NOVO CONTO DE BENÉ CHAVES

 

                                                              Bené Chaves

          

        Saudável era ouvir o vaqueiro flagrar, narrar as acontecências do dia-a-dia. Sobre a sorte de um indivíduo ser ou não abastado, falava: ‘quem tem de ter tem que se dana; e quem não tem de ter se dana e não tem’. Eram as fantásticas criações daquele homem fiel aos cuidados da fazenda.
                 Histórias do sertão, da cidade, do sol e da lua. Histórias de um mar que não existia. E o sofrimento vivido na carne, a seca braba dos lugarejos, a vida de amarguras de um povo. Era um sujeito querendo aprender e apreender.
                Dizia ele, a Painhô, que a maioria trabalha e luta para a minoria saborear. E isso decididamente não estava certo. Contava tudo na simplicidade e candura que lhe eram peculiares. Misturava realidade versus ficção. Desabafava também: ‘o homem humilde é honesto na maioria das vezes. Cadê que eu tenho alguma coisa? Sou místico, religioso, mantenho fidelidade nos atos. Não tive meios para a instrução, mas sei de algumas safadezas...’.
               Ele, meu filho, continuou Painhô, exibia idéias exóticas, no entendimento de seu avô. Mas eram constrangimentos que saíam de uma vida atribulada, sem lazer nenhum. O único prazer que tinha era uma ruma de meninos pra criar. E como não podia ter controle para evitá-los, a casa ia se entupindo ano a ano.
              Sempre servil, a mulher chegava à noite e dizia: ‘vai precisar d'eu hoje, homem?’. Mas, cansado do trabalho, ele apenas respondia: ‘hoje não, mulher’. E ela, aliviada um pouco, comentava: ‘então vou lavar somente o pé’.

               Via-se, com isso, que não era uma pessoa que gostasse de muito asseio. Só quando ia satisfazer seu marido. E alimentá-lo de um sexo seco e bruto.
              Certa vez, filho, ele me contou uma estória comovente:

          Na época dos festejos natalinos apareceu um vistoso homem numa suposta comunidade. Então o dito sujeito olhou ao redor e viu verdadeiras aberrações. Crianças pobres comendo barro na lama e aquelas barrigas inchadas de vermes. E, de um outro lado, meninos ricos brincando em suntuosas casas com belos presentes.
            Eram, obviamente, famílias tristes x famílias alegres, pobreza x riqueza. Faces literalmente opostas.

           Portanto, ele perguntou pra si mesmo: ‘mas, o mundo não pertence a todos nós?’. E realizou um sonho na sua imaginação, tentando abreviar tal ocorrência calamitosa. A súbita transformação no utópico e alegórico aliviou a sua mente. Ele então pulou de felicidade. Era, lógico, a inocência falsa e quimérica de invencionices com o sabor de verdade.
           Do quarto avistei a lua perto da janela, disse meu pai. Gupiara tornava-se pródiga em noites assim, pena que a ‘bola de encher’ subisse rápido, não ensejando maiores apreciações. Ficou, então, deste tamanhinho, um tico de nada no céu. E depois uma vasta nuvem cobriu nossos desejos.
          As estrelas, os morros, o satélite. A cidadezinha lançou sua última visão. Mainhô e Tia Chica ressonavam. Eu idem, ainda na barriga de minha mãe, ufa! Painhô fechou a porta e Gupiara fechara nova noite.

           De manhã cedinho o vaqueiro abriria o curral. E com suas loas e proas de antanho cantava baixinho agarrado aos peitos da velha e fiel vaca. Então o leite gostoso espumava naquele cerradão de incertezas, no madrugadinho da madrugada, o sol ainda escondido para alumiá-lo de um cerzido amanhecer de esperanças.