Por Eduardo  Gosson e Paulo Jorge Dumaresq
UBE: Nivaldete, para iniciar a entrevista, queremos que você se autodefina. Quem é Nivaldete?
NIVALDETE: Primeiro, obrigada a vocês pela oportunidade da entrevista. Agora, tentando responder: quem sou?… Uma hibridez de ser/ não-ser/ a ser… Aliás, acho que somos todos essa hibridez. Somos alguma coisa, não somos muita coisa e estamos em processo para ser alguma coisa mais. Ou deixar de ser. O que sou mesmo, irrevogavelmente, é isto: mãe. Sou mãe.
UBE: Agora, façamos uma volta ao passado e voltemos a Nova Palmeira, sua cidade berço. Conte-nos como foi a sua infância. Como surgiu o seu interesse pela literatura? Na sua casa havia um ambiente cultural que o influenciava ou você foi buscar o conhecimento fora de casa? Na escola, por exemplo?
NIVALDETE: Passei a infância e a adolescência em Nova Palmeira, quando aquele lugar era uma rua de mão dupla, ou duas fileiras paralelas de livros (porque cada casa é como um livro: tem suas histórias, seus personagens). No tempo das chuvas, a gente tomava banho debaixo das biqueiras, nas calçadas. Meu primeiro teatro foi o João-Redondo de Basto Doido, que periodicamente chegava por lá, um baú de bonecos ao ombro, uma roupa extravagante (calça de damasco amarelo brilhante, desses com que se fazia cortina). Vinha o circo, havia festa da padroeira – com direito à alvorada, banda entrando na rua, tocando às 5 da manhã. Mês de Maio era dedicado à N. S. da Guia. No encerramento, as meninas vestiam túnicas brancas de cetim e punham asas. Eram os anjos. Fui anjo, uma vez, lá em cima do altar. Sensação estranha… Mas esse ‘anjo’ – de asa de papelão e papel crepom franjado- também se divertia prendendo com broches de fralda as saias das senhoras, piedosamente rezando ajoelhadas. Eu fazia isso com uma amiga-cúmplice (Disa). Depois era ficar esperando que elas se levantassem… e haja “o que é isso, mulher? Tá me puxando!?”. A gente também pingava vela quente na cabeça das pessoas, lá de cima do coro, espécie de mezanino onde as cantoras entoavam o Kyrie eleison e outros cânticos. Agora, as leituras. Na minha casa não havia livros. Meus pais se dedicaram à terra, ao gado e ao comércio. Mas na casa da vizinha de minha avó havia muitos livros, deixados pelo seu irmão –Dr. Medeiros Dantas, médico hansenista (trabalhava em Recife) e padrinho de Zila Mamede. Ele tinha gosto pela literatura (nessa época, médicos e advogados liam romancistas e poetas…) e trazia livros para os sobrinhos. A velha estante ficava no ‘quarto escuro’, aquele que estava sempre fechado para evitar que mexessem nas coisas guardadas lá. Um dia, consegui entrar, abri a estante empoeirada, peguei uma velha Selecta Literária, o dourado do nome quase todo apagado na lombada. Li “E o corvo disse nunca mais” e outras coisas, mas o poema de E. A. Poe ficou gravado na minha lembrança. Naninha, a irmã de Dr. Medeiros, me emprestou a obra de Monteiro Lobato. E li também muito gibi. Isso tudo aí pelos 11,12 anos. Aos 16, 17, estava mandando buscar, pelo correio, as Edições de Ouro: Nietzsche, Pascal, Descartes, os gregos, Camões… Ainda tenho esses livros, já meio esfacelados. Como consegui a proeza? A editora mandava pelo correio livretos de divulgação, para distribuição aleatória. Eu pegava o que geralmente o sisudo gerente do correio colocava na lixeira. Ficava só esperando o gesto, pra resgatar tudo e sair correndo pra casa. Mas saber por que escolhi esses autores… Não sei mesmo. Foi assim.
UBE: Quais foram os primeiros livros que leu? Esses livros chegaram a lhe marcar de alguma forma? Influenciam até hoje?
NIVALDETE: Acho que já respondi acima. Mas vou acrescentar “Quo vadis, Domine?” e o irrecusável “O Pequeno Príncipe”. Quem me marcou pra valer foi Nietzsche (Assim falava Zaratustra).Eu lia, achava complicado, mas bonito. Entendia como quem sente, talvez a melhor maneira de entender.
UBE: Em que ano você deixou Nova Palmeira? Foi para onde depois? Comente essa mudança de vida.
NIVALDETE: Deixei Nova Palmeira, de vez, no final de 1972. Vim pra Natal, desde cedo a cidade do meu desejo, depois de receber uma resposta de Zila (prima em primeiro grau de minha mãe, ambas nascidas no mesmo mês e ano) a uma carta minha, em que lhe contava o meu anseio e a necessidade de sair de lá. Até então ela tinha ido a N. Palmeira quando eu tinha uns 10 anos. Na resposta, ela sugeria que eu procurasse Dr. Diógenes da Cunha Lima, presidente da FJA. Vim e fui me apresentar, cheia  de timidez. Não sabia o que iria dizer. Ele deve ter me achado um bicho do mato mesmo  (Zaratustra não me serviu pra nada, nesse momento, rss, e bicho do mato acho que sou até hoje…). Enfim, fui trabalhar na gráfica Manimbu. Tirei fatura, cheguei a fazer a capa de uma plaquete/discurso do Dr. Paulo Viveiros, dobrei  papel lá dentro, ajudei a aprontar livros junto com os operários, alguns sem camisa, tal era o calor (25 anos depois, sairia, por lá, “Trapézio e outros movimentos”, por iniciativa de Deífilo Gurgel). Depois da gráfica, fui pro Museu do Sobradinho; em seguida, pra Biblioteca Câmara Cascudo, espaço também para exposições de pintura e desenho. Foi um tempo bom. Em 1975 nasceu meu primeiro filho; entrei de licença e, tão encantada fiquei com a maternidade, que esqueci de voltar no tempo aprazado e fui demitida. Mas a essa altura estava fazendo o curso de Letras e era monitora. Teria mesmo que abrir mão de alguma coisa.
UBE: A literatura entrou definitivamente na sua vida em que momento? No período do ginasial? Ou do científico? Relacione os livros e autores que lhe influenciaram nessa fase da vida.
NIVALDETE: A literatura entrou na minha vida com os livros do ‘quarto escuro’, da vizinha de minha avó, como contei. Autores que me marcaram (prefiro assim): Monteiro Lobato e Nietzsche, já referido. Interessante é que, pesquisando pra minha tese de doutorado, descobri que Lobato era completamente fascinado por esse pensador, como se pode ver nas suas cartas a Godofredo Rangel, durante 45 anos.
UBE:A faculdade certamente foi o período mais rico e de maior aprendizado na sua vida. Você ingressou no terceiro grau em que ano? Optou por fazer qual curso? Como era o ambiente universitário na sua época? O seu momento de universitário coincidiu com a ditadura militar de 1964? Você participou do movimento estudantil? Chegou a se filiar a algum partido político de esquerda contrário à ditadura militar? Se sim, foi perseguida? Presa? Torturada?
NIVALDETE: Puxa, vocês estão me obrigando a ir ao porão das lembranças… rsss… Fiz o primeiro vestibular pra jornalismo, ainda na Fundação José Augusto, em 1973. No ano seguinte, ingressei no curso de Letras da UFRN, quando não havia quase nenhum mestre no departamento, mas guardo boas lembranças de Zélia Santiago, professora de Literatura Brasileira (ela, inclusive, respeitava e estimulava os meus cometimentos literários). O campus estava acabando de ser construído e se comentava que em cada turma havia um falso aluno, encarregado de dedurar professores e alunos. Alguns eram chamados a depor na ASI (Assessoria de Segurança e Informação), por qualquer fala que parecesse de esquerda (acho que até o coração teve de ser teoricamente relocado…). Quando me formei, fiz concurso e passei um ano a serviço do gabinete do reitor, pois precisavam de alguém pra fazer a redação e fui indicada. Além de redigir a correspondência do gabinete, fiquei secretariando os colegiados superiores, que tinham representação estudantil. Certa vez, um aluno, presidente do DCE, reivindicou o direito dos alunos à livre expressão, de forma veemente. O chefe da ASI ficou, então, me pressionando pra receber uma cópia da ata, e eu sempre dizendo que não tinha passado a limpo (não havia informática), inventando desculpas, mas nunca entreguei essa cópia. Não, não participei de nenhum movimento estudantil nem me filiei a nenhum partido. Estava casada, tinha um filho pequeno, fiquei circunscrita a esse mundo novo. Me lembro, porém, de ter composto uma música que dizia: “Esse paredão que separa irmãos/ Essa luz tão baça/ Que não passa das retinas… (…) Esses homens tolos/ todos hão de ter/ uma inscrição dourada como diferença/ mas haverá na tumba a mesma solidão”…
UBE: Ainda na faculdade, quem foram as pessoas mais próximas a você no mundo político e intelectual?
NIVALDETE: Nunca fui ligada ao mundo político. Em termos intelectuais, convivi muito com o escritor Eulício Farias de Lacerda, que foi meu professor. Todos os finais de semana, por um longo tempo, três famílias se encontravam –a dele, a minha e a do prof. William. Muita cerveja e muito papo. Quando me separei, esses encontros cessaram. Passei a viver em função dos meus dois filhos e do trabalho. E escrevi muita coisa que doei à lixeira.
UBE: Como se deu a passagem de estudante para professora universitária? Você fez o seu mestrado e/ou doutorado fora do Rio Grande do Norte? Se sim, onde?
NIVALDETE: Logo que terminei a faculdade fiz concurso pra prof. colaborador. Fiquei um ano na reitoria, como disse. Depois fui fazer mestrado na UFMG. Passei algumas dificuldades de ordem pessoal, atrasei a dissertação e fui jubilada. Então comecei tudo de novo aqui mesmo: mestrado e doutorado pelo programa de pós-graduação em educação-UFRN, com estágio de doutorado em Lisboa, quando fiquei dois meses aos pés do “Fermoso Tejo meu”. Trouxe dele uma pedra –pequena, claro!-, que se juntou a um quartzo, de uma terra que foi do meu pai; desde aí se gerou uma amizade ‘pétrea’ entre o Tejo e as cacimbas do sertão paraibano (rss).
UBE:Você pode traçar um paralelo entre a UFRN da sua época de discente e a de hoje (2012).
Ah, muitas diferenças. Hoje as facilidades são enormes. A instituição investe em biblioteca, informática, tecnologia de ponta, mas os alunos em geral não leem pra valer e têm dificuldade na escrita. Há os que “colam” da internet. E se percebe um certo maternalismo também: aluno pode trancar disciplina por alguns motivos; um deles, porque não gosta da metodologia do professor… E ultimamente pode se matricular em disciplina depois de já iniciado o semestre letivo. Precisa também de um professor/orientador. Na minha época havia mais autodeterminação. A biblioteca central era ainda um tanto precária, então quem queria mesmo avançar, comprava livros, dava um jeito, e não atrasava o curso, desocupava a vaga no tempo certo. Pelo menos foi o que vivenciei.
UBE:Nivaldete, em que momento a literatura potiguar a arrebatou? Você lembra do seu primeiro livro de autor potiguar?
NIVALDETE: Bem antes de vir pra cá, li um livro de poemas que meu irmão levou nas férias (ele estudava aqui). Me lembro de dois versos: “e a cidade se repete no rio”(por força das luzes) e “a terra combusta e assassinada”. O poeta era Dorian Gray Caldas. Na gráfica Manimbu havia um mostruário de livros de autores potiguares. Tinha Horto e Roseira Brava, entre outros. Quando podia, folheava. Só depois, já aqui, conheci a poesia de Zila e de outros/as poetas.
Há um marco divisor na literatura norte-rio-grandense? Quais são os pontos positivos a serem destacados na nossa literatura? Como você a define? Cite, por favor, os principais livros de autores nossos que não podem faltar na lista de alguém que está pesquisando o tema.
NIVALDETE: Marco divisor parece supor ruptura radical, algo que (quase) invalida tudo o que já foi feito, por ex., o Ulisses de Joyce como marco divisor da história do romance ocidental, como Grande Sertão o seria da história do romance brasileiro (felizmente ninguém deixou de escrever romances depois deles). Mas vejo marco divisor como uma qualidade destacada em relação a, pelo menos, um determinado aspecto das obras que vinham ou vêm sendo produzidas. Pode ser em relação ao modo de fazer, à temática e ao discurso, à capacidade de gerar leitores e estudos, entre outras. Pra não ficar devendo tudo, citaria, no primeiro caso, Jorge Fernandes, os poetas visuais/concretos, a Zila Mamede de Exercício da Palavra, Os de Macatuba (Tarcísio Gurgel)… Os demais casos –e estes primeiros também- exigem um cuidadoso levantamento, e o leitor pode ir fazendo a sua parte.
Pontos positivos da literatura no RN?… Atrever-se a escrever, ajudar a criar a alma literária do lugar é já o grande ponto positivo. E sem nenhum julgamento quanto à qualidade dessa ‘alma’, só a observação de que ela será sempre irregular, como o é em todos os lugares.
UBE: Você escreveu quantos livros? O que você destaca nesses livros?
NIVALDETE:  “Sertania” (1979), impressões poéticas de N. Palmeira, mas é de outra N. Palmeira que falo, da que ficou em mim. “Trapézio e outros movimentos” (1994): aqui eu estava ‘contaminada’ (a tendência é não se falar mais de influência, mas de contaminação) por Paul Celan e Cummings, além de ter me permitido um certo experimentalismo misturado à cata de palavras que talvez tenham envelhecido no dicionário sem terem sido usadas. Ex.: fácula, ceráunia, trápola, ábiga… Fascina-me a beleza das palavras como se elas fossem, sozinhas, um objeto estético. A palavra como som, música. “Trapézio…” não é um livro do qual se goste com facilidade (talvez nem com dificuldade). Mas poesia é pra perturbar também, pra se compreender como quem sente (a poesia de Celan tem disso). Foed Castro Chamma, crítico literário do RJ, fez uma leitura de “Trapézio” calcada na psicanálise e na semiótica, uma análise consequente, dessas que dilatam o nosso texto. O livro chegou a ele pelas mãos de Leontino Filho (CE), quando esse poeta fazia mestrado na UFRN.
Publiquei “Entre o carrossel e a lei”(teatro) em 2007. Uma provável criminosa, enquanto presta depoimento a um juiz, provoca suas memórias de infância e o faz se revelar na sua melhor humanidade, oculta pela toga. Ilza Matias de Sousa fez um estudo/prefácio também enriquecedor.
“Memórias de Bárbara Cabarrús”, romance (ou contos sobre o mesmo tema), foi publicado em 2008-Capitania das Artes. A criação da personagem foi inspirada, de alguma forma, num verbete sobre Teresa Cabarrús. Por coincidência, na semana do lançamento do meu livro, a jornalista/escritora Carmen Posadas, nascida no Uruguai e radicada em Madrid, lançava, na capital espanhola, La Cinta Roja, uma biografia de Teresa, espanhola que foi viver em Paris, no séc. XIX, conforme li em El País. Tenho recebido ótimos retornos de leitores e leitoras, daqui e de outros estados. Estudantes de Letras da UnP estão desenvolvendo monografias de final de curso sobre a personagem Bárbara, e já tive notícia de alguma leitura do livro por alunos de Letras-UFRN, por estímulo de Márcio Dantas, bom como poeta e crítico. Recebi também e-mail da escritora Ana Miranda, com boas referências ao romance. Isso tudo me anima a prosseguir –sem fazer oba-oba nem acreditar que produzi uma obra-prima, mas um livro que, pelos depoimentos daqui e de outros lugares, as pessoas, em geral, leem de um fôlego só (a jornalista/poeta Sheyla Azevedo foi a primeira pessoa a me dar esse retorno). Está praticamente esgotado e há demanda. Tem gente esperando uma reedição. Como fazer, não sei…
Publiquei ainda um livro infanto-juvenil –Psilinha Cosmo de Caramelo-, Menção Especial em concurso da UBE-RJ, em 1997. Diva Cunha me cobra sempre uma reedição dele, caprichada. Publiquei também O Clubinho da Água, paradidático, voltado para o meio ambiente.
UBE:Em sua opinião, quem são os grandes nomes da literatura potiguar? Atualmente algum jovem poeta, romancista ou dramaturgo lhe desperta interesse? O que podemos esperar da literatura potiguar nesta década?
NIVALDETE: Não quero cometer  erro pelo esquecimento, e desconfio da adjetivação “grande”, pois tende a absolutizar e isso requer um parâmetro, como no caso do “marco divisor”. Prefiro dizer que todos são grandes em algum ou alguns aspectos.  Em todos, é difícil.
Sobre a segunda parte da pergunta, li alguns poemas de “Por cada uma”, editado por Marize Castro. Gostei da amostra. Ainda vou adquirir, pra poder ler tudo. Romancista recente?… Pablo Capistrano. Na dramaturgia, Cláudia Magalhães.
O que podemos esperar da literatura potiguar nesta década? Que seja boa. E por certo será tão potiguar quanto brasileira e universal, pois quando se fala de seres humanos (ou quando o ser humano fala de si mesmo) é da humanidade que se fala, e esta é mais ou menos a mesma em todos os lugares. A diferença está no “como” se fala.
UBE: De que modo você define a poetisa Nivaldete? Você recomenda a leitura de  Trapézio e outros movimentos? Mudaria algo na obra?
NIVALDETE: Eu me defino como alguém que enxerga poesia até nos descascados das paredes e no cabelinho lilás que os jambeiros soltam nas calçadas. Percebo isso como um perfeito  hai-cai da natureza. Acho que a poesia está cosmicamente dada, mesmo. Mas precisamos, queremos codificar nossas percepções mais sutis em palavras. Daí que escrevemos… Sobre “Trapézio…”, só recomendo a quem tem abertura para o descondicionamento, melhor para quem leu Cummings, por ex., e Celan. Não mudaria nada (a não ser os erros tipográficos…), até escreveria mais daquela forma. Esse livro -tenho consciência- não cabe no gosto literário vigente. Produz estranhamento, algo estimado em outros campos da produção estética.
UBE:Você concorda com o Plínio Marcos de que o intelectual brasileiro é um marginal de classe média querendo ganhar status por meio da cultura?
NIVALDETE: Acho que a internet redesenhou a figura do intelectual. Eles se multiplicaram, perderam um tanto a aura. E houve o crescimento dos cursos de pós-graduação, que geram pesquisadores especialistas nos mais diversos campos do conhecimento. Os próprios cursos de jornalismo estão oferecendo habilitação em jornalismo cultural. Assim, penso que a afirmação de Plínio não se encaixa nestes novos tempos.
UBE: Sabemos que você não tem bola de cristal, mas faça um exercício de futurologia e nos diga para onde vai a literatura no Século XXI. Quais os caminhos que a literatura pode ou deve seguir?
NIVALDETE: Já falaram do fim da arte, da literatura (até da história), mas tenho certeza de que se continuará a fazer literatura e arte em geral. A literatura do século XXI, acho, pode se voltar para a história como pode ir para as insuficiências do presente (supondo que a história -recente ou não- seja uma suficiência). Pode refletir o inumano da tecnologia, que dispersa ou enfraquece o social; pode falar do esvaziamento moral/espiritual; da falta de “rosto”, e gritar pelo ser humano, pra que ele não desista. Seja como for, a literatura será sempre obra do desassossego… Não sei… Talvez eu não seja uma boa vidente, mas o que pressinto mesmo é que não haverá uma literatura ‘experimental’: não interessa ao mercado, pois este vive da moeda, de preferência do que “bomba”.
UBE: A tecnologia e as novas mídias a assustam enquanto escritora? Você acha interessante a ideia do e-book? Você leria um livro na tela do computador ou num tablet?
NIVALDETE: Não me assustam, não. São mais uma ferramenta de leitura, mas só leria um livro na tela do computador se não houvesse outro jeito. A mão que segura um livro sabe a diferença. O livro físico permite uma experiência sensorial bem mais rica. O som da página virando, o peso, o cheiro (quando o livro é novo)… O corpo não pode ser esquecido.
UBE: Sua coleção particular de livros está em quantos volumes? O que podemos encontrar nas suas estantes?
NIVALDETE: Não tenho muitos livros, talvez não cheguem a 400. Há livros de poemas, romances e obras teóricas, pois ainda dou aulas. Alguma coisa ligada à física quântica e espiritualidade, também. Quando me aposentar, farei como Nietzsche: uns 40 bons livros me bastarão.
UBE: Qualquer coisa que não seja literatura a aborrece?
NIVALDETE: Não, não. Sou uma curiosa da física quântica, da sabedoria oriental e gosto de ouvir e ler anedotas. Aliás, tenho o maior apreço pelos criadores de piadas e anedotas. Acho genial a lógica do absurdo que conseguem criar. Ou simplesmente quando fazem rir. E ninguém faz questão de autoria, o que é uma grande generosidade.
UBE:Quais são as cores e os sons da sua literatura?
NIVALDETE: Cores: o avermelhado da terra, o branco de cada começo, o escuro do que não entendo. Sons: o sopro do vento da vontade de escrever; o contrassopro da dificuldade; o silêncio da espera.
UBE: Nivaldete, a sua história de vida tem alguma moral? Se sim, que moral é essa?
NIVALDETE: Talvez: coragem, palavra que vem de “cor, cordis”, a mesma raiz de “coração” e “cordial”. É preciso ter coragem pra ficar em pé no mundo… E se levantar quando cair.
UBE: Para encerrar, a literatura tem…
NIVALDETE: Que refletir a miséria e a riqueza do ser humano, que é basicamente o mesmo em todos os lugares, só mudam a língua e os costumes.