CASAMENTO

Há mulheres que dizem:

Meu marido, se quiser pescar, pesque,

Mas que limpe os peixes.

Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,

ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.

É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,

de vez em quando os cotovelos se esbarram,

ele fala coisas como ‘este foi difícil’

‘prateou no ar dando rabanadas’

e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez

atravessa a cozinha como um rio profundo.

Por fim, os peixes na travessa,

vamos dormir.

Coisas prateadas espocam:

Somos noivo e noiva.

BRANCO

É no sonho que voltam para dar testemunho,

insistente e fustigados,

batidos de halo e nimbo, uma legenda só:

[pungência pura.]

O que sempre falam as palavras não dizem.

Sustidos no alto clima de claridade e pedras,

sol sobre tufos verdes e areia, vento desencadeado,

os fixos olhos dos que viram Deus avisam.

Misericordiosos e imóveis.