Por Marcos Silva

 

DAILOR VARELA (1945/2012)

(São José dos Campos, SP, 15 de fevereiro de 1998).

MARCOS SILVA – Dailor, eu sei que você nasceu em Anápolis, GO. Como é que você foi parar em Natal, onde boa parte de seu trabalho poético e jornalístico foi feito?

DAILOR VARELA – As minhas raízes, realmente, são todas potiguares. Eu costumo falar que eu nasci em Anápolis por um acaso, n’é? É, meu pai trabalhava no IBGE e foi transferido p’ra Goiás, e nesse tempo que ele passou trabalhando no IBGE, em Anápolis, eu nasci lá e, em seguida, a família retornou a suas origens potiguares. Mas minhas raízes e afetos são todos potyguares mesmo. Estou mais p’ra Redinha do que p’r’o Planalto Central. Então, realmente, eu não tenho nenhuma referência goiana nem de Anápolis, que eu nem conheço e nem desejo conhecer. Realmente, eu sou um potiguar por tradição e por raízes familiares.

MS – Você foi para Natal com que idade?

DV – Eu voltei p’ra Natal com 3 anos de idade, após uma viagem de navio meio felliniana (segundo ouvi da família).

MS – Você morava em qual bairro da cidade? Quais lembranças você tem de Natal, dessa época?

DV – As minhas lembranças de infância de Natal são muito dispersas, assim, mas a gente morou em Natal, geralmente, no centro, não é? Rua Felipe Camarão e adjacências. Minha mãe tinha, tinha uma pensão, não é? Vinha muita gente da, era da Aeronáutica, que frequentava essa pensão. Minha infância em Natal, não me lembro com muita nitidez. Freud explica. Eu tive uma infância assim muito, como eu sou caçula, não é?, tinha uma distância muito grande dos meus outros irmãos, eu sempre fui muito sozinho. Então, brincava muito sozinho na casa, tinha um quintal, são lembranças muito poucas, assim. Com certeza devo ter sido um menino tímido e só.

MS – E você estudou onde?

DV – Ah, fiz o Primário com uma Professora que foi muito famosa na época, chamada Dona Mosinha, e estudei no Atheneu, no Colégio Marista, no Ginásio Municipal. No Colégio Marista, aprendi a ser anarquista. Confesso que sempre fui um péssimo aluno, um traço que me acompanha até hoje. Não sou um estudioso, um pesquisador. Sou um poeta, livre atirador, um pensador. Um geminiano caótico, “tímido e espalhafatoso” como diz o Caetano. Admiro muito, tenho profundo respeito e carinho, pelos pesquisadores compenetrados, pelos cientistas em geral. Mas eu não tenho este método que, por exemplo, você tem. Posso hoje ler O ser e o nada de Sartre e no dia seguinte me dá vontade de ler uma biografia de Elvis Presley.

MS – Quando eu o conheci (1967), você já era um jornalista da Tribuna do Norte, um poeta bastante conceituado, falavam muito de um poema seu sobre uma mulher peneirando farinha. Esse poema nunca foi publicado?

DV – Não, realmente, os meus primeiros poemas se perderam aí, pelo tempo e pelo espaço aí, onde eles saíram, na Tribuna do Norte, que é onde eu trabalhava mas realmente, a maioria se perdeu por aí ou eu dei também sumiço, porque, realmente, era uma produção muito ruim, não é?

MS – E como era essa sua produção inicial, como você chegou a ela, houve contatos na escola?

DV – Essa produção é produção inicial de todo mundo. É uma produção bem escolar e bem primária, não é? Acho que o poeta que primeiro me influenciou foi o Castro Alves.

MS – Você ouvia Castro Alves na escola?

DV – Não só na escola, como também a minha mãe me deu de presente as Obras Completas do Castro Alves, acho que foi o meu primeiro contato com a poesia. Aliás, décadas depois, eu estava ouvindo o Caetano, que gravou “O Navio Negreiro”, achei a gravação dele fantástica, assim, uma releitura do “O Navio Negreiro”, com todo aquele batuque, e me lembrei muito dessa fase, dessa leitura de Castro Alves, que minha mãe me deu de presente. A poesia surgiu na minha vida como uma necessidade urgente de mostrar que eu estava vivo. Arrabal, quando esteve no Brasil, disse numa entrevista que ele escreve para não se matar. Aconteceu e acontece comigo. Meus primeiros versos, que certamente eram patéticos e impublicáveis, tinham essa forte influência de Castro Alves.

MS – Além de Castro Alves, você lembra de outras leituras em verso e prosa nesse período de infância e adolescência?

DV – Eu acho que, em termos de poesia, Castro Alves foi, assim, a primeira lembrança. Prosa, eu não lia muito. Agora, depois, na adolescência, aí, sim. Aí, são aqueles poetas que todo mundo leu na minha geração, Bandeira, Drummond, principalmente Bandeira e Drummond e, em seguida, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, acho que são Autores assim que eu lembro. Outra paixão permanente é Maiakóvski.

MS – Eu percebo nessa geração – talvez uma geração um pouco mais velha que você, de meados da década de ‘60 – um contato muito estreito com a poesia de João Cabral de Mello Neto. Você também sentia essa proximidade?

DV – Ah, sim! João, mas João Cabral, acho que veio na minha adolescência. Aí, sim, foi uma influência muito grande, acho que foi o poeta da minha adolescência que mais me influenciou mesmo e que eu até nunca, eu nunca larguei João Cabral, eu sou realmente apaixonado pela poesia de João Cabral e até hoje, eu acho um grande poeta da língua portuguesa, ele está sempre na minha cabeceira e realmente, todo um período da minha adolescência foi assim mais, bastante marcante, não é?, eu era realmente um sub – mas põe sub nisso – do sub-João Cabral de Mello Neto. Tinha uns poemas que, chega, tinham umas imagens assim quase plágio de João Cabral e eu, e eu até destruí essa produção, não é? Até o Luís Carlos Guimarães, numa época, comentou que lamentavelmente, eu destruí essa fase de minha poesia onde, segundo ele, havia coisas muito boas, tinhas coisas cabralinas muito boas.

MS – Dailor, e como é que você começou a entrar em contato com o círculo de poetas, intelectuais, literatos e também jornalistas de Natal?

DV – Eu estava nessa, nessa fase bem cabralina, não é? E tinha um suplemento na Tribuna do Norte, não é? Escrevia para a Tribuna do Norte quando, acho que isso aconteceu assim naturalmente, o encontro com toda essa geração que você conhece, o Cinema de Arte, acho que o Cinema de Arte foi, era o ponto de convergência, o ponto de encontro dessa geração. Foi aí que eu tomei, comecei a participar, n’é?, mais de um grupo de intelectuais, quer dizer, da minha geração e da geração pouco anterior, como o Berilo Wanderley, o Nei Leandro de Castro, o Sanderson, o Luís Carlos Guimarães, que, nessa época, como você sabe, havia em Natal assim o Grande Ponto, não é? E pontos mesmo de encontro como a frente da Livraria Universitária, às 5:30 da tarde, não é? E outro ponto também, o Bar Palhoça, que eu acho que o Bar Palhoça tem que entrar na História da Poesia de Vanguarda, realmente, aconteceram grandes encontros lá, entre a gente e o Moacy Cirne. Hoje, a cidade virou um grande shopping center. Havia o Beco da Lama, a porta da Livraria Universitária, papos culturais nos bares da praia, no casa do filósofo socrático Sanderson Negreiros. Foi uma adesão natural à poesia de vanguarda. Porque eu já andava cansado dos meus versos cabralinos e queria novo rumo p’ra minha poesia. O Poema/Processo foi este rumo radical. Um salto. Me permitiu também experimentar o visual, uma linguagem pela qual eu sempre tive o maior tesão. Moacy Cirne sempre foi neste meu salto o grande guru, o incentivador, a cabeça feita.

MS – No início de seu trabalho com poesia, você chegou a pegar o período da política cultural do Djalma Maranhão, que é da primeira metade da década de ‘60?

DV – Ah, simnão só peguei, como participei ativamente, não é? É. Eu participava da Praça Cultural, que era um projeto do Djalma Maranhão, junto com o Paulo de Tarso, que é diretamente, nós dois é que praticamente fazíamos formação, não é?

MS – E que tipo de atividade você desenvolvia nessa Praça da Cultura?

DV – Essa Praça da Cultura tinha uma biblioteca, uma biblioteca bastante variada e eclética, que foi apreendida pelas autoridades constituídas em ‘64, tinha exibição de filme de arte, tinha uma programação cultural mesmo, tinha, tinha uma programação musical tipo alto-falante, não é? Desde música, sabe? Não é? Eu me lembro bem que se colocava muito p’ra rodar, nessa programação musical, o João Gilberto, principalmente, o lp O Amor, o sorriso e a flor, que acho que também foi apreendido sob…

MS – …acusação de subversão?

DV – É.

MS – Então, a Praça da Cultura se relacionava com aquelas atividades na Galeria de Arte – as atividades iniciais, claro -, na Concha Acústica, etc.?

DV – É, isso, eu participei bastante. Aliás, foi o meu primeiro emprego, emprego assim, foi lá na Secretaria da Cultura, que a Mailde Pinto chefiava. Então, o golpe militar de ‘64 foi, p’ra mim, uma coisa muito, muito triste, não é? Porque me cortou, assim, todo aquele trabalho, não é?, que eu fazia com o maior prazer, com a maior garra.

MS – Você chegou a ser convocado pelas autoridades para interrogatório?

DV – Não, cheguei só a fazer uma visita não muito cordial na Base Aérea, na época, p’ra me explicar a respeito dessas atividades todas, mas nunca cheguei a ser, nunca passou disso não, diante, principalmente, de tudo que aconteceu, não é?

MS – Você ficou um pouco mais na Secretaria de Cultura, depois que Mailde Pinto foi presa?

DV – Não, não, assim que houve o golpe militar, isso foi totalmente derrubado, acabado.

MS – E aí, você passou a trabalhar com alguma outra coisa?

DV – Não, e aí, eu continuei na Imprensa, não é?, na Tribuna do Norte.

MS – Você já era contratado regularmente na Tribuna do Norte?

DV – Ah, sim, já era, já era repórter lá. Na Tribuna do Norte, como em qualquer jornal da época, não é?, eu fiz de tudo, não é? Inclusive, tem uma passagem muito interessante, que eu fui repórter policial, existia uma seção na época, se valorizava muito a crônica, não é? Newton Navarro fazia crônicas muito bonitas, o Sanderson, o Berilo, nessa época, na Tribuna do Norte, e o Sanderson Negreiros inventou o “Romance Policial da Cidade”. “Romance Policial da Cidade”, não é? Era pegar os Boletins de Ocorrência, não é?, na cidade, e romancear aquilo, não é?, fazer uma, uma crônica em cima. Isso eu fiz durante muito tempo. Eu ia na Delegacia da Ribeira e pegava aqueles, isso bem cedo, de manhã bem cedo, e pegava aqueles marginais e ouvia as, tem histórias, assim fantásticas. Tinha um marginal, que tinha uma rosa tatuada no braço e eu perguntei por quê, e ele falou que fez aquilo porque assistiu ao filme A Rosa Tatuada, e aí achou bonito e tatuou uma rosa. Então, tinha histórias fantásticas e esse “Romance Policial da Cidade” durou um bom tempo.

MS – Como é que você, através dessas atividades (Secretaria Municipal da Cultura e Imprensa), começou a entrar em contato com a produção de vanguarda que se estruturou em meados da década de ‘60 em Natal? Você mencionou antes o Bar Palhoça, em relação a Moacy Cirne.

DV – É, eu acho que o primeiro contato foi com o Moacy Cirne, foi assim o guru da vanguarda em Natal, a gente teve um grande contato em Natal e, em seguida, ele foi para o Rio, não é? E do Rio, ele sempre nos alimentava com tudo, com toda a produção de vanguarda, e livros de teoria e prática da vanguarda e eu acho que o embrião da minha participação no Poema/Processo começou aí.

MS – Você tinha indicado, antes, a grande influência de João Cabral de Mello Neto sobre seu trabalho, já no início da maturidade. Isso contribuiu para sua aproximação, por exemplo, da Poesia Concreta, no momento inicial da vanguarda em Natal?

DV – Não, não, eu acho que não, eu não senti esse elo assim, digamos, de passar de João Cabral para a Poesia Concreta, não.

MS – Perguntei isso porque os concretistas sempre valorizaram muito João Cabral…

DV – É, não, mas eu acho que comigo, sabe?, no meu caso, não houve um salto de João Cabral para, para que o João Cabral tenha sido assim uma badalação.

MS – E como foi, então, a experiência inicial da Poesia Concreta, para você?

DV – Eu cheguei à conclusão de que o que me levou à vanguarda, não é?, à Poesia Concreta inicialmente? Eu cheguei à conclusão de que a minha produção poética estava muito, quer dizer, cabralina demais, não é?, e que eu precisava realmente, é, uma identificação mais pessoal, um trabalho mais pessoal. Foi aí que eu, que eu vi que a Poesia Concreta seria esse caminho, não é? E parti p’r’o enxugamento, não é?, da palavra, não é?, e procurar uma poesia mais visual, não é? E aí, foi quando surgiram as primeiras experiências com Poesia Concreta.

MS – Lembro que, na etapa inicial da Poesia Concreta em Natal, havia um peso teórico muito grande, manifestos muito densos. Vocês faziam trabalhos de leitura, conjunta ou individualmente, dos textos que lhes serviam de referência (Max Bense, Roland Barthes, Umberto Eco)?

DV – Ah, sim, todos esses, todos esses manifestos eram sempre motivados, não é?, por uma reunião de grupo, uma discussão, mas que Moacy Cirne sempre foi, acho, o grande teórico, realmente, acho que o peso maior desses manifestos caía sobre Moacy Cirne.

MS – Tenho lembranças também de que, no momento inicial da Poesia Concreta, havia uma presença de alguns nomes da geração imediatamente anterior à sua – penso em Sanderson Negreiros, no próprio Luís Carlos Guimarães e em Nei Leandro de Castro -, embora sem grande diferença de idades, eles tinham uma produção um pouco anterior à de vocês. Você quer falar sobre a relação com essas figuras, no momento inicial da Poesia Concreta?

DV – Eu acho que foi uma contribuição bastante valorosa porque são realmente grandes poetas. Em relação, por exemplo, ao Luís Carlos Guimarães, eu acho ele um dos bons poetas brasileiros. Eu acho que foi uma participação bastante valorosa, que só nos incentivou, não é?

MS – Nesse momento inicial, há um contato bastante harmonioso com poetas de boa qualidade, respeitados. Agora, há o momento imediatamente seguinte, que é aquele da Poesia Experimental e do Poema/Processo, que gerou algumas tensões, se não com esses nomes, ao menos com o universo cultural hegemônico natalense. Como você vê essa passagem da Poesia Concreta para o Poema/Processo, em Natal?

DV – O Poema/Processo foi realmente a grande explosão cultural no contexto cultural natalense, não é?, potiguar. Foi, realmente, você sabe, um escândalo, não é?, o correspondente dele deve ter sido a Semana de ‘22 no seio da intelectualidade de São Paulo. E foi um puta escândalo porque todo mundo, ninguém esperava que fosse uma, uma coisa tão radical, e foi. Um de nossos slogans foi “Espantar”, “É preciso espantar pela radicalidade”, e realmente nós espantamos, espantamos a ponto até de perder o controle sobre espanto, a ponto de eu ter sido chamado na época, pelo Secretário da Segurança Pública, para explicar o que seria o rasga-rasga de livros em praça pública. E a coisa chegou ao ponto de ganhar manchetes, não é?, dos jornais, quase que diariamente, quem vai ser queimado, quem não vai ser, quem vai ser rasgado, quem não vai ser. Quer dizer, a coisa atingiu, esse happening, realmente, nós conseguimos assim de maneira explosiva mesmo, foi uma coisa que ultrapassou até a coisa literária ou cultural, p’ra própria comunidade mesmo tomar conhecimento disso, não é? Por exemplo: tem episódios até engraçados da minha mãe estar num consultório médico, esperando uma consulta e ouvir um senhora comentar: “Ah, esse Dailor Varela, esse bando de loucos aí deveriam ser expulsos daqui de Natal, o que é que esse pessoal quer fazer com a cultura?” É, realmente, foi uma coisa, foi um escândalo, não é?

MS – Eu fui entrevistado no jornal O Galo, de Natal, em dezembro de 1997, e me perguntaram sobre a questão de queimar os livros de Câmara Cascudo – tema que não constou na edição final publicada da entrevista. Também li um guia bibliográfico sobre Câmara Cascudo, organizado pela Profa. Vânia Gicco, da UFRN, onde consta artigo seu comentando que Câmara Cascudo nunca foi queimado pelo Poema/Processo.

DV – É, isso foi, como em todo escândalo, não é?, como em todo happening, é lógico que existem mal-entendidos e esse foi realmente um grande mal-entendido, porque nós, não haveria motivos para queimar ou rasgar o Câmara Cascudo, porque a nossa guerrilha cultural era contra os versificadores, o nosso alvo, realmente, eram os parnasianos e os versificadores e Câmara Cascudo não tinha nada…

MS – Não era o caso…

DV – É, não era o caso. Então, realmente, houve um mal-entendido, e até dentro desse anarquismo, desse derrubar o coreto, não é?, a que a gente se propõe, foi, teve o lado positivo, porque aí é que a fogueira incendiou realmente, porque imagine só se rasgar o monstro sagrado Câmara Cascudo, e aí, aí nós passamos mais várias semanas na mídia e um dos motivos pelos quais eu, eu fui chamado pelo secretário de Segurança foi Câmara Cascudo, “Por que você vai fazer isso com Câmara Cascudo?”. Mas, realmente, não havia motivo de queimar a obra de um Câmara Cascudo ou quem quer que fosse, de um folclorista, eu acho que não tinha…

MS – Uma das questões levantadas na época era uma acusação, que vinha principalmente de setores estudantis de esquerda, sobre um caráter supostamente fascista daquele ato, que até hoje se mantém na memória literária e cultural natalense. Por um lado, havia uma ditadura efetivamente fascistizante, que não promovia happenings; por outro, existia um contexto internacional com atitudes paralelas àquele happening – penso em Paris de 1968, nos hippies norte-americanos e até, num certo sentido, na Guarda Vermelha chinesa, por exemplo, com todas as especificidades de cada caso.

DV – Isso foi, você sabe, sabe bem que nessa época, havia assim, não é?, um divisor de águas, uma coisa ridícula sim, não é?, de quem ouvia Chico Buarque, quem ouvia Geraldo Vandré, quem era tropicalista, quem gostava de guitarra elétrica era considerado alienado, não é? E havia esse fogo no ar. E realmente, a acusação de que, de que a nossa vanguarda, a vanguarda do Poema/Processo era fascista era totalmente absurda, não é? Porque, pelo contrário, todo o nosso trabalho foi um trabalho de conotação assim bastante política. Você vê, por exemplo, o trabalho de um Falves, é um trabalho altamente subversivo, não é? Então, foi uma acusação, eu acho que tola, tola e dessa época em que ouvir Caetano Veloso provocava toda aquela, aliás, que você participou bem disso.

MS – Havia todo esse clima de tensões, conflitos, polêmicas etc. mas, ao mesmo tempo, muitas atividades. Eu lembro de você promovendo debates e palestras na Fundação José Augusto, que, na época, mantinha cursos em escolas e outras entidades. Gostaria que você falasse um pouco sobre essas atividades de divulgação de Poesia Experimental e Poema/Processo, na segunda metade da década de ’60.

DV – É, foi uma atividade bem, bastante intensa, foi uma guerrilha mesmo, a gente usava todas as frentes p’ra divulgar o trabalho, não só a nível de Natal, mas a nível nacional e a nível internacional, não é? Então, havia realmente um, foi uma guerrilha cultural bastante intensa, que se espalhou pelo nordeste inteiro, não é? A gente tinha uma dedicação muito grande a esse trabalho, não é? Tivemos vários, vários problemas em relação a isso. Por exemplo, em Campina Grande, nós tivemos uma exposição de Poema/Processo que foi fechada pelas autoridades. Mas havia realmente uma orientação muito, mas muito grande de ocupar espaço na mídia, não é? Você imagine o que era, não é?, a mídia natalense na época, e havia coisas muito interessantes de se fazer na época um suplemento cultural na Tribuna do Norte, não é? Que nessa época, era “chumbão” e se fazia um suplemento à base de chumbão e… de vanguarda. Eu até lembro isso hoje, nesta era de informática, do computador. Não é o computador que vai fazer a vanguarda, não é? Mas são sempre as idéias, não é? Não só se fazia, por exemplo, no suplemento da Tribuna do Norte, de chumbão e se publicava poemas visuais, como também nós invadimos o espaço da mídia de outros jornais, como na Paraíba, no Diário de Pernambuco, não é? Com os suplementos altamente radicais que hoje, por exemplo, você não vê na grande imprensa e se fazia aquilo na época em suplementos assim, utilizando ao máximo espaço em branco e com poemas visuais. Foi mesmo uma, o Nêumane até escreveu um artigo recente, para O Galo, sobre as atividades do Poema/Processo em Campina Grande, em que ele usa o termo “levante”, não é? “O Levante da Borborema”. Então, realmente, foi um levante cultural de proporções assim que eu acho que, até hoje, nenhum movimento cultural no Rio Grande do Norte causou.

MS – Além das dificuldades técnicas apontadas (especialmente, o jornal composto em “chumbão”), tratava-se de um momento politicamente muito difícil, do AI-5, da escalada da repressão ditatorial. Mesmo com setores que identificavam a vanguarda como reacionária, ela enfrentava grandes barreiras para apresentar qualquer tipo de proposta naquele universo repressivo, inclusive porque as vanguardas significavam pensar em transformar o mundo através das linguagens.

DV – Certo. É lógico que a gente sabia onde estava pisando, não é? Era um terreno altamente perigoso, mas que a gente caía no, usava muito, isso foi usado bastante, pelo, pelo menos por mim, que usar a avacalhação, a esculhambação p’ra falar certas coisas, não é? Naquele pensamento do Rogério Sganzerla, em que ele fala que quando a gente não pode fazer nada, nada sério, avacalha e esculhamba. Eu levei isso bastante a sério, de tirar sarro da situação, usando do anarquismo, e passava porque talvez até a repressão falasse “Ah, isso não é sério!”. A gente passava realmente muitos, muitos protestos, não é?, através desse canal.

MS – Mais para o final da década de ’60, o Poema/Processo, em Natal, teve uma aproximação muito intensa com música popular e, desde 1967, já havia muitos diálogos com a produção de Artes Plásticas (fotografia, colagem, desenho). Especialmente no caso da relação com a música popular, parece que é uma certa diferença do Poema/Processo natalense ou nordestino (se for o caso de pensar em Jomard Moniz de Brito em Recife) em relação ao grupo carioca.

DV – É, quando, na explosão do Tropicalismo, acho que houve uma ala do Poema/Processo, aqui, que teve uma vivência, não é?, maior com o Tropicalismo, outra não. Eu faço parte dessa ala tropicalista. Quando – me lembro até hoje -, junto com Alexis Gurgel, “Alegria, Alegria”, eu senti que ali, realmente, estava o meu trabalho, não é? Era, “Alegria, Alegria” era uma colagem, uma colagem de tudo aquilo que se estava propondo. Então, houve um entrosamento assim bem íntimo de Poema/Processo e Tropicalismo por uma ala – outra não. Eu cheguei inclusive a fazer um programa musical em Natal, chamado “Música & Diálogo” – que é um nome horrível -, aliás, de que você participou. E aí então, a outra ala não havia tanto interesse como, por exemplo, Moacy Cirne, acho que nunca foi tropicalista. Mas aí, como te falei, a partir de “Alegria, Alegria”, eu senti realmente que aquele, a Estética Tropicalista era uma Estética que estava bem, bem próxima do nosso trabalho. Quando você cantou “Os Relógios”, por exemplo, ah, eu acho que foi, aquilo ali era nada mais do que uma continuidade do nosso trabalho. Quando você produziu aquelas roupas para Maria Alcina, não é isso? Eu acho que foi, eu estava bem engajado nisso, eu acho que Tropicalismo e Poema/Processo, nesse momento, se misturaram.

MS – Você permaneceu em Natal até o começo da década de ’70 e desempenhou um papel de liderança muito importante no Poema/Processo e nesses setores de Arte de Vanguarda em Natal nesse período de passagem dos anos ’60 para os ’70. Em que ano você partiu para São Paulo?

DV – Eu sou muito ruim nesse negócio de data, mas foi nos anos ’70.

MS – Eu vim em 1970, tenho a impressão de que você veio em 1971 ou 1972…

DV – É, é por aí.

MS – Você veio para São Paulo e…?

DV – É, eu vim para São Paulo, fiz um estágio na, na Veja e na Folha de São Paulo, na Veja e depois, vim para o interior, para São José dos Campos.

MS – Antes de falar sobre a vinda para São José dos Campos, gostaria que conversássemos um pouco sobre esse período de São Paulo/capital, o trabalho na Veja e na Folha de São Paulo. Certamente, o trabalho na Veja (que, ainda hoje, é a maior revista semanal brasileira, em termos de tiragem e influência), …

DV – Do ponto de vista profissional, como já disse, foi uma experiência fantástica, onde eu cheguei e encontrei uma Redação onde havia Sérgio Cabral, Mino Carta, José Ramos Tinhorão, Tárik de Souza, Sylvio Lancelotti e tantas outras figuras, não é?, do meio jornalístico brasileiro. E,. mas você tinha me perguntado sobre a, a produção, não é?

MS – Sim, sobre sua produção poética desse período.

DV – Como eu te falei, o, eu senti muita, me senti muito desestimulado de não ter um grupo, não é?, para discutir e essa guerrilha cultural toda, essa verdade toda e foi quando eu retornei, depois de muito tempo, à poesia escrita, à poesia…

MS – … verbal?

DV – É, à poesia verbal, que aí que eu produzi o Jaula Aberta, um livro chamado Jaula Aberta, que é um livro bem em cima assim de São Paulo, não é?, que tem como temática, realmente, a solidão de São Paulo.

MS – No momento inicial do Poema/Processo, havia uma atitude bem radical, própria dele, no sentido de evitar a palavra, o verso. Nessa sua retomada, como é que você se sentiu? Houve algum sentimento de “traição”?

DV – É, realmente, no começo, sim. Eu me, é piedoso, pode aumentar aí. Mas aí, eu fiz uma análise assim de que esse nosso radicalismo, não é?, teve uma função naquela época, não é?, e de que não havia mais porque continuar, n’é?, com essa, com esse radicalismo. E aí, me senti à vontade, fiz uma, me sentei no meu próprio divã e fiz uma… Aí, sim, me libertei e a partir daí, fiz vários livros com a palavra. Após anos praticando poema/processo, voltei ao verso, à palavra. Foi uma volta difícil. Toda vanguarda é xiita. Fiquei em dúvida: escrevendo versos, eu estou-me “traindo”, traindo o Poema/Processo. Mas aí, vi que este radicalismo não tinha mais sentido. Teve sentido quando da explosão do poema/processo. Aí voltei ao verso com o livro Jaula Aberta, que é na realidade, um “diário” do meu pânico, do meu desespero em relação à cidade grande, a São Paulo. É um trabalho que eu gosto muito. Porque saíu da mais pura emoção, livre e solto. E p’ra mim, poesia se vive. Jaula Aberta saíu assim, de cada momento vivido em São Paulo. Tem um verso que fala “abrindo sinais fechados / em beijos de contra mão” que saíu após uma noite, dentro de um carro na Rua Augusta (não a 100 quilômetros por hora), quando pintou uma paixão por uma amiga. Foi um namoro de uma noite e um poema. Jaula Aberta é todo sinais de um tempo em São Paulo.

MS – Você produziu textos, letras de músicas para Joel Câmara e Mirabeau Dantas, compositores natalenses que moraram em São Paulo no início dos anos ’70. No final dos anos ’90, uma discussão que apareceu um pouco na Imprensa brasileira foi a negação do caráter poético das letras de músicas. Que é que você acha dessa argumentação que surgiu especialmente através do poeta e crítico carioca Bruno Tolentino?

DV – Não concordo, absolutamente, eu acho isso de um pedantismo, de um pedantismo letrado muito grande. Eu acho que a produção poética, a grande produção poética hoje no Brasil, pelo contrário, está nas letras das músicas, seria uma idiotice total negar a importância poética de um Caetano Veloso, de um Chico Buarque de Hollanda, por exemplo, para citar apenas duas figuras, e particularmente eu tenho um enorme interesse na poesia da MPB. A opinião do poeta Bruno Tolentino é de um elitismo babaca. A MPB é hoje a grande fonte poética brasileira. Caetano, Gil são poetas maiores, cuja produção poética me inspira, me dá tesão, orgasmos múltiplos, cada vez que ouço e leio. Aliás, a MPB sempre foi fonte poética de enorme valor. Noel Rosa, Cartola que o digam. Os literatos de gabinete sempre se manifestaram contra tudo e todos com cheiro popular. São patrulheiros fascistas, sempre alertas e que, infelizmente, ganham espaço na mídia e arrotam seus conceitos e preconceitos idiotas. Caetano Veloso é um dos maiores poetas da “Última flor do Lácio” e tem poemas absolutamente fundamentais na História da poesia, da Literatura brasileiras. Acontece que a genialidade do Mestre Caetano Veloso incomoda os diluidores trancados nas suas torres de marfim. Caetano Veloso é, além de um dos maiores poetas do país, uma das mais necessárias figuras contemporâneas do caldeirão cultural tupiniquim. Está sempre efervescente, pondo lenha na fogueira, agitando idéias.

MS – Concordo com o que você está falando, e penso nas figuras de alguns letristas que têm uma enorme cultura poética – Torquato Neto, Vinícius de Morais, Capinam…

DV – Aliás, eu gostaria de aproveitar a oportunidade e falar, por exemplo, eu tenho ouvido muito o Chico César, que, pô!, é um poeta fantástico, o uso que ele faz da palavra, não é? A brincadeira poética que ele faz com as palavras é um troço riquíssimo – aliás, muito mais rico do que muito momentos da Poesia Concreta. O Chico César, por exemplo, eu acho fantástico, o jogo de palavras que ele faz, a poesia, não é?, dele, do “Caicó arcaico”…

MS – Você sempre manteve contatos com a Imprensa e as editoras natalenses? Sei que você tem uma presença forte em Natal, mesmo morando fora da cidade.

DV – É, eu acho que, como diz, como diz o Drummond em relação a Itabira, “é apenas um retrato na parede mas como dói!”. Natal dói também e é um contato que a gente nunca perde, não é?, em todos os sentidos, do sentido familiar ao sentido da cultura, sentido poético, ao sentido dos amigos. Então, eu sempre vou falar que eu sou um exilado voluntário aqui no sul, mas eu estou sempre ligado a Natal, acho que o maior tesão é Natal, e eu nunca perdi esse vínculo com Natal, com a Imprensa, principalmente, através de cartas, não é? Eu sou, eu sou um grande fazedor de…

MS – … um epistológrafo!

DV – É, e sempre, realmente, mantive esse contato com Natal, quer dizer que eu nunca, nunca perdi esse vínculo.

MS – Você, após um período em São Paulo, mudou-se para São José dos Campos. Como foi essa segunda mudança?

DV – Eu estava muito cansado, não é?, do cotidiano de são Paulo, não é?, que você conhece bem, arrasador, e tive uma oportunidade de trabalhar na Imprensa em São José dos Campos. Não tinha nem idéia do que seria São José dos Campos, e vim p’ra cá, gostei e hoje, radicalizei mais, não é? Hoje, estou em Monteiro Lobato, que é uma cidade pequenininha, na Serra da Mantiqueira, não é?

MS – E como foi a Imprensa que você encontrou em São José dos Campos, era “chumbão” ou off-set?

DV – Não, não, já era off-set e foi uma experiência muito, muito incrível porque, até interessante, eu, na grande Imprensa de São Paulo, você se sente absolutamente perdido, não é? Em termos profissionais, quer dizer, você não tem assim uma vivência, ou um tipo de convivência mais próxima, mais romântica com seus próprios colegas de trabalho, não é? E aqui, eu me senti de volta à Tribuna do Norte, não é? Mesmo com off-set, mas dessa Redação gostosa, inclusive o convívio com as pessoas e também o problema da liberdade, de você escrever o que você quer, o que você pensa.

MS – Você chegou a editar o jornal, você teve um conhecimento de todas as áreas dele, portanto…

DV – É, eu acho que em jornal, eu já fiz de tudo.

MS – Até coluna social?

DV – Até coluna social. Nunca cheguei a ser o J. Epifânio – J. Epifânio e Paulo Macedo são históricos, não é? Criei personagens do mundo mundano. Pegava uma foto publicada numa revista social do Rio Grande do Sul, por exemplo, com um casal e punha uma legenda assim: Na foto, o poeta parnasiano Moacy Leandro de Castro e sua esposa em noite de festa…”. Morri de rir. Quando fui colunista social, até pensei em escrever um livro de contos, um romance, com o título O Baile do Hawai. Isso depois que em São José dos Campos, num desses bailes bregas, colunáveis levaram para casa, dentro das bolsas, as frutas que decoravam as mesas – abacaxis, melões, uvas. Isso é tropicalismo puro. Teatro para Zé Celso Martinez nenhum botar defeito. Mas desisti da idéia do romance. Porque conto, romance realmente não é a minha. Sou mesmo é poeta. Com todos os riscos.

MS – E nessa sua transferência para São José dos Campos, você ampliou a produção no campo poético?

DV – Ah, sim, sem dúvida, porque eu tive mais tempo, não é?, eu tenho mais tempo p’ra pensar poeticamente. Foi uma opção de vida, não é? E até uma opção profissional, que até talvez tenha me custado alguns reais a menos, mas eu me sinto muito tranquilo com essa nova vida.

MS – Você já tem um número grande de livros publicados. Não tem vontade de publicar – não vou dizer uma Obra Completa, pois você é um Autor vivo! – um volume de Poemas Reunidos para divulgação mais ampla?

DV – Eu já pensei nisso sim, porque a maioria dos livros que a gente publica por aí, de maneira geralmente independente ou com tiragem muito pequena, se perde, não é?

MS – Claro, ficam esgotados.

DV – É, se esgotam, mas a Fundação José Augusto chegou a fazer isso com alguns livros meus, acho que quatro ou cinco livros reunidos, com o título geral de Travessia e foi uma edição, aliás, belíssima e muito bem cuidada.

MS – Eu sei que você, depois do colegial, não quis continuar estudos formais. Ao mesmo tempo, entendo que você possui uma cultura jornalística, poética, literária e musical muito grande. Você quer falar um pouco sobre essas suas universidades informais – como é que você foi se informando, aprendendo, acumulando conhecimentos?

DV – É, eu acho que eu sou um assumido anarquista, livre e independente. Eu acho que o não ter ido para a faculdade foi uma coisa natural dentro desse meu pensamento anarquista, porque, realmente, eu nunca me vi sentado num banco universitário, aliás, fui um péssimo aluno em todas as escolas pelas quais eu passei. Eu acho que eu sempre fui mais free mesmo, assim no meu aprendizado de muita leitura, não é? Dessa informalidade, não é? Acho que eu sempre optei mesmo pela informalidade, deixando claro que eu tenho uma profunda, mas profunda mesmo, admiração pelos intelectuais que formalizam, não é? O seu trabalho através de pesquisa, quer dizer, são mais organizados nesse aspecto, mas eu, realmente, sou profundamente caótico, não é? Acho que em tudo mesmo, como uma visão global. Eu, por exemplo, jamais, jamais seria um Historiador, um pesquisador da USP ou de qualquer outra universidade, porque, realmente, eu tenho uma profunda admiração por por quem faz um livro e passa anos e anos pesquisando e anotando, mas eu, realmente, não tenho, eu sou, eu costumo me, me definir hoje como um camelô cultural.

MS – Você tem uma produção poética e de prosa jornalística extensa. Já pensou também numa prosa literária, já sentiu vontade ou realizou coisas nesse ramo?

DV – Não, eu tentei, eu tentei e escrevi alguns contos, não é? Mas realmente, não é a coisa, não é o segmento que me apaixona não. Eu acho que eu sou mesmo… Eu acho que é por aí, eu acho que na essência, na essência, na essência, eu sou um poeta. Não gosto muito de ser chamado de “jornalista”. Prefiro “camelô de idéias”. Depois de mais de 30 anos de “janela”, me cansei do jornalismo em geral. Vivo dele porque não sei fazer outra coisa p’ra garantir o leite dos meus filhos e minha cerveja. Mas gostaria muito de largar a profissão e ser, por exemplo, artista plástico.

MS – No panorama da poesia brasileira do final do século XX, o que vale a pena destacar?

DV – Eu leio muita, muita poesia, a maior parte da minha biblioteca é constituída de poesia mas eu tenho me apaixonado por pouca coisa, assim. Eu acho que, eu diria que, hoje, dois poetas que continuam me apaixonando, fazendo a minha cabeça, são João Cabral de Mello Neto e Maiakovsky. Acho que são dois poetas que, cada vez que eu leio, eu descubro que são duas paixões. Há uma produção poética intensa no Brasil, este é um país de poetas, não é? José Sarney é poeta, mas eu vejo pouquíssimas coisas interessantes. Acho, sem nenhum bairrismo, realmente, que Diva Cunha, Luís Carlos Guimarães, Nei Leandro de Castro, Marise Castro são grandes poetas, mas que talvez a Zila Mamede, esses nomes que eu citei por aí são poetas por aí, são poetas expressivos e que estão realmente a nível nacional, e que estão ainda, são bem mais, que produzem uma poesia de qualidade bem superior a tudo que, que eu tenho visto por aqui pelo, pelo sul-maravilha.

MS – Desses nomes, provavelmente a mais conhecida fora de Natal é Zila Mamede. Concordo quanto à qualidade da produção poética norte-rio-grandense, mas sua divulgação, fora do estado, parece não ser das melhores.

DV – Ah, sim, isso aí é lamentável. Você sabe que o livro, não é?, no Brasil, tem uma política terrível, não é? E essa coisa, não é? Continuar sempre o eixo Rio/São Paulo, não é?, onde tudo acontece. Mas é lamentável que as grandes editoras, não é?, não descubram realmente, ainda não tenham descoberto o valor desses que eu citei. Por exemplo, eu acho que Diva e Luís Carlos Guimarães era para terem livros publicados por grandes editoras e acabam com suas produções poéticas lá no RN, sem serem conhecidas pelo público leitor, o que eu acho realmente lamentável para a poesia brasileira.

MS – Observa-se, desde os anos ’70, a uma crescente respeitabilidade – no sentido até oficial, formal – da Poesia Concreta, cada vez mais divulgada por grandes editoras e universidades, incluindo Autores mais jovens, de gerações recentes, que reivindicam uma herança daquela tradição. Como você vê, hoje, essa herança da Poesia Concreta?

DV – Eu acho que não se pode negar essa herança, não se pode negar a importância da Poesia Concreta no contexto cultural do Brasil. Agora, acho, por exemplo, que a Poesia Concreta teve a sua importância histórica, agora, eu acho que ela entrou num beco sem saída, eu daria a ela uma, uma importância histórica maior que uma importância criativa hoje.

MS – Quando foram comemorados os 40 anos de Poesia Concreta, realizaram uma enorme exposição na Casa das Rosas, em São Paulo.

DV – Uma exposição, do ponto de vista histórico, agora, merecidamente. Agora, criativamente, ela entrou num beco sem saída.

MS – O Poema/Processo pode alcançar um espaço similar ao da Poesia Concreta, em termos de atuação das editoras e debates nas universidades?

DV – Eu acho difícil, porque a política editorial das editoras é tão burra, não é mesmo?, tão medíocre, tão fechada às vanguardas de um modo geral, não é? Eu acredito que não, acredito que o Poema/Processo vá continuar marginal e aí é que está a diferença da Poesia Concreta para o Poema/Processo. Eu acho que o Poema/Processo, mais do que nunca, ele está sendo criativo, não é? Ele está sempre em processo, não é? Vê-se, por exemplo, aqui em Natal, hoje, o movimento do Poema/Processo, até ao contrário do que eu imaginava, porque eu não estou em Natal, não acompanhava, mas tenho recebido um vasto material, que é uma coisa quase sempre em evolução e, por incrível que pareça, ainda incomodando, não é? Não acredito que o Poema/Processo seja consagrado e reconhecido pela inteligência tupiniquim dos letrados, após 30 anos de existência. Porque a grande maioria dos livros sobre História da Literatura Brasileira é de um caretismo, de um preconceito elitista… Raríssimos livros chegam a citar o movimento do Poema/Processo. Por outro lado, as grandes editoras continuam fechadas ao novo e principalmente á poesia de modo geral. Arnaldo Antunes, por exemplo, consegue publicar suas experiências visuais porque é um artista pop da música conhecido pela mídia. Se ele fosse apenas um poeta experimental, jamais teria acesso a uma boa editora. Eu acho que o Poema/Processo continua marginal. Está nessa sua marginalidade a maior fonte de criatividade. Aliás, eu confesso que tenho medo dessas datas comemorativas em geral.

MS – Você tinha mencionado como uma das suas fontes de formação, em Natal, o Cinema de Arte, o Cine-Clube Tirol.

DV – É, eu acho que o Cine-Clube Tirol é um marco zero da, eu acho que toda uma geração, não é?, todo um segmento cultural de Natal, porque ninguém da minha geração, de gerações até um pouco anteriores, o Cine-Clube Tirol é como eu falei, um marco zero, não é? A minha relação com cinema acho que é de um espectador que aprendeu no Cine-Clube Tirol a ver bons filmes, a distinguir o cinema como uma obra de arte, não é? E mais uma vez, o Moacy Cirne esteve bastante, bastante presente, não é?, p’ra me ensinar a gostar de Antonioni e me apaixonar pela Monica Vitti.

MS – Algumas pessoas dessa geração mencionada por você, hoje em dia, sentem um pouco de preguiça de ir ao cinema, falam que preferem ver vídeos. Como é, para você, essa relação cinema/vídeo?

DV – Eu concordo plenamente com eles, eu vou pouquíssimo, hoje, mas pouquíssimo mesmo, ao cinema, eu acho que o cinema se tornou, hoje, uma coisa tão intensamente comercial, não é? A gente tem a saudade do Antonioni e do Cine-Clube Tirol, não é? E eu acho, eu acho que não é proibido se divertir, inclusive, de entretenimento, há filmes comerciais bastante interessantes, eu acho que o Spielberg, por exemplo, é um gênio nesse tipo de cinema, o E. T., eu acho, por exemplo, uma obra-prima desse cinema de entretenimento, não é? Agora, realmente, é bem melhor ficar em casa vendo…

DV – Você tem usado essas novas tecnologias – vídeo, computação gráfica – em sua produção?

MS – Não, não, realmente, eu, realmente, nessas coisas, eu sou um acadêmico. O computador, realmente, é uma coisa que eu acho fantástica, por exemplo, hoje, não é? Mas nunca, nunca tive, até mesmo por preguiça mesmo de me aproximar dele ou, como eu te falei, eu sou um péssimo, péssimo aluno, não é? Sou muito caótico e também eu nunca tive saco de, de aprender a mexer com o computador, continuo com a minha velha máquina de escrever e linguagem de vídeo eu gostaria de experimentar, mas também acho que, por absoluta preguiça mesmo, não penso em fazer nada não, eu acho que eu continuo realmente no tipográfico de máquina de escrever e com algumas experiências visuais, muito voltadas, hoje, por exemplo, para a colagem. Eu me confesso preguiçoso diante das novas e velhas tecnologias. Essas tecnologias me fascinam mas minha preguiça não permite utilizá-las. Sou completamente analfabeto diante de um computador, não sei dirigir carro, meu aparelho de som é da década de ’70, do tempo do disco vinil, e escrevo numa máquina de, pelo menos, uns 80 anos. Não é nenhum saudosismo. É preguiça mesmo de lidar com o aprendizado das novas tecnologias. Não saio da minha rede para, por exemplo, fazer um curso de computação de jeito nenhum. Deitado na minha rede, vejo muita TV. Vejo de tudo. “A televisão sem som é um bonito quadro”, concordo com Cazuza. Às vezes, transformo a tv numa “colagem”. Ponho Franz Zappa p’ra tocar e a tv sem som mostra, por exemplo, o “Sabadão Sertanejo”, do Gugu. Fica muito divertido.

MS – Você acompanha alguns trabalhos poéticos nessas linguagens – vídeo, computação?

DV – Ah, sim, acompanho, até tem trabalhos realmente muito criativos, o trabalho de Arnaldo Antunes, eu acho muito bom nesse aspecto,. Agora, eu, particularmente, não tenho maior interesse em mexer com isso.

MS – Você trabalha como jornalista e também atua como poeta e artista no Vale do Paraíba. Como é a divulgação desse seu trabalho artístico e poético na região?

DV – Veja, já foi mais intensa, já fiz centenas de noites de autógrafos, já foi bem mais intensa. Hoje, realmente, eu me cansei, assim, particularmente de noite de autógrafos, que, eu concordo com Chico Buarque, é uma das coisas mais terríveis do mundo e, mais do que nunca, eu acho que eu estou voltado para Natal e esse meu próximo livro, por exemplo, que se chama Delírico, uma junção das palavras de lírico e delírio, não é?, é um livro de poesia que eu pretendo lançar por aqui, sabe?, eu acho que vou fazer um lançamento em Natal e mandar também para algumas pessoas que interessam. Sou realmente um lírico. No auge da explosão do poema/processo, quem me chamasse de lírico levaria porrada. Mas, como negar o meu ego lírico? Sou fascinado por este lirismo brega nacional e me contenho para não escrever liricamente demais. Sou um lírico passional exagerado e os ícones do romantismo brega, como a imagem de Nossa Senhora Aparecida, o caminhão cor de rosa de Sula Miranda, pingüim de geladeira, me interessam muito esteticamente. Viva o povo brasileiro!

MS – Mais algumas coisas que você gostaria de falar?

DV – Ah, não, eu talvez gostaria de falar que eu pretendo, dentro dessa continuidade, desse trabalho visual -–como eu te falei, eu tenho trabalhado muito com colagens, que eu acho uma linguagem assim fantástica, mesmo que tenha algumas de experimentalismo, eu descubro na colagem um exercitar, um universo visual riquíssimo e eu tenho me apaixonado muito por isso e pretendo fazer aí alguns projetos, inclusive um livro visual que então tem um título provisório que é P’ra não dizer que eu não falei de 1964, em cima de colagens. Devo fazer uma referência histórica a Marcos Silva e esse meu interesse por colagens foi bastante aceso a partir daquela sua exposição de colagens no Sobradinho, de – em que ano foi?

MS – 1967.

DV – Todo o meu trabalho com poesia visual (poema/processo) está intimamente ligado a uma verdadeira paixão que eu sempre tive em relação às artes plásticas em geral. Sou um pintor “frustrado” que enlouquece totalmente diante dos trabalhos de um Siron Franco, João Câmara, do lirismo potyguar de Newton Navarro. Sou igualmente obcecado pelos trabalhos de Lygia Clark, Hélio Oiticica, Lygia Pape. Minha poesia visual é fruto desta loucura. Me aproximo mais das artes plásticas nas minhas colagens, uma prática, uma estética onde eu me revelo mais próximo da pintura. Aliás, o Ênio Puccini, marchand, hoje em Curitiba, um crítico de arte dos mais competentes, me disse um dia que minhas colagens são de um “pintor” pelo equilíbrio, pelas cores, pela composição. Minha poesia visual é esse TUDO/TODO. É, dentro dessa tecnologia, uma tecnologia hoje bastante arcaica – xerox -, eu tenho descoberto que xerox colorido é uma coisa fantástica para você arte-visualizar o seu trabalho. Então, por hoje, é um trabalho que eu estou experimentando com bastante tesão.

(15 de abril de 2012 – In SubstantivoPlural)

 

 

 

 

6 Comentários

 

  1. Jarbas Martins

16 de abril de 2012

Muito boa, Marcos, a sua entrevista com Dailor Varela. Para quem não conheceu de perto Dailor, essa entrevista diz bem quem era esse poeta desprovido de mesquinhez, fugindo da maldade dos homens, recusando um mundo onde os bens materiais, o consumismo, o lucro, serviam como medida para tudo.A Poesia era sua arte, sua ideologia, sua religião.Nesse ponto foi mais comunista do que todos nós,do que eu e Moacy Cirne, que chegamos a integrar partidos da esquerda radical (eu fui ligado à Ação Popular e Moacy ao Partido Operário Comunista,de tendência trotskista).Talvez por isso Moacy Cirne entendesse as opiniões, beirando o anarquismo e o surrealismo, de Dailor e Falves.. Dailor estava acima dos meus ideais socialistas, que tinham como nascentes o cristianismo. Foi querido, e respeitado por muita gente como você, meu amigo Marcos Silva,como Zila Mamede, Anchieta Fernandes, Falves Silva, Moacy Cirne, Nei Leandro, Sanderson Negreiros, Alexis Gurgel,Berilo Wanderley, Luís Carlos Guimarães, Diógenes da Cunha Lima, Moacy de Góes,gente à direita e à esquerda, bem ou mal sucedida, à margem ou não da sociedade do seu tempo. Tivemos, sim, algumas divergências, principalmente no campo ideológico. Com ele e seu grande parceiro Falves Silva, principalmente, com este -que numa entrevista me citou como conservador, ao lado de Manoel Onofre Jr. e Inácio Magalhães de Sena. Bom, águas passadas. Depois de algumas conversas (e Dailor não era muito disso) voltamos a nos entender .Logo após ter publicado minha antologia de sonetos “14 versus 14″ (ed. Boágua, Natal, 1994) – recebi um envelope com um papel, no qual estava escrito a cores: “Jarbas, vamos sonetizar o mundo ?” Somente aí é que conheci o verdadeiro Dailor: mais comunista, franciscano e poeta do que eu.”Resquiescat in pace”, Poeta !

  1. Lívio Oliveira

16 de abril de 2012

Nada eu conhecia acerca de Dailor.  Confesso-me  um ignorante quanto a sua biografia e sua obra. Mas, essa entrevista de Marcos me trouxe um retrato importante.

Temos experimentado perdas consideráveis no mundo cultural potiguar. Paremos pra refletir sobre essa nossa pobre condição humana.

  1. Marcos Silva

16 de abril de 2012

Agradeço a Jarbas e Lívio pela atenção.
Além do afeto pessoal por Dailor, quero destacar que ele elaborou uma obra-prima do Poema/Processo, “Signo”. E escreveu bonitos poemas textuais antes e depois daquele trabalho.
Devo muito a Dailor em meus anos de formação natalense. Ele me emprestou o primeiro livro de Lucien Goldmann que li, Dialética e cultural, não entendi o conceito de reificação mas foi um bom ponto de partida para explorar depois esse importante filósofo.
A matéria finda mas o espírito se mantém através de outros espíritos. Não falo em termos religiosos, falo mesmo em nossa capacidade humana de transcender o imediato através da memória.

  1. Jarbas Martins

16 de abril de 2012

Gostei, Marcos, por você ter se referido a um Dailor politizado, embasado, leitor de Lucien Goldman etc.Tudo isso tem uma importância: se alguém quiser futuramente escrever sobre o poeta Dailor, estas tuas palavras serão levadas em conta, creditando-se a você a sua notória competência e ética como professor, historiador e artista. Na verdade, salvo raras exceções, nós de esquerda éramos esteticamente atrasados e…donos da verdade, ou seja, autoritários. Mal líamos o que a cartilha marxista-leninista nos ensinava. E achávamos que só nós, principalmen