PERSONA

Aquele casebre, lá no alto,
continha algo mais.
Não era apenas a passagem
do tempo de cada vivente,
Aglutinado em suas paredes
ou seus quadros.
Era como um sorriso seu,
Próprio, independente,
De quem protegia com satisfação.

MISTÉRIO

Mas o que é a vida sem amor?
Qual é este fascínio
Que nos empurra ao sentimento?
Que mistério nos afasta
Da mera sucessão de um tempo contínuo
E nos arrasta a viver paixões e tormentos?
O que há de comum
Entre Paz e Amor
Se ambos somente importam
Na existência do conflito?
Foi aí que disse o velhinho, sem pestanejar:
“- O Mistério, meu filho,
é exatamente este.
Amar e Querer a Paz
São coisas fáceis demais,
O exercício maior
É sabê-los.
Saber Amar.
Saber Manter a Paz.
Este exercício, nunca se faz.”

VÔO

Tu sabes o que é o desperndimento?
É como a reconstrução às avessas.

Embora tu meças e meças
O teu sentimento
A tua virtude e a tua saudade
Da origem,
Te impregnas da ilusão de lá viver

Na realidade de estares aqui,
No teu lugar – lugar em que vives -,
Vertigem que te concede a verdade.

E desprendendo-te, te prendes
Á reconstrução do novo que é teu,
Do onde estás do teu povo
- o povo em que tu vives -,
do teu lar – o povo em que tu ames – .

E aí, quando tuas raízes se completam,
Te desprendes por completo
E voas.