OS OLHOS DE DULCE

Um quê de estranho, forte e penetrante,

Há n’este olhar que as almas dilacera;

Tem um olhar de domador de fera,

Esta formosa e pálida bacante.

Quando ela passa, rindo, triunfante,

Murmuram todos: “ ri-se a Primavera!…”

Um colibri suspira: “ ai! Quem me dera

Beijar-lhe o róseo lábio provocante!”

Astros malditos, de lampejos vagos,

Têm os seus olhos chamas diamantinas

E ao mesmo tempo sensuais afagos…

Como eles matam! Dulce, a que destinas

Estes dois negros, traiçoeiros lagos,

Esta duas estrelas assassinas?

(Ruínas/1899)

FEBRE

Por toda parte rosas brancas vejo…

Rosas na fímbria dos Altares,

Coroadas de amor e de desejo…

Rosas no céu e rosas nos pomares.

Uma roseira o mês de Maio. Aos pares

Surgem, da brisa ao tremulante arpejo,

Estrelas que recordam, sobre os mares,

Rosas envoltas n’um cerúleo beijo.

E quando Rosa, em cujo nome chora

Esta febre cruel que me devora,

De si me fala, em gargalhadas francas,

Muda-se em rosa a flor de meus martírios,

O som de sua voz, a luz dos círios…

O próprio Azul desfaz-se em rosas brancas.

(vibrações/1903)