Por Paulo Jorge Dumaresq

 Tarcísio, para iniciar a entrevista, queremos que você se autodefina. Quem é Tarcísio Gurgel?

 

TG – Tarcísio Gurgel é um homem que, em sua experiência existencial, envolveu-se um dia com a literatura e com ela mantém uma relação duradoura. Tem mais defeitos que virtudes, certamente, mas ainda busca melhorar até para justificar a condição assinalada.

 

Agora, façamos uma volta ao passado e voltemos a Mossoró, sua cidade berço. Conte-nos como foi a sua infância. Como surgiu o seu interesse pela literatura? Na sua casa havia um ambiente cultural que o influenciava ou você foi buscar o conhecimento fora de casa? Na escola, por exemplo?

 

TG – Minha infância não foi especialmente interessante. Havia o espetáculo dos adultos de casa, que eram muitos – ao todo, éramos nove na minha casa – que eram extremamente generosos com um caçula chato que teve uma fase complicada de doença, situação que acabaria me revelando outra grande figura: o pai Juvenal, que, normalmente seco, se derretia, quando notava que alguma das crias corria risco. Ambiente cultural no sentido de cultivo de artes, propriamente, não havia em casa. Mas havia, da parte de alguns irmãos, um especial gosto pela educação e, nisso, por ser muito criativa, destacava-se Gelza, que depois teve um romance romântico, fugindo de casa e tudo mais. Quanto à literatura, havia vagas notícias de poemas, ingenuamente românticos da mãe (poemas que, obviamente se perderam por conta do seu pudor) e um seu irmão, Alexis, que me apresentou a Mark Twain, Chaplin e Euclides da Cunha. Depois é que fiquei sabendo que o primogênito da família, Deífilo era um poeta. Com a ridícula fama de haver feito uns versos horrorosos para a mãe, vi-me diante de um desafio meio sádico de uma professora: fazer uns versos em homenagem à Miss Quinto Ano, ali, na hora, a classe esperando. Claro que, inibido em sua inspiração, o súdito não pôde homenagear aquela realeza…

 

 Quais foram os primeiros livros que leu? Esses livros chegaram a lhe marcar de alguma forma? Influenciam até hoje?

 

TG – As Aventuras de Tom Sawyer, de Mark Twain, uma adaptação de A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, de Júlio Verne e os romances indianistas de Alencar. É possível que tenham me influenciado. Mas o chamado romance regionalista de 30 é que definitivamente fez minha cabeça nordestina, o que não chega a ser propriamente original…

 

Em que ano você deixou Mossoró? Foi para onde depois? Comente essa mudança de vida.

 

TG – Na verdade eu deveria responder no plural, tantas vezes saí (tantas vezes voltei também, é bom que diga) da minha cálida Mossoró. Em 59, por exemplo, por questões de saúde fui levado ao Rio de Janeiro por meu pai e voltaria àquela cidade outras três vezes: para me aventurar, para estudar e ver o Flamengo. Além disso, morei em Fortaleza no ano do golpe militar e em Natal outras tantas vezes, com a sensação de que esta última cidade tem se revelado um porto seguro para mim…

 

A literatura entrou definitivamente na sua vida em que momento? No período do ginasial? Ou do científico? Relacione os livros e autores que lhe influenciaram nessa fase da vida.

 

TG – Creio que a literatura me acompanha desde a infância/adolescência. Fiz ousadas projeções no campo da poesia e do romance e acabei me envolvendo com o teatro, numa experiência de ator que durante muito tempo se sobrepôs àquela pretensão infantil, dando-me a sensação de que nem tudo estava perdido. Quanto aos livros, creio que os antes citados, mais o romance regionalista, com a forte presença de Jorge Amado, de quem eu lia os romances em tardes docemente excitadas pela sugestão de uma amiga que insinuava serem tais livros muito “pesados”…

 

A faculdade certamente foi o período mais rico e de maior aprendizado na sua vida. Você ingressou no terceiro grau em que ano? Optou por fazer qual curso? Como era o ambiente universitário na sua época? O seu momento de universitário coincidiu com a ditadura militar de 1964? Você participou do movimento estudantil? Chegou a se filiar a algum partido político de esquerda contrário à ditadura militar? Se sim, foi perseguido? Preso? Torturado?

 

TG – A faculdade foi por certo um período rico. Não diria o mais rico. Certamente não mais que a experiência de haver lidado com o universo da padaria do meu pai, onde juntamente com outro irmão convivi com rudes padeiros, mestres da vida de importância inigualável, destilando um humor cortante em lições sacanas sobre as coisas da vida. Porém, meu ambiente universitário, já tardio, foi também interessante, porque dominado pela irreverência e a possibilidade de vivenciar novas e ricas experiências. Fui da última turma da Faculdade de Jornalismo Eloy de Souza e da primeira do curso de Comunicação Social da UFRN, mas não participei propriamente do movimento estudantil, praticamente desativado à época. Antes de se findarem os aos 60, ainda em Mossoró, militei no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. Mas não fiz nada que justificasse de fato tal filiação, embora tenha sido um militante cumpridor de tarefas e, enquanto deu, obediente ao centralismo democrático… Decerto pela minha nenhuma vocação para herói, não cheguei a ser perseguido, nem preso, nem torturado.

 

Ainda na faculdade, quem foram as pessoas mais próximas a você no mundo político e intelectual?

 

TG – Bem, na Faculdade tive a grande alegria de conviver com gente como os professores Américo de Oliveira Costa, Berilo Wanderley, Geraldo Queiroz – que adiante se tornaria Reitor da UFRN – e colegas como Cassiano Arruda Câmara, Petit das Virgens, Rogério Cadengue e muitos outros.

 

Como se deu a passagem de estudante para professor universitário? Você fez o seu mestrado e/ou doutorado fora do Rio Grande do Norte? Se sim, onde? Você trabalhou no Rio de Janeiro na qualidade de repórter do Jornal do Brasil. Como foi essa experiência?

 

TG – Eu mal havia concluído a Graduação e a UFRN abriu concurso para contratar professores no Departamento de Comunicação Social. Fui aprovado e entrei no curso em que havia pouco me formara. E aí, deu-se uma coisa curiosa: o Departamento de Letras lançou um curso de Especialização em Literatura tendo como figuras principais Diva Cunha, Eduardo de Assis e Costância Lima Duarte. Me inscrevi e, perto de concluí-lo, aceitei uma provocação que me era feita reiteradamente por Eduardo: tentar o Mestrado que os três haviam feito na PUC-Rio. Fiz a seleção, passei e pude conviver com gente como Luiz Costa Lima, Silviano Santiago, Gilberto Mendonça Teles e Affonso Romano de Sant’Anna, que me orientou a dissertação. Para esta aparente aventura carioca viajei com Ione e minha primeira filha, Mariana, que mal tinha passado do primeiro mês de vida. Ione, portanto, teve papel preponderante nessa história. O doutorado so fui fazer muito tempo depois quando já me aproximava da curva perigosa dos sessenta e aqui mesmo, na UFRN, sob a orientação de Humberto Hermenegildo. Não fui repórter do JB. Infelizmente não fui. Fui Conferente de Revisor. E mesmo assim por pouco tempo. Quando estava tomando gosto, surgiu um convite para retornar a Natal e substituir o famoso Luiz Damasceno na Livraria Universitária. E voltei.

 

E o teatro, como entrou na sua vida? Você acompanha de perto o movimento teatral no Estado do RN hoje?

 

TG – Certamente pela mania longamente cultivada de imitar meus irmãos. Um deles, Kiko Santos, o galã da família, meteu-se a fazer teatro com uma gente que havia criado um grupo numa escola de inglês, lá em Mossoró – o TEAM. E logo eu me meti a acompanhar os ensaios e ajudar a abrir e fechar cortina, arrumar cenário, essas coisas. Foi assim com dois espetáculos que marcaram o início da trajetória daquele grupo que é (relevada a sua postura assumidamente pequeno-burguesa – e aqui uso uma expressão que ainda cabia na época) o grande precursor de todos estes êxitos que se registram atualmente. Premiadíssimo, o grupo que completou 50 anos em 2009 tem uma trajetória digna de estudos para se avaliar o teatro moderno do Estado. Não posso dizer que acompanho o movimento teatral de perto. Mas sei bem da importância de grupos como o Clowns de Shakespeare, de diretores como João Marcelino, Fernando Yamamoto e Compositores como Danilo Guanais – além de autores como Racine Santos e também os novos, como você, Paulo – que agitam, com reconhecido talento, a cena contemporânea do Estado.

 

Você pode traçar um paralelo entre a UFRN da sua época de discente e a de hoje (2011).

 

TG – Não é fácil, porque se circunstâncias históricas – maiores ou menores dificuldades econômicas, políticas e mesmo pedagógicas – surgem como elementos preponderantes para o menor ou maior êxito de cada administração. Por essa razão entendo que é possível constatar, em idêntica proporção, a contribuição de cada grupo que a administrou deixando marcas visíveis na grande instituição em que se tornou.

 

Tarcísio, em que momento a literatura potiguar o arrebatou? Você lembra do seu primeiro livro de autor potiguar?

 

TG – Certamente nos saraus da casa do meu irmão Deífilo Gurgel, onde morei por pouco mais de um ano. E falo sarau, quero advertir que podia se resumir a nós dois: ele, generosamente, me apresentando à obra de Zila Mamede, de Jorge Fernandes, de José Bezerra Gomes, de Miguel Cirilo – que de vez em quando aparecia e era uma festa – e deixando, para que eu próprio descobrisse, tempos depois, a grandeza sua poesia. O primeiro livro que, de fato, me empolgou creio que foi o LIVRO DE POEMAS DE JORGE FERNANDES.

 

Há um marco divisor na literatura norte-rio-grandense? Quais são os pontos positivos a serem destacados na nossa literatura? Como você a define? Cite, por favor, os principais livros de autores nossos que não podem faltar na lista de alguém que está pesquisando o tema.

 

TG – É muito difícil estabelecer um marco divisor, porque a nossa literatura – por suas condições específicas – não registra propriamente movimentos de grande expressão, escolas, rupturas. Agrada-me mais, na medida em que me sinto mais seguro para fazê-lo, citar nomes fundamentais. Neste caso, é fácil mencionar Henrique Castriciano, Câmara Cascudo, Jorge Fernandes, Zila Mamede.

 

Você escreveu uma obra fundamental para o entendimento da literatura local intitulada “Informação da Literatura Potiguar”. O que você destaca nesse livro?

 

TG – Penso que a tentativa de produzir um discurso historiográfico/crítico coerente, investindo na possibilidade de despertar nas pessoas o interesse pela nossa literatura. E dar a ela o justo reconhecimento. Mesmo que este viesse acompanhado da advertência nada ufanista, quanto a nossa limitada produção literária, com base na sábia lição de Antônio Cândido. Aqui, me permiti assumir um aparente paradoxo: mesmo sendo pobre a nossa literatura, busquei valorizá-la, e não apenas pela coerência daquele discurso antes mencionado, mas pela coragem de fazer um livro de grande qualidade editorial. O pessoal da AS Editores bancou minha pretensão e o livro aconteceu.

 

Na sua opinião, quem são os grandes nomes da literatura potiguar? Atualmente algum jovem poeta, romancista ou dramaturgo lhe desperta interesse? O que podemos esperar da literatura potiguar nesta década?

 

TG – Penso que de certo modo respondi na pergunta de número 12. Aí poderia acrescentar ainda: Polycarpo Feitosa, Luiz Carlos Guimarães, Eulício Farias de Lacerda. Entre os contemporâneos pediria para destacar um time feminino de alta categoria: Marise Castro, Diva Cunha, Iracema Macedo, Carmen Vasconcelos.

 

De que modo você define o Tarcísio Gurgel ficcionista? Você recomenda a leitura de “Os de Macatuba”? Mudaria algo na obra?

 

TG – Como um escritor que se iniciou com certas ousadias de linguagem. E que foi privilegiado por avaliações generosas e até uma polêmica de que não teve culpa e que ajudou na divulgação do livro. Não assumiria a falsa modéstia de dizer que ler aquele livrinho seria uma perda de tempo. Mas também não sei dizer se mudaria algo, tanto tempo faz que eu mesmo não o releio…

 

Você concorda com o Plínio Marcos de que o intelectual brasileiro é um marginal de classe média querendo ganhar status por meio da cultura?

 

TG – Concordo que Plínio Marcos era sábio em sua irreverência. E que personificava magnificamente – ninguém o faria melhor – um tipo por ele criado.

 

 

Sabemos que você não tem bola de cristal, mas faça um exercício de futurologia e nos diga para onde vai a literatura no Século XXI. Quais os caminhos que a literatura pode ou deve seguir?

 

TG – Quer saber? Penso que durante muito tempo continuará sendo uma literatura produzida para refletir um impasse: do autor diante de um beco de muitas saídas e ele inseguro quanto ao caminho a seguir. Não sei que caminhos pode ou deve seguir. Sobretudo se encontramos a cada dia, em muitos dos becos antes referidos,  blogueiros e seus colaboradores que, movidos por um narcisismo irritante disseminam uma sapiência na qual eles próprios acreditam.

 

A tecnologia e as novas mídias o assustam enquanto escritor? Você acha interessante a ideia do e-book? Você leria um livro na tela do computador ou num tablet?

 

TG – Sou de uma época em que se comprava um refrigerador que, de certo modo, passava a compor a família, vivo e atuante durante anos. Não me assustava o fato de dispor daquela tecnologia – que não deixava de ser inovadora – e a sua durabilidade nos dava uma certa segurança. O que assusta de fato é a ausência de preocupação com o perene nos tempos de hoje. A adesão irrestrita a uma ditadura do descartável, que nos obriga a estar sempre mudando, isso, de fato, me assusta.

 

 Sua coleção particular de livros está em quantos volumes? O que podemos encontrar nas suas estantes?

 

TG – Algo em torno dos cinco mil exemplares. Obras predominantemente humanísticas: literatura, cultura brasileira, ensaios, biografias…

 

Qualquer coisa que não seja literatura o aborrece?

 

TG – Claro que não! Como me aborreceria, por exemplo, com o futebol (leia-se: com as conquistas do Flamengo); com o cinema, a convivência com os amigos, a música?

 

Quais são as cores e os sons da sua literatura?

TG – As cores creio que rubro-negras. Os sons, o baião de viola que precede uma sextilha dos cantadores.

 

 Tarcísio, a sua história de vida tem alguma moral? Se sim, que moral é essa?

 

TG – Sabe o “Poema em linha reta” de Álvaro de Campos, heterônimo de Pessoa? Talvez respondesse a sua pergunta com os versos que nos ensinam quão somos pequenos…