Com os pés no Brasil e a alma em Cuba

TN-VIVER – 28 de Agosto de 2012

Tádzio França – Repórter

Colaborou: Cinthia Lopes

Há mais entre Cuba e Brasil do que sugere a mera localização continental. Para o cubano Felix Contreras, tudo é questão de ritmo – até mesmo no andar. O renomado poeta, jornalista, ensaísta e pesquisador está em Natal para ministrar a palestra “Poesia cubana: ontem e hoje”, nesta terça-feira, às 19h, na Academia Norte-riograndense de Letras, com entrada franca. Eterno entusiasta e defensor da Revolução Cubana, Contreras acredita que os dois países tiveram suas origens entrelaçadas pela miscigenação racial, algo que sempre o fez se sentir em casa. “Os pés no Brasil, e a alma em Cuba, sempre”, disse, entusiasmado ao reencontrar Natal.

Emanuel Amaral
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Cheio de trejeitos e bem humorado, o escritor Felix Contreras reencontra amigos Diógenes da Cunha Lima e Eduardo Gosson e relembra os tempos de O Galo

Felix Contreras conhece Natal há mais de 20 anos, desde que participou de uma semana de arte cubana promovida por aqui em 1990. “Lembro que conheci na ocasião um jornal chamado ‘O Galo’, onde vi escritores e poetas muito bons”, recorda. O primeiro contato foi dos melhores. “Tive a impressão de que estava em Cuba. Não só pelo clima e aparência da cidade, mas também pelas pessoas.

Conheci gente que cultuava orixás, do mesmo jeito que em Cuba”, diz. “Até o andar é igual”, afirmou o poeta, para logo se levantar e imitar o jeito de andar do brasileiro – solto e cheio de “ginga”, como o dos cubanos – e o andar dos argentinos, duro e marcial. O próprio senso de humor de Felix parece com o dos brasileiros. Quarta-feira pela manhã o poeta e produtor cultural fará um passeio até Ceará-Mirim, pois está ansioso para conhecer os engenhos de açúcar, bastante parecidos com os de Cuba.

A mistura de raças – sobretudo a do elemento africano – é para Felix Contreras o grande elemento entre as similaridades. “Quais os países que têm as maiores músicas do mundo? Estados Unidos, Brasil e Cuba. Por quê? Porque permitiram as maiores misturas entre as culturas negra e branca. O mesmo elemento africano que formou Cuba, também formou o Brasil. Nós temos o nosso samba, a nossa bossa…cada país soube interpretar do seu jeito”, analisa. Segundo ele, a música brasileira toca bastante em Cuba, e há muitos admiradores apaixonados dos ritmos nacional. “Eu incluo também os ritmos do Nordeste. Em mesmo sou apaixonado por ‘Asa Branca’, do Luiz Gonzaga, uma obra prima”.

BANALIZAÇÃO DA MÚSICA CUBANA
Sobre o maior sucesso musical do seu país, a orquestra Buena Vista Social Club, ele vê com ressalvas. “Abriu portas e foi importante para tornar a música cubana mais conhecida, principalmente na própria América do Sul, que não sabia nada sobre nós. Mas o Buena Vista dos anos 90 foi mais um projeto comercial do que qualquer outra coisa”, afirma. O projeto foi resultado da ação entre o guitarrista americano Ry Cooder e o músico Juan González. Felix lembra que conheceu todos os músicos mais antigos do projeto – boa parte passando dificuldades e até fome. “Hoje todos os turistas que vão à Havana querem saber do Buena Vista, mas a maioria não sabe a história da nossa música. Há muito mais que isso”, diz.

O turismo atual em Cuba, aliás, é algo que Felix vê com ainda mais reservas. “O turismo é bom para a economia, mas em alguns casos, ruim para a cultura”, afirma. Um exemplo do que ele chama de “banalização” da música moderna na ilha, é o sucesso do reggaeton – uma mistura de dancehall, hip hop, salsa e bachata, feita pelas comunidades latinas dos Estados Unidos. “É uma grande porcaria, mas é o que a juventude de Cuba gosta de escutar. A televisão divulga, é uma onda. É música banal, e a banalidade não contribui para nada”, lamenta. Para ele, a fase de ouro da música cubana foi os anos 40. O epicentro dela foi o cabaré Tropicana, que, aliás, foi aberto por um brasileiro.

AUTORES BRASILEIROS

A admiração de Felix Contreras pelo Brasil também se estende às letras. “Gosto muito do Carlos Drummond de Andrade que, provavelmente, é o poeta brasileiro mais conhecido em Cuba”, diz. E quando o assunto é prosa e romance, ele ressalta que “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa, é o livro brasileiro mais influente em terras cubanas. “O lançamento dele em Cuba teve grande impacto, contribuiu para mudar a narrativa e a linguagem do que a gente fazia, foi muito influente”, afirma. Segundo ele, o português que se aprende em Cuba é o português do Brasil, e não de Portugal. “Há gente que aprende na escola”, afirma.

VIVAS ETERNOS À REVOLUÇÃO

O poeta fala com a mesma naturalidade sobre suas posições políticas. Felix Contreras se afirma como um bom exemplo da Revolução Cubana. “Em 1959 eu tinha 20 anos, morava na rua e vendia jornal. Eu representava a juventude que não tinha livro, não sabia o que era teatro, não tinha nada. A revolução trouxe a oportunidade para as pessoas estudarem, terem uma carreira”, diz. Quando se discute a liberdade segundo o regime socialista, ele vê a questão de forma relativa. “Liberdade para quem? O senhor ou o escravo? A quem interessa? Para mim, o que importa é o caráter e a funcionalidade”, resume. Ele admite que mudanças sutis e adaptações necessárias devem ser feitas, mas sempre mantendo o espírito – e o ritmo – do povo cubano pós-Fidel Castro.

O autor veio ao Brasil em 2003 para lançar o seu primeiro livro no país, “Eu conheci Benny More” (Yo conocí a Benny Moré), pela editora Hedra, uma coletânea de artigos e depoimentos que mostram como o cantor cubano de Santa Isabel de las Lajas, Benny Moré, tornou-se um dos maiores artistas da ilha caribenha e conquistou fama internacional. O próximo livro de Contreras a ser editado no Brasil será “Bola do mundo” (pela Cosac Naify), biografia sobre vida e obra do pianista, compositor e cantor Bola de Nieve, um dos mais cultuados músicos de Cuba.

Por dentro da obra de Felix Contreras

Livros publicados:

El Fulano Tiempo (1968)

Debía Venir Alguien (1972)

Cuaderno para el que va a nacer (1978)

Corazón semejante al tuyo (1987)

Porque tienen filin (1991)

Gardelianas y Así es la rosa (1992)

La música cubana: una cuestión personal (2001)

Obras lançadas no Brasil:

Para você, para vos (poesia, de 2005)

Eu conheci Benny Moré (2012, editora Hedra). Biografia sobre o artista cubano considerado “o maior cantor popular de todos os tempos”. O livro é uma coletânea de artigos e depoimentos que mostram como o guajiro de Santa Isabel de las Lajas transformou-se no gênio musical e uma referencia na música cubana contemporânea.

Próximo lançamento no Brasil

Bola do Tempo (biografia do pianista Bola de Nieve). Sairá pela Cosac Naify, no começo de 2013. Biografia sobre o pianista e cantor Bola de Nieve, músico de personalidade festiva e cultuado pela América hispânica de seu tempo.

OUTRAS CONEXÕES

Tradução do poema de Contreras “Carta a Los Hijos” no livro “A Torre Azul”, de Horácio Paiva. Obra será lançada quinta, na Academia Norteriograndense de Letras.

“Carta a Los Hijos”

(Carta aos Filhos/Poema: Félix Contreras. Tradução: Horário Paiva)

“Escrevo-lhes, filhos,

para que não afastem de mim

tão depressa a infância que lhes dei.

Preciosos hóspedes de minhas manhãs, venham todos os dias

aos recantos paternos de

minha alma

e às esquecidas venturas.

Eu, que fui criança agonizando

diante da aurora,

eu, o filho

daquele pai senhor da angústia.

Filhos que apartam o sal das feridas,

sigam enchendo de alegria

este coração de sonhos.”

Serviço: Palestra “Poesia cubana: ontem e hoje”. Terça, às 19h, na ANL (Rua Mipibu, 443, Petrópolis).