Ponteio

Nas cordas desta viola,

da trova, faço canção,

da canção, faço gaiola

pra prender teu coração.

Recife, 1972

Alinhavo

Ah, as mulheres…

Como não vê-las

como novelos

de trama atroz?

Indecifráveis,

mas adoráveis;

enrosco terno

dentro de nós.

Tecer eterno

de amarradios,

viscosos fios,

doce retrós.

Cerzido inferno

de teias fêmeas

e queixas gêmeas

de antes e após.

Ah, linha tênue,

nó de amargura

que nos costura

juntos, mas sós…

Natal, 1984

DO AMOR QUE PASSA

Receba, nesta flor, minha proposta
que, parecendo tímida, é insistente.
Daquelas fantasias que mais gosta,
pretendo partilhar, discretamente…

Mais que sorriso, espero por resposta,
aquele suspirar que, então, pressente
cada arrepio, quando alguém lhe encosta,
na morna flor do corpo, um beijo ardente.

Mas, além da paixão, não queira laços
de saudade ou remorso e, sem dilema,
esqueça a flor, os versos, os abraços…

E aceite, assim sem juras, este amor
que apenas dura, intenso qual poema,
enquanto passa, frágil como flor.

Natal, 1963

Poemeto em Branco e Preto

Para Ruthe

(15anos)

Negrume nas asas,

voar veludoso

e olhar que me unge

de antigas ternuras

a imaginação:

um meigo anjo grunge,

sorrindo amarguras,

pousou descuidoso

no meu coração.

Maxaranguape, 1989

Do Amor Que Fica

Existe em minha vida um anjo ledo

que, me tomando as mãos, me tira o medo,

pois sabe decifrar os meus olhares.

Sorri paciente, escuta meus calares,

me adivinhando queixas e segredos;

abranda, com voz sábia, meus penares.

Feliz por me saciar cada desejo,

divide meu anseio em seu abraço,

afaga meu sonhar e meu cansaço,

guiando-me às saídas que não vejo.

Assim, sempre comigo a cada ensejo

da vida,  esperançoso ou vencedor,

merece que eu repita, a cada beijo,

a grata afirmação do meu amor.

Natal, 1997