Trovas

As frutas que recebi

De tuas mãos milagrosas,

O amor mudou, por milagre,

Num ramalhete de rosas.

Um passarinho no laço

Prendi com satisfação…

Qualquer dia estou prendendo

Teu amor na minha mão.

Outro dia, meu amigo,

Um rico mimo de dei

Peço agora que me voltes

O beijo que mandei.                                                         ( Roseira brava/1929)

Alecrim

 

É Verde, é todo verde como o sonho

Que faz verde a minha alma.

Parece que Jesus entrou, lá no alecrim,

Levando no ombro  a palma.

Num domingo de ramos,

E verde ele prospera

Como se fose o recanto

Da fada da primavera…

E cheira! Cheira tanto!

Mais cheirosa não há, nem mais ameno,

Recende a malva-rosa,a macassar,

A cravo branco aberto no sereno,

Na panela de barro,

Na beirada da casa.

Cheira mesmo a alecrim bento,

A alecrim da paixão,

Que enfeita na quaresma o bom Jesus dos passos,

No andar da procissão.

É o bairro do samba, da folia,

Das adivinhações e da magia,

Das promessas de fitas,

Dos fandangos, dos leilões…

E das velhas latadas de maracujá,

Das modinhas antigas,

Cantadas nos terreiro lá de cima,

Ao som dos violões de acorde certo…

Das saudosas lapinhas de Itajubá,

Das serenatas de Deolindo Lima,

Das morenas formosas de Gotardo Neto

Do par de namorados,

Conversando encostados,

Nas cercas de melão cheias de flor,

Entre beijos furtados

E promessas de amor…                                           ( Roseira brava e outros versos/1965)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nordeste

 

 

Que mais feliz  o  teu destino fosse,

Do que sujeito ao sol que te consome,

Pedes na seca a esmola de água doce

E um pedaço de pão porque tens fome.

Sumiu-se a voz do boiadeiro,mudo.

Secaram as fontes que aleitavam o rio.

No desespero de quem perde tudo

Fecha a porteira do curral vazio.

Teus lábios racham, ao travo das raízes.

Carregas o destino de infelizes,

Resgando os ombros nus,nos espinheiros…

Encanto arquejas, maltratado, langue

A terra tísica vai golfando sangue,

Pela boca vermelha dos cardeiros.                          ( Roseira brava e outros/ 1965)