TEATROS

O conto é sobre os grafitos no tablado

Onde uma letra de um metro se aboleta,

E à noite convidam das tabuletas

as pupilas dos anúncios pintalgados.

O automóvel pinta os lábios brancos

da mulher desbotada de Carrière;

dois fox-terriers em chamas arrancam

peliças dos passantes na carreira.

E assim que uma pêra furtaluz

rasgou na sombra as lanças dos ataques,

sobre os ramos das frisas com flores de pelúcia

dependuraram-se pesadamente os fraques.

1913

(Tradução de Augusto de Campos)

EU

Nas calçadas pisadas

De minha alma

Passadas de loucos estalam

Calcâneo de frases ásperas

Onde

Forcas

Esganam cidades

E em nós de nuvens coagulam

Pescoços de torres

Oblíquas

Soluçando eu avanço por vias que se encruz

Ilham

À vista

De cruci-

Fixos

Polícias

1913

( Tradução de Haroldo de campos)

NÃO ENTENDEM NADA

Entrei na barbearia e disse, sem espera:

“Por gentileza, pentei-me as orelhas.”

O meloso barbeiro ficou cheio de abelhas,

seu rosto se alongou como uma pêra.

“ Mentecapto!

Palhaço!” –

Saltaram as palavras.

Insultos relincharam pelo espaço,

e l-o-o-o-o-ngamente

ouviu-se o rinchavelho

de uma cabeça que brotou por entre a gente

como um rabanete velho.

1913

(Tradução de Augusto de Campos)

ALGO EM PETERSBURGO

As calhas colhem lágrimas do teto,

no braço do rio riscam um grafito;

nos lábios bambos do céu inquieto

cravaram-se mamilos de granito.

O céu – agora calmo – ficou claro:

lá, onde prateia o prato do mar, o

úmido condutor, a passo lento, leva

o camelo de duas corcovas do rio Neva.

1913

(Tradução de Augusto de Campos)