está me ligando. E o livro passa a ser motivo de especulação jornalística. Só isso já bastaria. Agora, também acho que o contato de pessoas com escritores, deve ser interessante. Nunca um escritor visitou meu interior, distante da capital. Eu era leitor e adoraria conversar, perguntar, ver um escritor. Acho que por termos uma ideia de mito do escritor. Talvez pelos poetas do século 19 que morriam de tuberculose. Então é sempre legal conversar com o público e mostrar que somos normais, por mais loucos que somos. E que muitos ali presentes no encontro também podem se tornar escritores, ou médicos, arquitetos, ou um fela da puta mesmo.

O senhor tem ideia de quantos eventos do tipo já participou? Qual a impressão e o retorno pessoal pós-evento?
A venda de livros é mínima. Isso nem conta. Não vão pra comprar o livro do autor. Pode ser que aumente a venda em médio prazo. Vão pra conhecer o autor. Não sei se existe essa relação de venda e autor, ou talvez seja pequena. Aí mesmo em Natal, fui ano passado para uma reunião de professoras, todas preocupadas em despertarem nos alunos o gosto pela leitura. É muito interessante pra mim conversasr com professoras de português preocupadas com isso. Acho até que isso é pioneiro de vocês. Nunca fui convidado a dar aula pra quem dá aula. Me senti meio professor.

Brasileiros são pouco afeitos à leitura e ao universo literário. Desse modo, esses encontros não se tornam elitistas, para pequeno nicho interessado no assunto?
Já participei de eventos no Estado de São Paulo, o projeto Escritores na Biblioteca. Já fui a umas 16 edições desse projeto, pelo interior. São sempre cidades com menos de 30 mil habitantes, que tenham bibliotecas. É uma maravilha. É pra estudante mesmo, de 10 a 16 anos. Então acho que nem sempre falamos pra quem lê.

O dinheiro dispensado, normalmente de alto valor para trazer grandeS nomes, seria melhor empregado em políticas públicas ou esses encontros até suprem a falta dessas políticas?
Esses de São Paulo são públicos. E tem mais cidades que fazem feiras do livro. Fui em várias patrocinadas por prefeituras. Deve ter um retorno, também. Na Bienal do Livro de São Paulo, por exemplo, as editoras ganham fortunas e nem pagam ao escritor. Acho isso um assinte, inclusive. O evento de vocês não visam o lucro. Tem, claro, o apoio para manter o projeto. Acho muito válido.

Segundo a Unesco, só há leitura onde ler é uma tradição nacional. Como construir ou iniciar essa tradição no Brasil?
Já tivemos. Até os anos 60 se lia muito no Brasil. Toda casa tinha biblioteca. E se viam livros lidos nelas. Tenho certeza que foi o vestibular que afastou o jovem da leitura. É justo nessa idade o despertar do jovem. Pow, obrigam o cara a ler O Cortiço. É melhor assistir ao filme. Tem que ler aquilo ali com um puta sol lá fora. Não dá.

O país até tem erradicado o analfabetismo, mas o que tem oferecido a esses novos alfabetizados? O problema não seria este: a migração do analfabetismo direto aos programas de TV sem uma biblioteca no meio do caminho?
Pior é o analfabeto que sabe ler e não lê. O professor que alfabetiza precisa saber que não é ensinar a escrever, é a ler. Lendo, se escreve. Tem que ser por aí.

O senhor acha que o ENEM poderia participar mais nesse processo de incentivo à leitura?
Como está essa merda que ninguém lê no Brasil… o Brasil talvez seja o país que menos se lê. Morei em Portugal e quando entrava no metrô o povo estava lendo em pé. No Uruguai, também. Na argentina nem se fala: lá tem três livrarias por quarteirão. Uma vez caiu uma crônica minha no vestibular, acho que Carta ao Ministro. Eu tive acesso à prova e errei as oito perguntas. Até perguntei ao Ministro: “Ora, se eu não sei, porque o jovem tem de saber aquilo?”. Tinham lá cinco alternativas para o que eu quis dizer com uma frase. Poxa, eu quis dizer exatamente o que estava ali. Nenhuma das alternativas estava certa.

Qual o livro seria indicado?
O problema é transformar leitura em cultura. Acham que aquele livro é culto e enfiam goela abaixo do aluno. Porra, manda ler Harry Potter!

No meu tempo era Dom Casmurro. Mas Paulo Coelho serviria para pelo menos despertar o gosto pela leitura?
Aí é demais. O importante é gostar de coisa boa. Harry Potter é bom. Um chocolate amargo não vai despertar o gosto pelo chocolate no início. Mas se for um chocolate branco, um suiço, ele vai gostar. Tudo é assim. Por isso o jovem gosta das drogas, porque viaja, foge da realidade. A literatura pode ser uma droga. No meu tempo, não era nem Dom Casmurro, era José de Alencar com os índios dele. Um saco. Foi quando descobri os cronistas e vi que se podia escrever outra coisa, e literatura não era aquilo mostrado na escola; não era a letra do hino nacional que até hoje não entendo e só serve para humilhar jogador de futebol; não eram as poesias chatas de Castro Alves. E a merda toda se virou contra a leitura quando um débil mental qualquer, provavelmente militar, resolveu unificar os vestibulares e resolveu colocar a literatura no meio. Aí obrigaram os alunos a lerem uns dez livros chatos ao ano pro vestibular. A Relíquia, de Eça de Queiroz, é chato, pow! Sendo obrigado até Paulo Coelho eles vão achar chato. Nivelaram o romance, a poesia, a literatura com a química, a física e a matemática, que são muito chatas. Então, o cara começou a ler apenas pra passar no vestibular. E só. Então, já existem no Brasil duas gerações que não leem. Até porque os pais não têm livros em casa. Eu tropeçava em livro lá em casa. Meus amigos também. E isso no interior de São Paulo. Tínhamos três livrarias na cidade. Era hábito. O cara que hoje tem 30 anos cresceu sem saber ler.

Você tem filho? Ele gosta de ler?
Um é escritor, Antônio Prata, escreve na Folha de São Paulo e esteve agora entre os dez do Prêmio Jabuti. A filha é editora de uma revista de moda. E o terceiro é arquiteto e fotógrafo. Mas minha casa sempre foi frequentada por escritores e jornalistas. E meus filhos viram que o livro e a leitura eram parte da vida. Agora, se não tem exemplo em casa, a escola impõe o livro errado e depois o vestibular obriga a ler, é foda. Não acuse a internet e a TV. A net é fonte de leitura e escrita grande pro jovem. Quanto eu tinha 12, 13 anos, escrevia uma carta por ano pra minha avó, poque minha mãe obrigava. Hoje se escreve 30 posts por dia. Se posta no twitter, se escreve o dia inteiro. E tem mãe que reclama das sete horas ao dia do filho no computador. Minha senhora, digamos que sejam meia hora jogando, meia hora vendo mulher pelada, que não tem nada de mal. Depois ele está escrevendo. Mesmo se escreve “vc”, e não “você”.

Lobato dizia que uma nação se faz de homens e livros. Não somos uma nação, portanto?
Estamos muito mal de homens e de livros. Eu gostei muito dos governos do FHC e Lula, mas a corrupção está num nível muito louco. Os homens estão muito corruptos, e talvez isso ocorra porque não leram. A falta de leitura leva a isso.

* Matéria completa em O Poti, 10.10.2011