Por Eduardo Gosson e PauloJorge Dumaresq

 

  • ·UBE: para iniciar a entrevista, queremos que você se autodefina. Quem é Diógenes da Cunha Lima?
  • ·Diógenes: Quem pode saber quem eu sou são os outros. Penso viver envolto em poesia e justiça.

 

  • ·UBE: Agora, façamos uma volta ao passado e voltemos à cidade de Nova Cruz/RN sua cidade berço. Conte-nos como foi a sua infância. Como surgiu o seu interesse pela literatura? Na sua casa havia um ambiente cultural que o influenciava ou você foi buscar o conhecimento fora de casa? Na escola, por exemplo?
  • ·Diógenes: Vivi a infância de menino do interior, rica em brincadeiras e imaginação. Uma castanha sobre um montinho de areia era um castelo no jogo; o gado também era de barro ou de miolo de cardeiro. Meu pai era um leitor insaciável. Amanhecia o dia e ele começava a recitar poesia para nós meninos. Ainda sei decorado os poemas recitados por ele de Guerra Junqueiro, Ascenso Ferreira, Carlos Dias Fernandes, Augusto dos Anjos. Encantei-me com a poesia dos cantadores na feira. Estudei no colégio de freiras, Nossa Senhora do Carmo. Quarenta anos depois, fiz o hino do colégio, que, até hoje, para minha alegria, é cantado: fazer do homem um verdadeiro cidadão / no meu colégio a melhor educação. O que estudávamos no primário do colégio era semelhante no que fui aprender no ginásio do Marista.

 

  • · UBE: Quais foram os primeiros livros que leu? Esses livros chegaram a lhe marcar de alguma forma? Influenciam até hoje?
  • ·Diógenes: Monteiro Lobato nunca me abandou. Por causa dele procurei ler Fedro e Esopo. Fiquei feliz também por saber que foi ele, Monteiro Lobato, quem primeiro editou nacionalmente Câmara Cascudo.

 

  • ·UBE: Em que ano você deixou Nova Cruz e veio para Natal/RN? Comente essa mudança de vida.
  • ·Diógenes: Com treze anos de idade, vim estudar aqui. Meu pai orientou-me: “em Natal há um rio chamado Luís da Câmara Cascudo, os outros são riachos”. Toquei a campainha da casa do Mestre e Anália, a velha criada, recebeu-me dizendo que ele era muito ocupado e não podia me receber. Insisti dizendo que tinha vindo de Nova Cruz com um recado do meu pai. Fui recebido com um sorriso e ganhei dele chocolates, um sorriso carinhoso e estímulo literário.

Vivi a realidade da Casa do Estudante. Era uma vida necessária e sacrificada.

 

  • ·UBE: A literatura entrou definitivamente na sua vida em que momento? No período do ginasial? Ou do científico? Relacione os livros e autores que lhe influenciaram nessa fase da vida.
  • ·Diógenes: Aos oito anos, escrevi versos com rimas em ão. Trouxe de Nova Cruz um caderno de poema e sonetos, com licença da palavra, perpetrados. No ginásio e curso clássico “Atheneu” li muito. Os (trinta e um?) volumes da obra completa de Machado de Assis, o Velho e Novo Testamento, Cervantes, Shakespeare, Camões e tudo o que via de Câmara Cascudo.

 

  • ·UBE: Quando você concluiu o curso de Direito? Sua turma chamou-se Turma da Liberdade? Por quê?
  • ·Diógenes: Na velha Faculdade de Direito da Ribeira, a minha turma chamou-se Turma da Paz, 1963. Havia divisão ideológica, esquerda e direita. Eu não gostava dos dogmas comunistas e era apontado como direitista. Para harmonização da formatura conjunta, concluímos com a escolha de Kennedy Kroushev. E ainda houve uma homenagem especial a João XXIII, pedida pelos católicos praticantes. Kennedy foi assassinado, foi representado pelo Cônsul Geral dos Estados Unidos. A União Soviética enviou para nossa solenidade o embaixador Andrei Fromin.

 

  • ·UBE: Quais foram as pessoas mais próximas a você no mundo político e intelectual?

Diógenes: Sentia-me, e tenho orgulho disso, o aluno predileto de Câmara Cascudo. Distinguiram-me com sua amizade Djalma Marinho, Dinarte Mariz, Onofre Lopes, Dom Nivaldo Monte.

 

  • ·UBE: Você vê alguma relação entre Direito e literatura?
  • ·Diógenes: A literatura reflete o Direito. Nas minhas petições, frequentemente, cito Goethe, Shakespeare, Camões, vários poetas essenciais como H. Dopal, versos do cancioneiro popular.

 

.UBE: Em que momento a literatura potiguar o arrebatou? Você se lembra do primeiro livro de autor potiguar que leu?

Diógenes: Quando visitei Cascudo aos treze anos. O livro foi Vaqueiros e Cantadores.

 

  • ·UBE: Há um marco divisor na literatura norte-rio-grandense? Quais são os pontos positivos a serem destacados na nossa literatura? Como você a define? Cite, por favor, os principais livros de autores nossos que não podem faltar na lista de alguém que está pesquisando o tema.
  • ·Diógenes: Há antes e depois de Cascudo. Todos sofremos a sua poderosa influencia. A literatura potiguar é altamente expressiva em poesia, história e folclore.  Lembro que os escritores da nossa Academia de Letras e da União Brasileira de Escritores produzem expressiva e valiosa literatura. De momento, registro Navegos de Zila Mamede, o Horto de Auta de Souza, O Fruto Maduro de Luís Carlos Guimarães, Uns Potiguares de Nelson Patriota, A Ressaca de Agueda Zerôncio. São memoráveis os livros de Nísia Floresta, Palmira Wanderley, Murilo Melo Filho, Tarcísio Gurgel, Nei Leandro de Castro, Iaperi Araújo, Eduardo Gosson, Paulo de Tarso Correia de Melo, Sanderson Negreiros, Dorian Gray, Anna Maria Cascudo Barreto, entre tantos.

 

  • ·UBE: Quantos livros você escreveu?. O que você destaca nesses livros?
  • ·Diógenes: 21 livros. Destaco as seis biografias e O Livro das Respostas (face ao libro de las preguntas de Pablo Neruda).

 

  • ·UBE: Em sua opinião, quem são os grandes nomes da literatura potiguar? Atualmente algum jovem poeta, romancista ou dramaturgo lhe desperta interesse? O que podemos esperar da literatura potiguar nesta década?
  • ·Diógenes: Além dos citados, destaco Osvaldo Lamartine de Faria, Veríssimo de Melo, Deífilo Gurgel. Entre os jovens Marise Castro, Carmem Vasconcelos e Pablo Capistrano. Não tão jovem assim Racine Santos, Walter Arcanjo. Tem muita gente nova de primeira grandeza. Devemos esperar revelações de talento.

 

  • ·UBE: De que modo você define a sua ensaística? Você recomenda a leitura de qual(ais) livro(s) seu?
  • ·Diógenes: Não sei dizer do que escrevo. Recomendaria O Trem da Minha Vida, sobretudo, Natal Uma Nova Biografia.

 

  • ·UBE: você começou sua carreira de escritor pela poesia. Depois passou escrever biografias. Por quê?
  • ·Diógenes: Poesia é essencial, torna a vida leve. Os biografados seduzem a minha emoção. Penso que cada um de nós deve deixar a impressão digital das suas atividades, matrizes do seu pensamento e do sentimento.  

 

 

  • ·UBE: Conte-nos como foi a sua experiência à frente da FJA e como Reitor da UFRN. Destaque os principais projetos da época.
  • ·Diógenes: Na Fundação José Augusto muita coisa aconteceu, como trazer a Fortaleza dos Reis Magos para a jurisdição da FJA, publicação de livros como Prelúdio e Fuga do Real de Câmara Cascudo e uma história da Assembleia Legislativa e a Antologia Poética de José Bezerra Gomes. Sonhamos que a UFRN será uma das melhores, senão, a melhor do país. Em um período ela exerceu uma liderança política não só entre os reitores das outras universidades, mas também entre os funcionários e professores. A missão cultural da Universidade foi cumprida. Criamos o Projeto Rio Grande do Norte de prática aplicação. Criamos A Fundação de Pesquisa – FUNPEQ, que tanto produz. Publicamos, com pobreza de mimeógrafo, cerca de quinhentas teses universitárias. Editamos trinta e um discos de composições e com intérpretes do Rio Grande do Norte.

 

  • ·UBE: Fale-nos de uma nova experiência: presidir a Federação das Entidades Culturais – FINCS e as principais tarefas a executar?
  • ·Diógenes: A Federação é a união das Instituições para fazer a voz dos promotores de cultura. Vai ser forte.

 

  • ·UBE: Politicamente você sempre pertenceu à Direita. Consegue ver belezas no capitalismo?
  • ·Diógenes: Eu sempre fui rotulado, acredito que a iniciativa privada é bela e eficaz, o poder público tem-se manifestado feio e deficiente.

 

  • ·UBE: Contraditoriamente, passou a dialogar com um Poeta 100% comunista – Pablo Neruda. O que o atrai na poesia de Neruda?
  • ·Diógenes: Para mim Neruda é o melhor poeta das Américas. Ele sabe produzir múltiplas explosões de alegria estética.

 

  • ·UBE: Sabemos que você não tem bola de cristal, mas faça um exercício de futurologia e nos diga para onde vai a literatura no Século XXI. Quais os caminhos que a literatura pode ou deve seguir?
  • · Diógenes: A literatura deverá construir um homem mais feliz com a participação dos meios virtuais. A felicidade parte da integração.

 

  • · UBE: A tecnologia e as novas mídias o assustam enquanto escritor? Você acha interessante a ideia do e-book? Você leria um livro na tela do computador ou num tablet?
  • ·Diógenes: Sou leitor de e-book. Você adquire com rapidez, mais barato e descartável. Todavia, não dá a emoção do livro impresso.

 

 

UBE: Quantos livros podemos encontrar nas suas estantes? Fale-nos das suas diversas bibliotecas formadas ao longo da vida…

Diógenes: Há algum tempo, Lívio de Oliveira levantou mais de nove mil livros. Certamente, hoje, ultrapassa os dez. Além do Escritório, os livros enchem a minha casa de Natal e de Pirangi. Gosto de dar livros, mas fico tristíssimo porque tive muitos livros furtados, irrecuperados. 

 

.UBE: Qualquer coisa que não seja literatura o aborrece?

Diógenes:A literatura falsa me aborrece.

 

  • ·UBE: Quais são as cores e os sons da sua literatura?
  • ·Diógenes: Penso que escrevo sobre a influencia do azul e o som do saxofone.

 

  • ·UBE: A sua história de vida tem alguma moral? Se sim, que moral é essa?
  • ·Diógenes: Sem bons costumes não vale a pena viver. A frase que fiz para o meu escudo me acompanha: A BONDADE VENCE. Se não vencer o que podemos fazer?

 

  • ·UBE: Para encerrar, a literatura tem alguma utilidade?
  • ·Diógenes: A literatura dá compreensão e um sentido para a vida.