No ventre do mundo

Data: 07 agosto 2012 - Hora: 17:31 - Por: Dani Pacheco  In  O JORNAL DE HOJE

O livro “No ventre do mundo” foi o vencedor do concurso cultural promovido pela União Brasileira de Escritores no Rio Grande do Norte (UBE/RN) intitulado de ‘Prêmio Eulício Farias de Lacerda’ que teve como objetivo de homenagear o grande romancista paraibano de nascimento e potiguar por opção e o de incentivar a produção literária, principalmente, nessa modalidade.

O autor da obra é o Paulo de Macedo Caldas Neto, escritor, mestre em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, licenciado em Letras-Língua Portuguesa e Literaturas (UFRN) e professor do IFRN-Câmpus Ipanguaçu. E, nesta quarta-feira, dia 8, às 18h, na Academia Norte-Rio-Grandense de Letras será o lançamento.

Ele conta que a sua relação com a arte de escrever, “foi iniciada aos 15 anos, quando eu ainda cursava o Ensino Médio no Neves. Lia muito poesia, crônicas e escrevi, por exigência da professora de Literatura, por se tratar de atividade avaliativa, um romance em prosa na época, que me rendeu uma nota 10,0. Ainda tentei reescrevê-lo já na faculdade por querer publicá-lo um dia, mas achei-o tão imaturo quanto à temática que deixei de lado tal empreendimento. O que posso dizer também é que o grande responsável pela minha paixão pelos livros foi o meu pai, meu mestre, minha vida”.

O JORNAL DE HOJE entrevistou o escritor Paulo Caldas Neto que falou um pouco sobre o ato de escrever, repercussão, livro, entre outros. Confira!

O JORNAL DE HOJE – As suas resenhas críticas veiculadas em veículos impressos da cidade são bastante elogiadas. Você sempre desejou se dedicar a arte de escrever?

Paulo Caldas Neto – Eu andei escrevendo nos tempos da Universidade com o incentivo do professor Tarcísio Gurgel dos Santos. Era o ano de 2001, ele me lecionava a disciplina complementar de Literatura do Rio Grande do Norte. Eu não tinha o menor conhecimento dessa disciplina, pois nunca estudei no Ensino Médio a produção literária local. Achava que a Literatura Brasileira era a que se produzia no eixo Rio-São Paulo. Tomei um susto quando soube que aqui se produzia arte, mas não pensei que fosse de qualidade. O primeiro livro que li foi HORTO, de Auta de Souza, e apaixonei-me pela poesia dela. Fiquei maravilhado com tanto talento, principalmente de nossa mulher potiguar. Orgulho-me muito por ter nascido em uma terra (sou potiguar de Mossoró) que abriga mulheres tão corajosas e inteligentes que ajudaram a construir a arte e a história de nosso Estado. Escrevia ensaios acadêmicos, resenhas críticas sobre literatura e que saíram publicadas na Revista Preá (na época publicada pela Fundação José Augusto) e na Tribuna do Norte. Uma delas, publicada na PREÁ, foi sobre o livro de poemas METÁFRASE, do escritor e professor da UFRN Márcio de Lima Dantas. Tal resenha, depois, para a minha surpresa, foi elogiada pelo escritor e jornalista Franklin Jorge. É sobre esse livro que fala o meu ensaio NO VENTRE DO MUNDO que estarei lançando pelos próximos dias. Escrever para mim sempre foi um sonho igual a outros que ainda sei que vou realizar. É um robby que nunca deixarei de lado. Só espero ter mais tempo daqui para lá (risos).

O JORNAL DE HOJE – Este é o seu primeiro livro?

Paulo Caldas Neto – “No ventre do mundo” é o meu primeiro livro que publico. Eu o estou editando porque foi com ele que ganhei o Prêmio Literário Eulício Faria de Lacerda, promovido pela União Brasileira de Escritores do RN e que tem como presidente atual o escritor e sociólogo Eduardo Gosson, a quem devo muito por essa oportunidade. Eduardo sempre foi um exímio ativista cultural e empreendedor. A referida associação, da qual também me tornei sócio-efetivo, criou uma editora, A nave da palavra. Só este ano publicamos vários autores. Infelizmente, quem escreve enfrenta muitos problemas quanto à editoração de um livro. Se você não tem um nome ou não é conhecido nacionalmente, as editoras lhe fecham as portas. Elas também gostam de publicar livros cuja temática vai vender, o que dificulta um pouco o seu trabalho, pois o escritor tem a sua liberdade tolhida para discutir o tema escolhido que vai compor a história de ficção ou mesmo quando se trata de um livro não-literário. Em se tratando de literatura, às vezes é difícil surgir alguma editora interessada, pois é algo visto como não-lucrativo. Principalmente, quando se escreve poesia. Que bom que a UBE/RN está me ajudando!

O JORNAL DE HOJE – O que lhe inspira?

Paulo Caldas Neto – Raimundo Carrero, em seu livro “Os segredos da ficção”, nos ensina que uma boa história, ou mesmo um bom texto artístico, não pode ser construído com base na inspiração, pois esta não é necessariamente a força-motriz da literatura. Esse conceito de que o escritor tem de estar inspirado para compor um poema, roteiro para teatro, conto, crônica ou romance em prosa surgiu com os românticos do século XIX que viviam num mundo de fantasia como fuga da realidade. Não existem musas inspiradoras na arte moderna, pós-moderna e contemporânea. O que existe é trabalho árduo de composição baseado em ideias. Estas surgem de qualquer fato ou situação: uma piada que você ouve um amigo contar, uma cor, um quadro, uma palavra em si vista num texto lido etc. Tudo pode lhe instigar para que uma boa obra nasça. Daí porque o escritor deve estar atento ao cotidiano, deve atualizar-se e meditar sobre a realidade sempre.

O JORNAL DE HOJE – O livro que você vai lançar no dia 8 de agosto “No ventre do Mundo” é fruto do Prêmio Escritor Eulício Farias de Lacerda. Qual a importância de ganhar um concurso como este?

Paulo Caldas Neto – Apenas a divulgação de um trabalho. Sempre quis vencer um prêmio literário em minha terra para que pudesse expor ao público leitor a importância do autor potiguar. Sou jovem ainda. Há um longo caminho a ser trilhado, principalmente em se tratando de arte. Minha maior preocupação não é agradar à crítica, mas contribuir para a cultura de modo geral. Não é vaidade, é apenas o que gosto de fazer. Não consigo viver sem harmonia, sem o sentimento, sem o sonho. Quero produzir na área de literatura e também em outros campos da arte. Adoro teatro, música, cinema… Acho que futuramente vou escrever roteiros para o palco e letras de canções. O chato é que não sou instrumentista, e esse é mais um sonho que desejo realizar. Desde pequeno, a música me acompanha, e meu primeiro contato foi com a música instrumental e clássica. Abandonei a vontade de estudar piano (meu instrumento favorito) por influência familiar. Meus pais diziam que eu não ganharia dinheiro com esse tipo de arte. Não sei se isso é verdade. Contudo, tendo hoje a minha profissão e após ver um colega professor, Abel Silva, compositor e escritor, ser o responsável por belíssimas letras de canções como “Festa do Interior”, “Alma”, “Jura Secreta”, “Raios de Luz”, todas em parceria com grandes nomes da MPB (Morais Moreira, João Bosco, Capinam, Sueli Costa, Fagner etc.), vi a possibilidade de seguir o exemplo. Talvez, quando encerrar o meu doutorado, eu me dedique também à música.

O JORNAL DE HOJE – Fale um pouco sobre o livro?

Paulo Caldas Neto – Bom, o livro é composto no gênero textual “ensaio argumentativo”. A área desse ensaio é a Crítica literária, que é um gênero literário. Trata-se de um estudo que realizei nos tempos de minha graduação na UFRN, quando lá fui bolsista da CNPq, do Ministério de Ciência e Tecnologia. Foi um dos meus trabalhos como pesquisador. Fiz uma análise sobre o livro de poemas “Metáfrase”, do escritor e professor do departamento de Letras Márcio de Lima Dantas, que na época me incentivou a produzi-la. Sempre tive curiosidade em desenvolver pesquisas sobre objetos de estudo antes nunca ou pouco explorados. O inédito é o que dá prazer. Aventurar-me pelo desconhecido é um ato de coragem e perseverança, e essas duas sensações moram dentro de mim desde criança. Na verdade, trabalhar com a crítica literária enquanto gênero representa um ato da mais alta coragem, porque é um terreno pantanoso, onde nem sempre você encontra admiradores e é justo naquilo que julga. É complicado, porque você precisa ser imparcial o tempo todo. Um magistrado, por exemplo, sabe que tem que ser justo em um julgamento; mas sabe que também é um ser humano. Ao perceber que não está sendo imparcial por algum motivo pessoal, deve abster-se de qualquer opinião e declarar-se suspeito. Assim aconselham a lei e a doutrina. É o que tento fazer. Era o que o grande crítico Joaquim Maria Machado de Assis, o pioneiro de nossa crítica brasileira, tentava fazer.

O JORNAL DE HOJE – O leitor vai se deparar com uma obra…

Paulo Caldas Neto – Um exercício de crítica literária de um eterno aprendiz da vida e da arte.

O JORNAL DE HOJE – Quais são os escritores potiguares que você admira?

Paulo Caldas Neto – Conforme disse antes, admiro a coragem da mulher potiguar. Seu grito de expressão nas diversas áreas do saber (política, ativismo cultural, história, entre outros) nos deixou uma rica herança de aprendizado e luta. Uma tradição poética que começou com Auta de Souza, passando por Palmira Wanderley, Isabel Gondim e Nísia Floresta se perpetuou em nossa terra até os dias atuais. Isso enche meu coração de júbilo por acreditar na força da mulher. Bem merecido é que se comemore o Dia Internacional da Mulher com disposição em nosso Estado, uma vez que aqui o feminino ocupou maior destaque. Gostaria apenas de enfatizar que tal tradição lírica vem nos brindando na atualidade com novas pérolas femininas das letras potiguares. São elas: Iracema Macedo, Carmem Vasconcelos, Nivaldete Ferreira, Ana de Santana, Drika Duarte, Ada Lima, Suzana Galvão, Lisbeth Lima, Marize Castro, Maria Vilmaci Viana, Lúcia Helena Pereira, Maria Eugênia Montenegro, Cláudia Magalhães, Clotilde Tavares e outras.

O JORNAL DE HOJE – O que é preciso para ser um bom escritor?

Paulo Caldas Neto – Antes de tudo disciplina, metodismo, perseverança, humildade e a certeza de que tudo o que produzir será sempre avaliado pelo leitor. Isso me disse uma vez o escritor já falecido Celso da Silveira. Este me acrescentou também: “…deixe os críticos dizerem o que quiserem do seu trabalho. Quando você encontra valores nele, já é o suficiente para o seu crescimento literário. Mas não queira ser bom escritor depressa demais, pois em literatura não adianta pular o muro”. Nunca me esqueci dessa orientação.

O JORNAL DE HOJE – E você já tem projeto de escrever o próximo livro?

Paulo Caldas Neto – O próximo livro já está escrito. Mas só poderá ser publicado o próximo ano pela “Nave da Palavra”, editora da UBE/RN, que mencionei acima. Será um outro ensaio, mas desta vez sobre a dramaturgia do escritor paraibano Ariano Suassuna, que tive o prazer de ver rapidamente nos tempos da minha graduação na UFRN. O teatro cômico dele foi objeto de estudo de minha dissertação de mestrado, que transformei nesse ensaio. O que me despertou tamanho interesse foi o Movimento Armorial defendido por ele e outros artistas no Recife dos anos 70. Unir a Cultura Erudita à Cultura Popular, como forma de valorização desta é, sem dúvida, um projeto criativo, perseverante e fraterno. Toda a sabedoria está no povo, e as elites têm muito a aprender com ele. Voltei, ademais, a escrever um livro de poemas. Aos poucos vou escrevendo os versos, criando, esculpindo-os cautelosamente e pacientemente. Deve-se ir experimentando a poesia sem pressa. Se possível até se reescrevendo o já escrito conforme fazia Suassuna. Um exemplo foi o “Romance d’ A Pedra do Reino e o Príncipe do sangue do vai-e-volta”. Levou 12 anos para ser concluído.