A MORTE DOS SÍMBOLOS

demônios tigres punhais

serpentes enforcados corvos

espelho labirinto mandalas

livros caixas relógios mapas

chaves números mágicos

duplo metamorfoses monstros

vamos destruir a máquina das metáforas?

OLHO DE VIDRO

o inconsciente

não existe

só o pequeno demônio do perverso

é que persiste

CRIMES PARALELOS E TEXTOS

Em 1836 França

O chamado Pierre rivière

Degolou mãe irmã e irmão menor

Os saberes institucionais

Entraram em contradição

140 anos depois um filósofo

descobriu o texto assassinato

um crime explicado pelo texto

um texto explicado pelo crime

em 1980 méier

jovem médica liquidou a tiros

pai irmã menor e matou-se

tiro no ouvido

o revólver cabo de madrepérolas

fora fabricado pelo pai

não deixou explicações

não houve mais notícias

mas o crime não deixa de ser um texto

O ESPIÃO DA VIDA

dis-

penso

a minha vida dos outros

sou o intermediário

entre mim

e os  buracos negros

i. é

a antiphysis do universo

BIOGRAFIA DE UMA IDÉIA

ao fascínio do poeta pela palavra

só iguala o da víbora pela sua presa

as idéias são/não são o forte dos poetas

idéias-dentes que mordem e se remordem:

os poemas são o remorso  dos códigos e/ou

a poesia é o perfeito vazio absoluto

os poemas são ecos de uma cisterna sem fundo ou

erupção sem larva e ejaculação sem esperma

ou canhão que detonam em silêncio:

as palavras são denotações do nada ou

serpentes que mordem a sua própria cauda

EM OFF

Post-mortem

Sem mensagem

Sem memória

Sem memória

Sem ante

Sem pós

Com o

Miro a

Metade

Vivo o

Ver-me

1986