Por Sergio Villar

 

Marize Castro procura palavras em campos nunca habitados. Talvez por isso o perigo na ousadia da procura e na oferta do resultado. Habitar Teu Nome (Editora Una, 67 pág. R$ 20) mexe com os sentidos do leitor. E por isso, perturba, causa estranheza. É um novo mundo descortinado, escancarado em frases montadas pelas palavras escondidas. Quem desejar mergulhar no desconhecido e achar uma poesia única, versátil, o livro será lançado no pátio interno do Teatro Alberto Maranhão, às 19h.

Dois anos de intervalo entre um livro e outro. Quanto tempo você demora para lapidar uma poesia e em que momento você se decide por ela pronta?
Este é o menor intervalo que eu já fiz entre os meus livros [de poesia]. Com a maturidade, a poesia se tornou ainda mais necessária em minha vida. Não tenho mais dúvida que escrever é meu destino, buscar a palavra necessária, insubstituível, lapidá-la e mesmo assim ainda saber o que o “não dito é indizível” é o meu caminho. Quanto tempo lapidar? O tempo que for preciso. Às vezes, é necessário abandonar o texto, publicá-lo mesmo sabendo que algo se escondeu, não se deixou dizer. Talvez este algo o leitor encontre. Este é o grande lance da poesia: a participação do leitor.

Tal qual o recente livro editado pela Una, Por Cada Uma, a feminilidade se faz presente em Habitar Teu Nome, mesmo que aparentemente mais madura. Também percebi isso no último livro de Diva Cunha. Pode-se dizer que essa exposição da alma feminina é um retrato da poesia contemporânea produzida pelas poetisas, em um século onde elas ganham cada vez mais liberdade?
As mulheres século 21 estão mais próximas da sua natureza instintiva. Já podemos olhar o mundo com milhares de olhos, não mais apenas os olhos que a sociedade nos permitia. Claro que houve toda uma trajetória percorrida por outras mulheres, para sermos o que somos hoje; nos guiamos com os mapas que essas mulheres deixaram. Bem sei que outras mulheres também se guiarão pelos mapas que eu, Diva Cunha e tantas outras estamos desenhando agora. Certos homens também se guiarão com esses mapas, o que é absolutamente maravilhoso.

Ainda nessa linha, porque cinco mulheres selecionadas no Por Cada Uma? Foi coincidência ou proposital?
Foi sincronicidade. Todas são leitoras e admiradoras da poesia que eu faço e me tornei leitora e admiradora da poesia de cada uma delas. Foi uma experiência incrível, houve uma harmonia impressionante entre todas nós, tornamo-nos amigas, acho que pra toda vida.

Marrons Crepons Marfins influenciou a poesia de uma época, há mais de 25 anos. E não só a poesia escrita, mas as artes visuais também beberam desse livro. Há abismos ou um caminho evolutivo entre este seu primeiro livro de poesia e o Habitar Teu Nome?
Entre Marrons Crepons Marfins e Habitar Teu Nome há uma trajetória de uma mulher que jamais parou de lutar, de se interessar pela vida, pela linguagem. O frescor de Marrons Crepons Marfins e a maturidade de Habitar Teu Nome representam integralmente minha poesia.

Nestes tempos de 140 caracteres, qual a pretensão do livro?
Ser lido.

 (Diário de Natal, 13.12.2011, Muito)