Quando a noite se faz longa…

Clauder Arcanjo

Ao ver que tudo se encerra,
Nas dobradiças rangidas do entardecer,
Fecho meus escritos.
Paredes banguelas de metáforas,
Recolho palavras retintas,
Tentativas bissextas de um soneto
Ainda arisco à minha vida alexandrina.

 

Enveredei num haicai,
Caí na vala da mesmice.
Enamorei uma balada,
Fiquei de pé quebrado.
Testamento-de-judas. Sandice!
E, quando uma augusta rima

Despontava no céu das minhas odes…
A noite se fez pungente, a jogar seu véu
Sobre as estrofes dos meus acordes.

 

Pobre de mim!
Quando a noite se fez mais longa,
Recolhi-me: sem prosa,
Sem poesia, dentro duma madrugada
Que parecia ter fome de tisna.

Mas, dizem-me: Tudo se encerra!
Certeza-paz dos incautos sísifos,
Cadinho de esperança que, ao nos bastar,
Faz-nos suportar um ir-e-vir tão longo assim.


Sonata de profundezas


Sob a agonia da manhã,
inventei afagos,
iludi-me e cosi quimeras,
banhei-me no sal das notas, e
arranquei tímidos arpejos de luz.

 

Quando a tarde chegou
com os seus sortilégios,
encontrou-me bufão,
palhaço de cansadas ilusões.
Cobri-me com o calor dos instrumentos,
partituras de solitude e saudade, e
exigi as serenatas de Prometeu.

 

A noite, todavia, chegou impiedosa
com a sua mortalha de silêncios,
a declarar, rabugenta, queixumes e sandices.
Vi-me, então, no calvário iniludível das horas.
Resolvi, sereno, desistir e entregar-me.
Navegaria nessa sonata de profundezas.


Obras e acaso

A melhor obra minha
é filha-irmã do acaso.
Da frouxidão do laço
sem rumo, da passada
sem norte, do amor
sem sorte, consorte.
O melhor acaso meu
é filho-primo da obra.
Disposto no mosaico

despretensioso, modesto…
Lapidado na undécima hora.
Obras e acaso, irmanados,
constroem-me, outorga do fado.