TARDE

Na hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas

Meu espírito te sentiu.

Ele te sentiu imensamente triste

Imensamente sem Deus

Na tragédia da carne desfeita.

Ele te quis, hora sem tempo

Porque tu eras imagem, sem Deus e sem tempo.

Ele te amou

E te plasmou na visão da manhã e do dia

Na visão de todas as horas

Ó hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas.

SONETO DE VÉSPERA

Quando chegares e eu te vir chorando

De tanto te esperar, que te direi?

E da angústia de amar-te, te esperando

Reencontrada, como te amarei?

Que beijo teu de lágrimas terei

Para esquecer o que vivi lembrando

E que farei da antiga mágoa quando

Não puder te dizer porque chorei?

Como ocultar a sombra em mim suspensa

Pelo martírio da memória  imensa

Que a distância criou – fria de vida

Imagem tua que eu compus serena

Atenta ao meu apelo e à minha pena

E que quisera nunca mais persista…

BALADA DAS MENINAS DE BICICLETA

Meninas de bicicleta

Que fagueiras pedalais

Quero ser vosso poeta!

Ó transitórias estátuas

Esfuziantes de azul

Louras com peles mulatas

Princesas da zona sul:

As vossas jovens figuras

Retesadas nos selins

Me prendem, com seres puras

Em redondinhas afins.

Que lindas são vossas quilhas

Quando as praias abordais!

E as nervosas pantorrilhas

Na rotação dos pedais:

Que douradas maravilhas!

Bicicletai, meninada

Aos ventos do Arpoador

Solta a flâmula agitada

Das cabeleiras em flor

Uma correndo à gandaia

Outra com jeito de séria

Mostrando as pernas sem saia

Feitas da mesma matéria.

Permanecei! vós que sois

O que o mundo não tem mais

Juventude de maiôs

Sobre máquinas da paz

Enxames de namoradas

Ao sol de Copacabana

Centauresas transpiradas

Que o leque do mar abana!

A vós o canto que inflama

Os meus trint’anos, meninas

Velozes massas em chama

Explodindo em vitaminas.

Bem haja a vossa saúde

À humanidade inquieta

Vós cuja ardente virtude

Preservais muito amiúde

Com um selim de bicicleta

Vós que levais tantas raças

Nos corpos firmes e crus:

Meninas, soltai as alças

Bicicletai seios nus!

No vosso rastro persiste

O mesmo eterno poeta

Um poeta – essa coisa triste

Escravizada à beleza

Que em vosso rastro persiste

Levando a sua tristeza

No quadro da bicicleta.