Bené Chaves

                                     

                                              

     Discorrendo situações de debates exemplares sobre assuntos outros, diríamos que, embora seja ‘a amizade uma coisa doce, bela e sagrada, o único dom certo que possuímos neste mundo duvidoso’ (Epicuro), e sabendo que ‘o máximo que se pode atingir na vida não é o dinheiro, nem o poder, mas a honra, o amor, a certeza de ter vivido utilmente’ (Schlesinger), como somos também conscientes da inteligente frase de Sófocles de que ‘só o tempo pode revelar-nos um homem bom, o perverso pode ser conhecido apenas em um dia’, vivemos, infelizmente, numa sociedade falsa, gananciosa, má, egoísta e, sobretudo, hipócrita.

                                                     

     Jean-Paul Sartre, filósofo francês, dizia contraído que ‘quando se vive, não sucede nada. Os cenários mudam, as pessoas entram e saem; é tudo. Nunca há princípios, os dias sucedem aos dias, sem tom nem som; é um alinhamento interminável e monótono’, muito embora o escritor americano Henry Miller tivesse sua própria visão e feito uma apologia de vida descontraída, quando afirma peremptório ‘a maravilha de simplesmente respirar com naturalidade, jamais se apressar, jamais ir a parte alguma, jamais fazer algo importante - exceto viver’, complementando sua filosofia de vida e dizendo em alto e bom som que ‘quando a dor desaparece, a vida parece formidável, mesmo sem dinheiro, amigos ou grandes ambições’ .

 

 Existem também aqueles que são egocêntricos, vaidosos, gananciosos, orgulhosos, os que pensam serem os donos da verdade. E aí então chega o célebre Santo Agostinho e vaticina veemente: ‘há pessoas que se apegam à sua opinião, não porque seja verdadeira, mas porque é sua’.

     Não é uma máxima formidável e sempre atual?                                      Quantas pessoas ainda assim neste mundo de poucos risos, falsos risos e de muitas lágrimas!...

 

     E aqueles que falam demais, tagarelam, inventam, reinventam, distribuem fofocas, boatos, etc.? Baltazar Gracián, teólogo e prosador espanhol do século XVII, após analisar caso a caso, disse com sabedoria que ‘devemos falar como nos testamentos: quanto menos palavra, menos questões’, dando ensejo para o não menos brilhante aforismo conceituoso do poeta e escritor italiano Ugo Fóscolo completar que ‘uma parte dos homens procede sem pensar e a outra pensa sem proceder’. Aliás, o dramaturgo e poeta inglês William Shakespeare dizia que ‘os homens de poucas palavras são os melhores’. 

 

     Já o filósofo e teórico político suíço Jean-Jacques Rousseau, nas suas experiências na república calvinista de Genebra, chegou a uma fundamental conclusão de que ‘quando um povo é ‘representado’ por deputados, ele se torna alienado de sua própria unidade coletiva e desse modo deixa de ser um povo’. E acrescenta: ‘O povo, por ele próprio, quer sempre o bem, mas, por ele próprio, nem sempre o conhece’, inclusive porque ‘a natureza fez o homem feliz e bom, mas a sociedade deprava-o e torna-o miserável’.

    Olhaí congressistas e corpos sociais do mundo inteiro! O que dizer de tão sábias e inteligentes afirmações? O célebre homem sabia das coisas. O povo que se cuide, o povo que se cuide...

 

    E assim vamos vivendo, morrendo, vivendo, até que ‘o tempo, que tudo transforma, transforma também o nosso temperamento. Cada idade tem os seus prazeres, o seu espírito e os seus hábitos’, dizia o poeta e crítico francês Nicolas Boileau, porque ‘ao nascermos, a terra recebe-nos; nascidos ela nos alimenta; depois de mortos, acolhe-nos’, já finalizava o grande escritor e historiador romano Plínio.

 

   O polêmico cineasta Pier Paolo Pasolini, autor de filmes importantes como Teorema, O Evangelho segundo São Mateus e Decameron, dizia - falando acerca de um possível anonimato de autores vivos - que “enquanto um homem não morre não se sabe bem o que ele fez”. E é uma frase que desperta vivo interesse, principalmente quando se sabe de sua autenticidade e atualidade. Pois existe muita gente boa viva por aí, mas que fica sempre no esquecimento. Um dia, talvez, quando for embora, pode ser reconhecida.     

 

   Daí, portanto, ficarmos sempre presos por algo controlável, nunca somos verdadeiramente livres, a não ser que sejamos sonhadores e adotemos a sentença do músico alemão Joachim Witt: “Vivo sempre em liberdade, mesmo se apenas em sonho”.  E do mesmo modo celebrar o escritor francês  Anatole France(1844/1924) com a sua máxima: “Sim, o sonho! Sim, a quimera! Sim, a ilusão! ... Dos sonhos generosos nascem as realidades benéficas”.  

 

Bené Chaves é autor, entre outros,     do livro ‘Cinzas ao amanhecer’.