Leia a primeira entrevista de Clarice Lispector

Pinky Wainer encontrou um achado. Enquanto pesquisava e fazia descobertas sobre seu pai, o jornalista Samuel Wainer, Pinky descobriu a primeira entrevista concedida pela escritora Clarice Lispector, então uma jovem estudante universitária. A entrevista foi garimpada em uma edição de 1941 da revista “Diretrizes”, editada por Samuel Wainer. Leia a seguir o depoimento de Pinky Wainer e, na sequência, a entrevista com Clarice.

Clarice, seu marido Maury Gurgel Valente, Apolonio de Carvalho, Samuel Wainer e Daniel, cunhado de Apolonio (Paris, 1946)

Acervo pessoal de Pinky Wainer
Se alguém souber, me conte
Por Pinky Wainer
“Você sabia que seu pai está presente em boa parte da nova biografia da Clarice Lispector?”, me disse um amigo. Levei um susto. Comprei e comecei a ler, claro, pelo índice remissivo e as citações de Samuel Wainer. Eram muitas mesmo.
Clarice havia sido uma das grandes amigas de Bluma, primeira mulher de meu pai. Os casais Gurgel Valente e Wainer conviveram nos anos 40, época de Diretrizes – revista mensal fundada por Samuel Wainer em 1938 – e da luta contra o Estado Novo de Getulio Vargas, que terminou com o fechamento da publicação e o primeiro exílio político de meu pai. Ele foi para a Europa onde cobriu, para os Diários Associados, a Segunda Guerra Mundial e também o Tribunal de Nuremberg. Bluma estava sempre com ele.

Mas Clarice e Samuel também eram muito próximos em suas origens, então desconhecidas pelos brasileiros.

Meu pai contava para nós, os filhos, uma história leve e divertida sobre a “sementinha” – como ele dizia –, de onde brotaram os Wainer. Vou resumir: a família vivia num vilarejo na Bessarábia e havia pogroms constantes, cometidos por agressores de várias etnias. Numa só noite, uma trisavó Wainer foi estuprada por vários homens de etnias diversas. “Por isso nunca saberemos exatamente de onde viemos”, ria meu pai, melancolicamente. Conforme Benjamin Moser nos relata, a mesma história de horror e sequelas aconteceu com a mãe de Clarice.

(Preciso dizer que a pesquisa de Benjamin Moser é fantástica. Eu lia e me vinha à cabeça a falta de preguiça do escritor. Aliás, falta de preguiça ou tempo e dinheiro para pesquisa? O autor conta, de maneira didática e detalhada, como era a vida dos judeus pobres da Europa Central. Muitos vieram para as Américas no início do século XX. Nesse sentido, Clarice, relata, para os descendentes de judeus asquenazim, a história de seus antepassados. Praticamente um livro dentro do livro.)

Jamais consegui entender muito a literatura de Clarice. Mas adoro suas crônicas, contos e livros infantis. Cheguei a ilustrar alguns. Para compensar, li muito sobre ela: Clarice Lispector é, em si, um livro muito bom. Um livrão. Com uma história muito triste.

A turma de intelectuais contemporâneos a Clarice e Samuel virou história. Eram todos de esquerda, fundando publicações, lançando manifestos, brigando, namorando, sendo presos, cortejando o poder, roubando a mulher do amigo. Enfim, vida real, regada a uísque, cigarro e anfetaminas. Acredito que além do talento, eles ainda tiveram a chance histórica de estar no auge do vigor no pós-Guerra: A Idade de Ouro, como diz o historiador Eric Hobsbawm.

Enquanto o grupo desfrutava essa turbulência criativa, a biografia de Moser fala de uma Clarice deprimida, triste. Seu amor por Lucio Cardoso precisou ser platônico. Seus livros, tão importantes, recebiam críticas oscilantes. Sua vida de mulher de diplomata não a satisfazia. No livro ela diz: diplomatas não fazem amigos, diplomatas almoçam (ou algo parecido). Assim, seu casamento logo se amornou. Mesmo com o nascimento de seus filhos e as lindas paisagens suíças, italianas e depois americanas.

Já velhinho, meu pai ficava fazendo charme e costumava contar pequenas histórias engraçadas de sua convivência com alguém de muito prestígio, ou grande inteligência, ou dinheiro, ou muito nobre. Mas nunca, nunca mesmo, falou no nome de Clarice. Nem para falar mal. O que ele fazia às vezes, em família.

Eu transcrevi as 52 fitas K7 que ele deixou gravadas e foram a base para o livro autobiográfico “Minha razão de viver”, editado por Augusto Nunes. Nas fitas também inexistem referências a Clarice. Encontrei apenas uma foto de Samuel Wainer, a escritora e o marido diplomata juntos em Paris.

É muito estranho não haver nada. Deve ter ocorrido uma briga feia. Mas muito feia mesmo, da qual Samuel Wainer preferiu não lembrar. Quem sabe algo sobre a separação de Bluma. (Em algum momento Bluma, casada, se apaixonou por Rubem Braga, um dos melhores amigos de Samuel Wainer. Tiveram um caso e ela engravidou. Procurou Rubem que, também casado, “fugiu” da responsabilidade. Tempos depois Bluma teve câncer e Samuel Wainer cuidou dela até a morte.)

O livro também conta que Bluma ficou horrorizada quando Samuel Wainer se uniu a Getúlio, em 49. Eram de esquerda e a ideia de uma aliança com o velho ditador era chocante. Mas Clarice foi redatora do DIP no Estado Novo! Nada disso era suficiente para Samuel Wainer não falar sobre Clarice. Não sei de nada. Se alguém souber, me conte.

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Enquanto isso, o jornalista Vilmar Ledesma, meu amigo de Twitter, me enviou preciosidades. Vilmar garimpou volumes de Diretrizes do acervo da Biblioteca Mario de Andrade, em São Paulo, e transcreveu algumas coisas importantes (à mão, pois lá não é possível tirar xerox devido ao estado precário dos arquivos!). Coisas que devem ser inéditas para o grande público, já neste século XXI.
Os estudantes brasileiros e a literatura universal
(Diretrizes 71, 30 de outubro de 1941)

Série de reportagens com universitários, no final de outubro de 1941, opinando sobra literatura. A ilustração é de uma garota bonita, com bolsa embaixo do braço, cercada por cinco rapazes e a legenda “Futuros advogados falam sobre literatura”. Lá no final da primeira matéria vem o seguinte trecho:

Na Faculdade de Direito subimos ao primeiro pavimento do edifício da rua Moncorvo Filho. Descemos novamente e vemos chegar uma jovem a quem abordamos. Chama-se Clarice Lispector e tem traços da raça eslava. É terceiro-anista e acede prontamente em responder às perguntas do repórter. “Leio de preferência livros’, diz Clarice. ‘Quanto à literatura nacional, em minha opinião, temos ótimos escritores, capazes de rivalizar com qualquer outro de qualquer literatura. Sobre a moderna literatura nacional, conheço alguma coisa; mais talvez do que a antiga”.

Pode destacar algum vulto?
Vários, como Graciliano Ramos, que me parece o maior, Rachel de Queiroz, Augusto Frederico Schmidt, etc.

Na literatura moderna nacional existe algum escritor que em sua opinião possa se nivelar a Machado de Assis ou Euclydes da Cunha?
Não se pode tomar para comparação um Machado de Assis, tão pessoal na sua obra. Mas em intensidade literária, dentro do seu próprio gênero, há escritores atuais que podem até superá-lo. Aliás, em minha opinião, seria mais fácil superá-lo do que igualá-lo. Machado tinha muita personalidade. Como romancista, ele não é seguro, não obedece a normas; por isso me parece fácil superá-lo, mais que igualá-lo. Euclydes da Cunha não me agrada…

Qual o livro nacional ou estrangeiro que lhe tenha deixado mais impressão?
Esta é uma pergunta difícil… Porque eu sempre passo épocas em que tal ou qual livro me impressiona. Depois o esqueço e outro toma o seu lugar. Às vezes o que me agrada num livro é o “tom”, o plano em que o autor se move. E se em outro livro o autor muda o “tom”, eu perco o interesse. É um estado d’alma.

Acha que a Guerra possa influir sobre a literatura?
Pode. Talvez um certo ceticismo se apodere da literatura do após-Guerra. Também os motivos humanos ocuparão seu lugar. Mas ao certo não se pode prever.

Qual a sua opinião sobre a “coleção das moças”?
Corresponde a uma necessidade da idade. Há uma fase na vida da moça em que tal literatura é indispensável. Mas apesar de eu já ter sofrido essa necessidade, hoje tenho pena das moças que lêem exclusivamente esta literatura.

E sobre literatura infantil?
Monteiro Lobato é sozinho uma literatura neste gênero. Suas obras compõem o que há de melhor a este respeito no Brasil. Além disso, temos Marques Rebelo. Ainda não se pode, todavia, confiar em uma literatura infantil no Brasil.

E sobre a poesia?
Eu nunca procurei a poesia. Gostei sempre mais da prosa. Admiro particularmente Augusto Frederico Schmidt.

Qual o maior poeta nacional em sua opinião?
Eu diria Castro Alves porque sei que é o melhor. Mas não tenho apreciação por condoreiros. Se a pergunta se refere aos que gosto, posso falar de Augusto Frederico Schmidt, com o seu Cântico de Adolescente que muito me impressionou há anos atrás.

Quais os melhores livros da literatura universal, na sua opinião?
“Humilhados e ofendidos”, “Crime e castigo”, de Dostoievski, “Sem olhos em Gaza”, do Huxley, “Mediterrâneo”, de Panait Istrati e as obras de Anatole France em geral. Mas isto é só do que já li.

Depois a própria Clarice se encarrega de nos apresentar a um colega. Augusto Baêna, quarto anista e presidente do Centro Cândido Figueiredo da Faculdade de Direito.

(Na foto da reportagem, Clarice aparece com saia xadrez bem miudinho, blusa gola role reta de manga comprida, bolsa tipo carteira embaixo do braço e cabelos em quase coque.)
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Vilmar Ledesma encontrou também a crítica publicada na revista Diretrizes de 10/02/1944, sobre o primeiro romance de Clarice Lispector, Perto do coração selvagem. Publicado no Balanço Literário, com a recomendação “Leia, Se Quiser…”
Perto do coração selvagem – 10/2/1944
Um romance muito interessante, muito vigoroso, mas cheio de falhas que revelam a estreante, ainda não acostumada ao domínio de seus temas. Desordenado e vigoroso, este romance sobre a infância de Joana marca, sem dúvida, o aparecimento de uma romancista, que precisa apenas se disciplinar – e evitar certas seduções vulgares de que o seu livro dá provas – para realizar grandes romances. Uma experiência em grande escala – e quase inteiramente bem-sucedida.
Vilmar me disse mais…“Olha como ela fala dessa crítica numa carta de Belém pra irmã que consta no livro da Nadia Gotlib”, disse ele. “Diretrizes classificou o livro no ‘Leia se Quiser’, tratando-me com palmadinhas paternais nas costas, carões e conselhos. Chato e eu não ligo.”
Fonte: Blog da Cosac Naify – 16/1/2012