Março de 2012
Por Eduardo Gosson e Paulo Jorge Dumaresq

- Onofre, para iniciar a entrevista, queremos que você se autodefina. Quem é Onofre?
- Sou, antes de tudo, um sertanejo da Serra do Martins…
- Agora, façamos uma volta ao passado e voltemos à Serra do Martins, sua terra adotiva. Conte-nos como foi a sua infância. Como surgiu o seu interesse pela literatura? Na sua casa havia um ambiente cultural que o influenciava ou você foi buscar o conhecimento fora de casa? Na escola, por exemplo?
- Nasci em Santana do Matos, mas me criei em Martins, aonde cheguei com os meus pais – martinenses – quando tinha pouco mais de um ano de idade. De lá saí aos onze, para cursar a primeira série ginasial no Colégio Marista de Natal.
Naquele tempo, Martins era um lugar, verdadeiramente, paradisíaco. No alto da serra a 745 metros acima do nível do mar, clima excelente, era cidade e era campo: os quintais das casas prolongavam-se em sítios cheios de fruteiras, indo, não raro, até as quebradas da serra, de onde se avistavam panoramas belíssimos. Uma gente simples e provinciana, a bem dizer, uma família de famílias formava aquela comunidade típica do interior. Eu tive o privilégio de viver nesse meio rurbano (para usar esta expressão de Gilberto Freyre). Recordo o dia-a-dia despreocupado do menino: pela manhã, aulas no Grupo Escolar “Almino Afonso”; à tarde – feitos os deveres escolares – um giro de bicicleta pelos sítios; à noite, passeios na praça da matriz, conversa com os amigos, ouvindo os sucessos musicais irradiados pela amplificadora – Orlando Silva, Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Luiz Gonzaga, tudo de primeira, não havia axé music nem forró brega. Cinema ?  Nem em sonho.
Meu pai, então Promotor Público, tinha em casa uma pequena biblioteca, onde predominavam livros jurídicos; literatura eu fui encontrar numa grande arca no quarto de despejo: “As Mãos do meu Filho”, contos de Érico Veríssimo, “A Velhice do Padre Eterno”, de Guerra Junqueiro, novelas policiais e uma coleção da revista “Seleções do Reader’s Digest”, entre outros livros. Mas, antes eu já me iniciara na leitura de livros infanto-juvenis “Pequena História do Mundo”, de Monteiro Lobato, “Ali Babá e os Quarenta Ladrões”, etc.
Na escola não encontrei nenhuma motivação  para a leitura de obras literárias.
- Esses primeiros livros chegaram a lhe marcar de alguma forma? Influenciam até hoje?
- Influência de verdade só em Natal, quando já adolescente, descobri a biblioteca do Atheneu, onde eu cursava o Clássico. Causaram-me forte impressão os romances do Regionalismo Nordestino de 30, obras de José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, que eu levava para ler em casa, deliciado. Outras leituras marcantes: “Os Sertões”, de Euclides da Cunha; “Crime e Castigo”, de Dostoievski; “Judas, o Obscuro”, de Thomas Hardy; “As Aventuras do Sr. Pickwick”, de Charles Dickens, “Os Maias”, de Eça de Queiroz; “Dom Casmurro” e contos de Machado de Assis, além de vários livros de Câmara Cascudo sobre aspectos da cultura popular brasileira.
- Em que ano você deixou Martins? Foi para onde depois? Comente essa mudança de vida.
- Deixei Martins para estudar: um ano (1955) em Natal, depois, três anos (1956-58) em Mossoró, aluno do Colégio Diocesano “Santa Luzia”; retorno a Natal (1959), onde tenho vivido desde então. Mas, enquanto estudante, eu sempre passava as férias em Martins, boa parte destas na fazenda do meu pai, em pleno sertão, onde vivenciei, profundamente, o meio rural.
Meu primeiro encontro com Natal foi um alumbramento, mas, só depois me tornei íntimo da cidade, frequentador assíduo do Grande Ponto, envolvido pela  politica estudantil e dando os primeiros passos no jornalismo.
- A faculdade certamente foi o período mais rico e de maior aprendizado na sua vida. Você ingressou no terceiro grau em que ano ? Optou por fazer qual curso? Como era o ambiente universitário na sua época? O seu momento de universitário coincidiu com a ditadura militar de 1964? Você participou do movimento estudantil? Chegou a se filiar a algum partido político de esquerda contrário à ditadura  militar? Se sim, foi perseguido? Preso? Torturado?
- Fiz vestibular em 1963, tendo sido aprovado em 10º lugar, o que, aliás, não significava grande vantagem, pois a concorrência era pequena. Optei pelo curso de Direito, seguindo o exemplo do meu pai, que foi advogado, promotor e juiz, e do meu avô João Vicente, juiz e desembargador.
O movimento universitário do meu tempo dividia-se em duas alas: direita e esquerda. Eu rejeitava o ideário da direita, mas desconfiava da esquerda festiva. No entanto, fundei, juntamente com os colegas Deífilo Gurgel, Jarbas Martins e Ney Lopes, a revista “Presença”, em que escrevi artigos defendendo as reformas de base; fui diretor de outra revista estudantil, “Rumos”, órgão do Diretório Acadêmico “Amaro Cavalcanti”. Como professor do Colégio “Winston Churchill” fiz um artigo, publicado no jornal mural da escola, solidarizando-me com os estudantes em greve. Título do artigo: “É Proibido Proibir” (alusão a uma composição de Caetano Veloso). O diretor da escola era um militar, membro da CGI. Fui demitido. Mais tarde, quando me submeti ao concurso para Juiz de Direito, voltei a sofrer patadas da repressão: acusado de subversivo, não fui logo nomeado.
Em tempo: nunca me filiei a nenhum partido político.
- Ainda na faculdade, quem foram as pessoas mais próximas a você no mundo político e intelectual?
- Além dos colegas já mencionados, outros como Eudes Galvão, Glênio de Andrade e Pedro Simões, e os professores Edgar Barbosa e Câmara Cascudo, que nos davam lições não somente de Direito, mas também de humanismo, de literatura, de vida…
- Como se deu a passagem de estudante para professor e depois para magistrado?
- Ainda estudante universitário, fui professor de História do Brasil no ensino médio, cerca de cinco anos, e pouco depois de formado, lecionei a mesma matéria na Faculdade de Sociologia e Política de Natal, poucos meses. Abro aqui um parêntese para dizer que fui demitido desta escola, sem que até hoje saiba por qual motivo. Vivia-se os anos de chumbo, e eu, em sala de aula, recomendava aos meus alunos, por escrito, a leitura de Caio Prado Jr., notório esquerdista, entre outros autores. Terá sido por isto que o reacionário diretor me deu o bilhete azul?
Nomeado Juiz de Direito, fui servir no interior, perdi o interesse pela carreira no magistério.
- Onofre, você demonstrou não ter tesão pelo Direito. Demorou pouco tempo no cargo de desembargador. Por quê?
- O ideal de justiça sempre me fascinou. Como magistrado ao longo de três décadas, eu me sentia intimamente gratificado, na constante busca de realizar esse ideal. Mas, confesso que a burocracia e os formalismos do mundo jurídico, especialmente os de natureza processual, muito me desestimulavam.
Devo dizer também que, no meu tempo, o Judiciário era mal aparelhado; muitas comarcas nem sequer tinham fórum. Quantas vezes despachei e realizei audiências em cartórios que não passavam de pequenas salas, em uns quase casebres de telha-vã. Eu mesmo datilografava minhas sentenças, em casa, com material de expediente comprado por mim.
No Tribunal, o desembargador não dispunha de gabinete, nem lugar nenhum para trabalhar, exceto, é claro, o plenário e as duas câmaras. Tudo era muito precário. Daí o meu desencanto.
Hoje, as coisas melhoraram – ouço dizer. A Constituição de 1988 veio fortalecer o Judiciário e propiciar melhores condições para o exercício da judicatura.
- Onofre, você vê alguma relação entre Direito e Literatura?
- A resposta circunstanciada a esta pergunta daria uma tese. No momento ocorre-me dizer que a ciência do Direito e a Literatura, arte da palavra, inserem-se na órbita do humanismo, e têm vários pontos de afinidade.
Alguns tratadistas entendem ser o Direito, também, uma arte.
Como se sabe, é grande a presença de bacharéis na formação da nossa Literatura. Num verbete da Enciclopédia de Literatura Brasileira, de Afrânio Coutinho e J. Galante de Souza, sob o título “Literatura e Pensamento Jurídico”, o escritor e jurista Afonso Arinos de Melo Franco cita-os e acrescenta:
“Assim, poderíamos enumerar ainda uma série de contemporâneos cuja obra jurídica não se dissocia da literatura. Alguns são melhores juristas que escritores; outros, o contrário. Mas a tradição brasileira, que fez nascer a literatura e o pensamento jurídico como irmãos gêmeos, não se destruiu.”
- Onofre, em que momento a literatura potiguar o arrebatou? Você lembra do seu primeiro livro de autor potiguar?
- Quando ingressei na magistratura, fui deixando de lado a ficção e passei a efetuar pesquisas, com mais frequência, nas áreas da jurisprudência e da doutrina jurídica, para fundamentar minhas sentenças; isto de certa forma me condicionou, levou-me a pesquisar também outros campos, como a História e a Literatura do Rio Grande do Norte. Daí resultou o livro “Estudos Norte-rio-grandenses”, com o qual ganhei o Prêmio “Câmara Cascudo” (1975).
Não lembro do primeiro livro de autor potiguar que eu li.
- Há um marco divisor na literatura norte-rio-grandense? Quais são os pontos positivos a serem destacados na nossa literatura? Como você a define? Cite, por favor, os principais livros de autores nossos que não podem faltar na lista de alguém que está pesquisando o tema.
- Não há um marco divisor na literatura norte-rio-grandense, mas, sim, momentos decisivos, como, por exemplo: o Modernismo, introduzido por Jorge Fernandes e Câmara Cascudo; a fundação da Academia Norte-rio-grandense de Letras; a publicação da Coleção “Jorge Fernandes” com diversos livros de poemas; o Concretismo e o Poema-Processo; o boom do conto, antecedido da antologia “Contistas Norte-rio-grandenses”, de Nei Leandro de Castro; o incremento do setor editorial (FJA, Editora Clima, EDUFRN, Nossa Editora, Sebo Vermelho Edições, Editora Queima-Bucha, Una, Sarau das Letras, Nave da Palavra etc.) e o ressurgimento da UBE/RN.
Que é um autor potiguar? Seria simplesmente todo aquele que tivesse nascido no Rio Grande do Norte? Não. Potiguar é o escritor que, havendo ou não nascido neste Estado, tem a terra nossa entranhada em sua obra; é o que aqui morou bastante tempo ou mora, e aqui construiu ou vem construindo sua obra. (Estas considerações constam do meu livro “Ficcionistas Potiguares-Biografia e Crítica” – 2ª. ed. rev. e aum. Natal: ed. Do autor, 2010).
Para alguém que deseje iniciar-se no estudo das nossas letras, é indispensável consultar as seguintes obras: “Informação da Literatura Potiguar” e “Belle Époque na Esquina”, de Tarcísio Gurgel; “Alma Patrícia”, “Vida Breve de Auta de Souza” e “Nosso Amigo Castriciano”, de Câmara Cascudo; “Leitura de Jorge Fernandes”, de Francisco das Chagas Pereira; “Modernismo Anos 20 no Rio Grande do Norte”, “Asas de Sófia” e “O Lirismo nos Quintais Pobres”, de  Humberto Hermenegildo de Araújo; “Dois Poetas do Nordeste” e “Patronos e Acadêmicos”, de Veríssimo de Melo; “A Poesia e o Poema do Rio Grande do Norte”, de Moacy Cirne; “Por Uma Vanguarda Nordestina”, de Anchieta Fernandes; “Viagem ao Universo de Câmara Cascudo”, de Américo de Oliveira Costa; “Retrato de Ferreira Itajubá”, de José Bezerra Gomes; “A Arte Poética de Myriam Coeli”, de José Jácome Barreto; “Deífilo Gurgel”, de Francisco Fernandes Marinho; “Academia Norte-rio-grandense de Letras – Ontem, Hoje e Sempre”, de José Soares Júnior; “Contistas Potiguares”, “Salvados” e “Ficcionistas Potiguares”, de minha autoria; e várias antologias.
- Você escreveu quantos livros? O que você destaca nesses livros?
- No livro “Manoel Onofre Jr. – 40 Anos de Vida Literária”, o professor e escritor Francisco Fernandes Marinho registrou 22 livros e 3 opúsculos até 2004. Acrescentam-se três livros publicados depois.
São da minha preferência os seguintes: “Chão dos Simples”, “O Caçador de Jandaíras”, “Ficcionistas Potiguares” e “Portão de Embarque 2 – Portugal”.
- Em sua opinião, quem são os grandes nomes da literatura potiguar? Atualmente algum jovem poeta, romancista ou dramaturgo lhe desperta interesse? O que podemos esperar da literatura potiguar nesta década?
- Em primeiro lugar, Câmara Cascudo, porque, embora sendo, antes de tudo, etnógrafo e folclorista, ele escrevia muito bem, e incursionou brilhantemente pela literatura em obras como “Canto do Muro” e “Prelúdio e Fuga do Real”. Grande é a sua influência. É o único com projeção nacional e além fronteiras. Outros nomes importantes: Henrique Castriciano, Auta de Souza, Ferreira Itajubá, Jorge Fernandes, Zila Mamede, Homero Homem, Othoniel Meneses, Newton Navarro, Luís Carlos Guimarães, Eulício Farias de Lacerda e Bartolomeu Correia de Melo, todos já falecidos.
Os vivos são tantos, que eu não me atrevo a citá-los de memória, pois terminaria por omitir alguns.
Quanto às perspectivas para a literatura potiguar, nesta década, acho que são boas. A safra de jovens escritores é promissora.
- De que modo você define a sua ensaística? Você recomenda a leitura de qual(ais) livro(s)  seu(s)?
- Apenas dois dos meus livros podem ser classificados como de ensaios: “Ficcionistas Potiguares” e “Martins – a Cidade e a Serra”. Nos demais incursionei por diversos gêneros: conto, crônica, memorialística, notas de viagem, diário íntimo, epistolografia…
Só não recomendo a leitura dos quatro primeiros, por serem obras imaturas, e de outros – “Literatura & Província”, “Recordações do Paraíso” – cujos conteúdos aproveitei, parcialmente, em obras posteriores.
- Onofre, você começou sua carreira de escritor pelo conto. Depois… mudou. Por quê?
- Talvez porque as minhas atividades como magistrado priorizavam a pesquisa e a prosa extra ficção. É possível, também, que o linguajar forense, que eu era obrigado a usar, tenha algo a ver com isso.
- Você concorda com o Plínio Marcos que o intelectual brasileiro é um marginal de classe média querendo ganhar status por meio da cultura?
- O verdadeiro intelectual não produz para ganhar status, mas, sim, para atender ao forte apelo da sua própria vocação. A literatura está no seu sangue, ele escreve porque não pode deixar de escrever.
- Sabemos que você não tem bola de cristal, mas faça um exercício de futurologia e nos diga para onde vai a literatura no século XXI. Quais os caminhos que a literatura pode ou deve seguir?
- No século passado, depois de Proust e Joyce, disseram: “O Romance morreu”. E o romance continua mais vivo do que nunca. Já os concretistas e os adeptos do poema-processo decretaram o fim da poesia versificada, e eles mesmos, em grande parte, vieram, tempos depois, abraça-la.
A Literatura vai de vento em popa – perdoem-me a expressão – porque há milhões de pessoas, pelo mundo afora, que não podem viver sem ela, e o número destas pessoas só tende a aumentar.
- A tecnologia e as novas mídias o assustam enquanto escritor? Você acha interessante a ideia do e-book? Você leria um livro na tela do computador ou num tablete ?
- As novas mídias, como você diz, não me assustam de modo algum. Mas… ainda não troquei a minha máquina de escrever pelo computador.
Acho que o e-book, aperfeiçoado, terá grande aceitação, mas não acabará com o livro, assim como o cinema não acabou com o teatro, por exemplo.
Tenho o hábito de ler deitado em uma rede; assim ficaria difícil utilizar o computador para leitura.
- Sua coleção particular de livros está em quantos volumes? O que podemos encontrar nas suas estantes?
- Cerca de três mil volumes, na maior parte obras de ficção, memórias, crônicas, biografias e ensaios sobre História do Brasil e do Rio Grande do Norte, literatura e música popular brasileira.
- Qualquer coisa que não seja literatura o aborrece?
- Que nada! Gosto muito de cinema, de música…
- Quais são as cores e os sons da sua literatura?
- Parece-me que a pergunta se refere aos contos e crônicas. Sendo assim, a resposta é: azul e verde, nunca cinza. Quanto aos sons, deixo-os ao encargo de algum poeta.
- Onofre, a sua história de vida tem alguma moral? Se sim, que moral é essa?
- Não tenho perspectiva para chegar a uma conclusão neste sentido.
- Para encerrar, a literatura tem alguma utilidade?
- Quando se trata de obras técnicas, a literatura, que é neste caso, especializada, tem utilidade, claro. Mas, enquanto arte da palavra, a literatura dá prazer e eleva o espírito.
Perdoem-me a definição simplista.