NICANOR E SEU CAVALO

Nunca vi ninguém olhar

com tal ternura um cavalo

e um cavalo navegar

nos seus olhos, desviá-lo

para dentro, onde é mar

e o mar, apenas cavalo.

Nunca vi ninguém olhar

nicanor naqueles olhos

que pareciam findar

onde os espaços se foram.

Nicanor sabia olhar

sem o menor intervalo

como lhe fosse apanhar

a toda brida, os andares.

E se podiam falar

num trote pequeno ou largo,

com rédea de muito amparo,

o corpo estando a montar

a eternidade cavalo.

NOSSA SABEDORIA É A DOS RIOS

Nossa sabedoria é a dos rios.

Não temos outra.

Persistir. Ir com os rios,

onda a onda.

Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.

Intactos passaremos sob a correnteza

feita por nós e o nosso desespero.

Passaremos límpidos.

E nos moveremos,

rio dentro do rio,

corpo dentro do corpo,

como antigos veleiros.

BEM-AVENTURANÇAS

Bem-aventurados os pássaros,

as nuvens, as madrugadas.

Bem-aventurados são os pássaros.

Para ele

todos os dias

são todos os dias.

Reais, antigos, tutelares.

Nós, coitados,

não sabemos

que fazer deles.

Queremos os dias

limpos, arrumados

com cadeiras.

Felizes os pássaros.

O mar é um animal feliz

e as coisas imaginadas

ali existem.

Bem-aventurados são os pássaros:

não pensam em liberdade

porque voam nela

sem idade.

Nós, coitados,

nem sabemos

que fazer dela.