COMO VOAM OS ANJOS

Quando eu me matar,
O que será do meu cãozinho proletário?
E os da Vila de Ponta Negra,
Com suas rabugens crônicas?
Deles só espero a morte
Num pneu de ônibus,
Ou num bolinho de carne com vidro moído.

Quanto a mim,
Partirei com a branda asfixia do cânhamo
A aplacar minha agonia de viver.

Quando eu me libertar,
Não terei mais amor nem ódio
Perdido na amplidão.
A morte sublima a liberdade.
Ah! Quanta inveja dos cães vadios
E da liberdade deles.
Quanto invejo!

POEMA DO MAR

Urge a noite avance,
Dissipe esse resquício de dor;
Antes que eu esmoreça
Nessa solidão de faroleiro.
A minha luz te distingue
Das outras embarcações;
Direciona-te para algum porto seguro
Mesmo que seja além-mar, além mim.
Acima dos cúmplices sinais,
Penso em tágides imaginárias
E em náufragos – Cruzoés
Da última terra à vista.
Mas a tua alabastrina imagem
Ainda me parece vento brando,
Que me esculpe e me imortaliza
Tal qual imagem sagrada.

MIRAGEM

Sertão
Ser tão grande ócio
Do Seridó ao umbigo
Tal qual jazigo sonhado
Por macambiras e bichos-preguiça

Entre Caicó e o infinito
É tudo tão tamanha sina
Que alucina o errante argonauta

Da rasa caatinga
Brotam messiânicas esperanças
Sob céu purpúreo de lirismo

Sertão
Ser tao de grande vereda
Onde convivem humanas catervas
E rebanhos nutridos de indigência
Na vã esperança de escaparem do abate