SONETO DA VIAGEM IMPOSSÍVEL

O cais frustou implacavelmente

todo o meu desejo de partir

tristeza cúmplice do poente

eu sinto impulsos de deliquir.

Material brisa sempre presente

sonho impossível de ressurgir

estrela Vésper Lua-Crescente

delírio náutico a se extinguir.

Gastei as horas da noite longa

curvado ao mapa a traçar roteiros

desesperados para os veleiros.

E pela vida que se prolonga

sorvo ar salgado sonho cruzeiros

entre fantasmas de marinheiros.

( O vagonauta/ 1969)

A AFONSO TANIDON DE BARROS

Os fantasmas desfilam nas calçadas

erguendo sobre as mãos o tempo morto

resquício de um outrora inda insepulto

transportado em galeras flamejantes.

O sol dardeja atrás do mangue esquálido

encardidas pirâmides de sal

destroços de moinhos na planície

sem préstimo na praia as alvarengas.

O rio agonizando entre as coroas

nem apitos de barcos nem miragens

canto fúnebre ecoando nas salinas.

Garças emigram, fogem andorinhas.

É preciso partir antes que a noite

povoe todas as ruas de cadáveres.

( Aurora trucidada / 1985)