CHUVA DE VERÃO

Chove!

As curvas e as saliências do asfalto molhado

me fazem lembrar a geografia do teu corpo,

tão pouco explorado, antigamente!

Ainda chove!

os carros e os guarda-chuvas,

como se produzissem lágrimas,

seguem por ruas estreitas e compridas,

tentando proteger aqueles, cujos sonhos,

já se encontram, irremediavelmente, alagados!

Está parando a chuva!

A timidez do sol contrasta com a violência da água

no canto das calçadas, a arrastar,

indiferente como tu,

as paqueninas coisas do caminho!

E eu,

enquanto os pingos morrem pelo chão,

reflito sobre a solidão de ti;

sobre o tempo – esse ladrão de anos e de amores –

e sinto uma vontade imensa

de navegar teus mares, outra vez!

Já não há mais chuva pela rua,

entretanto, ainda chove,

torrencialmente, dentro de mim!

Ozório Ferreira do Lago

FOLHAS CAÍDAS

Com a fragilidade de instantâneas bolhas,

tu pensastes em compartilhar as nossas vidas,

entretanto, esse teu amor de caídas folhas,

apodreceu, no chão, como folhas caídas!

Com o desencanto dos anjos decaídos,

que ouvem músicas de desafinados banjos,

os sonhos que desenvolvi, tão destruídos,

eu percebi, tal qual, os decaídos anjos!

Entrementes, somente eu sinto, tu não sentes,

que a infecundidade dessas sementes mortas,

transformou o viço teu, nessas mortas sementes!

Tratando bem as chagas de certeiras setas,

na vida, seguirás fechando certas portas,

seguirei, na vida, fechando as portas certas!

Ozório Ferreira do Lago