Por Yuno Silva
Mestre em Educação pela USP, cujo foco foi o Modernismo (especificamente a literatura de Pagu), e co-autora da novela ao lado de Duca Rachid, Guedes já lançou o livro “Cidadela Ardente” , o ensaio “Pagu: Literatura e Revolução”e o título de poemas “Atrás do Osso”:
Há uma relação estreita entre as telenovelas e a literatura?

Thelma Guedes – Claro que sim, as telenovelas estão repletas de referências. Desde sempre, os autores se valeram e continuam a se valer sobretudo da literatura para inspirar suas obras. Talvez em Cordel Encantado essa relação seja mais evidente e próxima, devido ao diálogo constante que construímos com contos de fadas, a literatura universal e figuras emblemáticas de nossa cultura.

Essa característica pode ser mais ou menos evidenciada em determinados trabalhos?

Sim, há obras em que essa ligação com a literatura fica mais visível, devido à própria natureza do trabalho. O que ocorre mesmo é que há novelas que apresentam tramas realistas, que procuram espelhar a realidade da atualidade. Nelas as referências literárias podem ser menos usadas ou mais sutis.

Cordel Encantado atraiu atenção de pessoas que geralmente não acompanham novelas. Quais os fatores  que você destacaria para esse êxito?

De fato Cordel atingiu públicos diversos. Muitas pessoas que não costumam ver novela, foram “fisgadas” por ela. Penso que essa conquista foi resultado de um trabalho conjunto, de uma equipe vibrante, apaixonada, que deu o melhor de si. Todos se esmeraram do princípio ao fim do trabalho – direção, equipe técnica e o elenco excelentes!

Esperava essa reação da audiência, uma vez que a novela experimentou novidades técnicas e literárias?

Eu e Duca confiávamos muito neste trabalho. Sabíamos que tinha qualidade e que havia muitos elementos do imaginário popular que seriam atraentes para o grande público. Mas de fato, mesmo confiantes, nos surpreendemos com a repercussão da novela, que foi bem maior do que esperávamos.

O fato da novela não ser a do ‘horário nobre’, das 21h, confere maior liberdade criativa?

Não. Muito pelo contrário. A novela das seis é a que traz mais limitações ao autor. A maior delas é o fato de não podemos tratar de certos temas, porque há muitas crianças assistindo televisão neste horário. Por exemplo, em Cordel foi muito difícil tratar de cangaço sem apresentar nenhuma violência.

Como nasceu Cordel?

A novela começou a ser pensada logo depois que Duca e eu terminamos de escrever O Profeta (novela exibida entre 2006/07). Tivemos acesso a uma pesquisa da Globo sobre o público de novela, informando que os telespectadores das 18h queriam, acima de tudo, sonhar. A partir daí começamos a pensar numa novela que desse a esse público o que ele tanto queria. Começamos pelo mote da princesa perdida, depois de que maneira poderíamos inseri-lo no contexto brasileiro. Pensamos que ela poderia ter ficado no Brasil, no sertão, talvez raptada por cangaceiros. E assim fomos montando, aos poucos… Até que ela começou a ficar parecida com um cordel.

Quais as principais fontes de pesquisa?

Começamos a pesquisar e trabalhar pra valer na sinopse um ano antes. A pesquisa foi muito variada. Já tínhamos algumas referências. Eu mesma sou filha de pernambucanos e desde menina ouço histórias sobre cangaço. Sempre li livros de cordel. Mas para a novela lemos muitos livros sobre monarquia e cangaço. Vimos filmes sobre esses temas. Relemos também muitos livros da literatura universal que usamos na novela. Além disso,  contamos com o auxílio da historiadora Luciane Reis.

Até que ponto a literatura de cordel esteve presente no roteiro?

Penso que Cordel Encantado se valeu do espírito da literatura de cordel: que açambarca todos os temas, personagens de diversos contextos, sem escrúpulos, misturando reis, rainhas, profetas, cangaceiros, lançando-os em situações reais ou irreais. E tudo isso no ambiente do sertão.

Há alguma relação de Jesuíno (personagem de Cauã Reymond) com o nosso Jesuíno Brilhante (1844-1879) aqui de Patu (RN)?

Quando criamos nosso personagem não conhecíamos ainda a história de Jesuíno Brilhante. A ideia inicial era criar nosso protagonista como filho de um temido cangaceiro que não aprovava os métodos usados pelo pai para lutar contra os desmandos de um poderoso coronel, mas que acabava se tornando um tipo como Robin Hood. Até que, ao pesquisarmos a vida de cangaceiros, encontramos o Jesuíno Brilhante, que era um cangaceiro diferente. Em homenagem a ele, demos o nome do nosso protagonista.
(In Tribuna do Norte, 18.11.2011- Viver)