André Valério Sales

A “pequenina Arez”, cidade do Rio Grande do Norte, é “doce, silenciosa, acolhedora, com seu ar amável de estação de cura” (Câmara Cascudo, 1946).

O objetivo desse texto é tratar de algumas questões acerca do desenvolvimento econômico e turístico do município de Arez/RN, geradas após a leitura de um artigo do pequeno jornal RN em Foco, editado em Parnamirim, publicado em novembro de 2009. Nesse escrito, intitulado “Arez em Foco”, o jornalista Silvio Menezes, um amigo que admiro muito, coloca nossa cidade em evidência, porém, infelizmente, de maneira depreciativa.
De início, esclareço que conhecemos dois lugares que possuem o nome de Arez, ambos escritos exatamente da mesma forma:
1)
Existe o povoado de Arez situado em Portugal, fazendo parte do município de Nisa, no Distrito de Portalegre (Alto Alentejo). Com apenas cerca de 360 habitantes, a Arez lusitana é apenas uma “freguesia” de Nisa. O mais antigo documento histórico conhecido a citar o nome daquele povoado, o Foral de Marvão – datado de 1226 –, demonstra que o topônimo era então escrito como sendo Ares, com a letra /s/ no final.
2)
E há também, aqui no Brasil, um município que desde 1760 foi denominado Arez, numa homenagem prestada àquela pequenina freguesia lusitana por ordem do Marquês de Pombal; localizado no litoral sul do estado do Rio Grande do Norte, possui cerca de 12.700 habitantes. Por estar distante da principal rodovia federal que lhe dá acesso, a BR-101, e por ser um pouco afastada das magníficas praias de nosso litoral, a Arez potiguar sempre teve um lento desenvolvimento econômico e turístico, com seu ritmo próprio e incomparável aos demais municípios vizinhos, como, por exemplo: Tibau do Sul, que é privilegiado por ser detentor de belas e famosas praias; e São José de Mipibu, que está às margens da BR-101 e tem uma população quatro vezes maior que a de Arez.
É sobre essas questões, e envolvendo nossa Arez potiguar, que trata o referido artigo de Silvio Meneses. Este autor já inicia seu texto, “Arez em Foco”, afirmando, de modo depreciativo, que a “Cidade tornou-se uma ilha de atraso”. Portanto, logo nas primeiras linhas de seu confuso escrito, Menezes (2009: 13) já principia a incorrer em contradição, como analisaremos adiante, quando declara que, para ele, Arez “parou no tempo”. Há que se lembrar, no entanto, que Menezes não é morador do lugar, nem conhecedor de nossa História local. Faço agora alguns questionamentos sobre o referido documento.

1. Questões acerca do artigo de Silvio Menezes:

I-) Menezes já se contradiz logo de início, confundindo o leitor, quando comenta que Arez é “uma Ilha de Atraso” e, logo após, afirma que Arez “parou no tempo”.
O leitor começa então a desconfiar da competência literária do escritor em questão: Arez é “uma ilha de atraso”, é carente, passa por privações, ou a cidade simplesmente parou? Ou seja, há uma diferença enorme entre você dizer, por exemplo, que uma pessoa está parada, ou dizer que ela está apenas atrasada! Portanto, não dá para entender, com clareza – como exigiria o grande Michel de Montaigne –, o que Silvio Menezes, na verdade, quer dizer: Arez seria então uma cidade atrasada, em relação aos municípios vizinhos, ou parada no tempo?
II-)
Continuando a leitura, Menezes pretende – sem conseguir seu intento – fazer uma comparação impossível: ele quer comparar o desenvolvimento econômico e turístico de Arez, que possui o seu ritmo próprio (e único), com o dos municípios vizinhos, quando diz que “Arez não se desenvolve como as cidades circunvizinhas”.
É óbvio que não se pode comparar a marcha do turismo em Arez, um lugar sem o atrativo turístico das praias, com a cidade vizinha de Tibau do Sul, que tem seu turismo desenvolvido basicamente por causa de suas praias conhecidas internacionalmente, como a famosa Praia de Pipa. Ou seja, é impossível querer comparar, por exemplo, o atrativo turístico da Ilha dos Flamengos, localizada na Lagoa de Guaraíras, em Arez, que teve sua importância na História do “Brasil Holandês” (1630-1654), e que é situada numa região de manguezais, com a atração turística exercida pela amplamente conhecida Praia de Pipa.
Da mesma forma, não se pode comparar Arez, em termos de desenvolvimento econômico, uma cidade que possui 12.723 habitantes (IBGE/2010), com o município “circunvizinho” de São José de Mipibu, cuja população é de quase 40 mil habitantes (IBGE/2010), nem com a cidade de Goianinha, outra vizinha nossa, com seus mais de 20 mil habitantes (IBGE/2010), pois essas duas cidades, apenas para dar um exemplo, além de serem beneficiadas com sua localização privilegiada, junto à BR-101, têm uma arrecadação de ICMS bastante superior à de Arez, e também recebem cotas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) bem maiores que as nossas.
Prosseguindo nessas suas comparações sem fundamento, Silvio Menezes critica o “não desenvolvimento” de Arez, buscando claramente depreciar nosso município, ao constatar que em Arez “não existe uma agência bancária, uma pousada ou hotel no centro da cidade, restaurante ou churrascaria de um bom porte”. Quais seriam as explicações para isto?
Câmara Cascudo já escreveu (no jornal A República, de 22/03/1946) que Arez era uma cidade “pequenina”, mas que também era “doce, silenciosa, acolhedora, com seu ar amável de estação de cura”… Sendo assim, neste ponto de suas críticas Menezes comete então mais uma falha, demonstrando seu desconhecimento sobre o município de Arez, quando reclama da falta de Agências Bancárias e de Hotéis, Restaurantes ou Churrascarias de “bom porte” nessa pequenina cidade.
É verdade que existe em Arez, no centro da cidade, um caixa eletrônico do Bradesco e outro do Banco do Brasil, além de haver o atendimento completo do Bradesco na loja dos Correios. No entanto, como alguém iria cometer a insanidade de investir seu capital na construção de Hotéis, Restaurantes ou Churrascarias de “bom porte” na “pequenina Arez”, se não existe aqui, até hoje, demanda para isso? Já que estamos tratando de pequenas cidades do litoral do Nordeste, pergunto então ao senhor Meneses: você não acha que Hotéis, Restaurantes ou Churrascarias de “bom porte” são empreitadas mais lucrativas se forem localizadas nas metrópoles, ou em cidades de médio porte? Ou ainda: em terrenos situados às margens de belas praias, coisa que não existe em Arez?
Quem entende um pouco da História do Rio Grande do Norte sabe que o grande problema de Arez, em relação ao seu desenvolvimento econômico e turístico, é que a cidade nasceu bastante afastada da principal rodovia de nossa região, a BR-101, como já foi citado, além de, infelizmente, ser um município situado bem distante das margens das belas praias do Atlântico. Por isso, Arez cresce e se desenvolve em seu ritmo próprio, no ritmo de uma cidade do interior, pequena, sem possuir grandes recursos turísticos, sem ter grandes indústrias, sem reservas de minerais preciosos – que porventura contribuíssem para alavancar o crescimento econômico –, sem uma topografia propícia a esportes radicais (outro importante atrativo turístico na atualidade), etc.
Apesar disso, sabemos que existem tentativas recorrentes, desde a gestão da Prefeita Lucia Santos (2001-2008), e mais fortemente agora, na gestão do Prefeito Erço Paiva (2009-2012), de alavancar o desenvolvimento do turismo em Arez, especialmente depois que o Governo Federal/Embratur concedeu ao nosso município, no ano de 2001, o Selo de Município Prioritário para o Desenvolvimento do Turismo, um título que ajuda na aquisição de mais verbas que possibilitem o crescimento de nossas atividades turísticas.
Sendo assim, aproveito esse espaço para convidar aos leitores a virem conhecer, em nossa Arez, o Frontal do Cemitério Histórico (de 1882), tombado pelo IPHAN como Patrimônio Histórico Nacional (Turismo Religioso); que venham conhecer a Ilha dos Flamengos, habitada pelos holandeses que invadiram Arez entre 1634 e 1652 (Ecoturismo); e que venham participar de nossas grandes Festas Populares: em junho (festa do padroeiro, São João) e dezembro (festa da padroeira), além de conhecerem os famosos bordados de Labirinto produzidos na cidade, e usufruírem das delícias de nossas comidas típicas (Turismo Folclórico), etc. E mais: procurando sem pressa, os turistas vão achar, sim, ainda que pequenos e acolhedores, restaurantes e pousadas em Arez.
Avaliando os atrativos turísticos desse município, a escritora Anna Maria Cascudo (1972: 15) observa que as “possibilidades turísticas [de Arez], hoje em dia, se prendem mais à parte das suas imagens preciosas e monumentos históricos”. Particularmente sobre as estátuas dos 3 Reis Magos (do Século XVII), tombadas como Patrimônio Histórico Nacional – abrigadas na Igreja de São João Batista –, ela ressalta que “são famosas pela sua beleza” e que “são dignas de visita”.

2. Sobre a origem do nome Arez:

III-) Silvio Menezes comete ainda outro erro ingênuo em seu artigo, “Arez em Foco: Cidade Tornou-se uma Ilha de Atraso”, quando observa que: numa pesquisa rápida pelos “veículos de comunicação” do Estado, encontrou o nome da cidade de AREZ grafado de 3 formas diferentes (como Arez, Arês e Ares). Primeiramente, não existe “pesquisa” rápida! A pesquisa é um trabalho que, necessariamente, demanda bastante tempo, é necessário um tempo longo para se levantar dados, depois, para analisá-los, confirmar hipóteses e, por fim, publicar seus resultados.
Afora isto, Menezes ainda complementa que, logo depois da superficial “pesquisa rápida” feita por ele nos jornais do Estado, notou inclusive que o nome de Arez é “muitas vezes escrito de formas diferentes num mesmo veículo de comunicação”, e conclui, ingenuamente, que a culpa disso é dos “governantes e legisladores” da cidade. Ou seja, ele acha que é culpa dos governantes de Arez que os jornais de Natal tragam a grafia do nome do município às vezes correta e, por vezes, incorreta.
Basta uma avaliação menos rápida e menos “superficial”, senhor Silvio Menezes, para se entender, aliás, com bastante facilidade, que a culpa dos artigos de jornais não trazerem corretamente o nome das cidades, e inclusive das demais palavras da nossa língua portuguesa, é apenas do jornalista que escreve tais reportagens. É óbvio que cada repórter é responsável por suas “pesquisas rápidas” e por escrever certas palavras erradamente em seus artigos.
Em outras palavras: se eu sou um repórter que quer escrever algo sobre Arez, e sei fazer “pesquisas”, é certo que eu tenho a obrigação de descobrir qual é a grafia correta do nome dessa cidade. Portanto, se um jornalista qualquer escreveu, numa mesma reportagem, o nome de Arez de 3 formas diferentes, significa que ele não “pesquisou” qual a forma correta do topônimo, não se preocupou com isto, e errou! Esta ocorrência Silvio Menezes percebeu e criticou, porém, apontando a culpa para outro lado, que não o de seus companheiros de profissão…

Por que a cidade é chamada de Arez?

Em relação a esse antigo problema de Etimologia , como é comum na atualidade recorrer-se imediatamente à Internet, devo esclarecer que na Wikipédia, uma inusitada “enciclopédia” virtual de construção coletiva, encontramos o nome de Arez grafado de duas maneiras diferentes, ainda que ele seja escrito da mesma forma tanto em Portugal quanto no Brasil:
a)
Existe o verbete intitulado AREZ, com a letra /z/ no final, referindo-se apenas à pequenina freguesia localizada em Portugal (http://pt.wikipedia.org/wiki/Arez). Nesse site, descobrimos que a Arez portuguesa é um povoado situado oficialmente no município de Nisa, desde 1836, e que possui 362 habitantes (dados de 2001); Nisa, por sua vez, pertence ao Distrito de Portalegre, na sub-região do Alto Alentejo.
b)
Ao mesmo tempo, encontramos também naquela “enciclopédia” virtual um verbete que trata especificamente da nossa Arez potiguar, o pequeno município do Rio Grande do Norte aqui em questão (http://pt.wikipedia.org/wiki/Arês), no entanto, ainda que sejam palavras homônimas, a Wikipédia escreve o nome de nossa Arez brasileira de forma errada, grafando-a como ARÊS, com /s/ no final e acento circunflexo /^/ na letra /e/.
Isto significa que para quem é adepto das “rápidas pesquisas” feitas via Internet, deve-se tomar cuidado com a veracidade das informações contidas na Wikipédia, pois, de acordo com o exemplo acima, notamos que ao invés de contribuir para tirar a dúvida, sobre a escrita do nome de Arez, o que aquela “enciclopédia” faz, na verdade, é confundir os leitores.
Em termos de leis, podemos assegurar que segundo decisão da Câmara Municipal de nossa Arez, a potiguar, de acordo com uma emenda à Lei Orgânica do município (datada de 05/03/1993), o nome da cidade foi definitivamente oficializado, em nível municipal, como sendo AREZ, com /z/ ao final, da mesma forma como se escreve o nome da freguesia portuguesa, que foi aqui homenageada por ordem do Marquês de Pombal, como já citado. A referida emenda ainda dispõe que “deverão ser notificados todos os órgãos de direito”, e está inclusive publicada no livro de João Alfredo de Lima, Anotações Sobre a História de Arez (2000: 29). Antes disso, em nível estadual, desde 29/03/1938 o Interventor Federal Rapahel Fernandes Gurjão (Decreto nº 457) já havia “elevado”, oficialmente, a “Villa de Arez” – escrita com /z/ no final –, à categoria de “cidade”.
Quem entende um pouco da História do Rio Grande do Norte sabe que em 15 de junho de 1760, há 250 anos, por ordem de Sebastião José de Carvalho e Melo (1699-1782), o Marquês de Pombal, um antijesuíta famoso , foi decido que aqui, neste nosso município, não haveria mais a “Missão de São João Batista de Guaraíras”, e sim, a Nova Villa de Arez, numa inexplicável homenagem ao pequeno povoado de Arez localizado em Portugal.
Porém, persiste ainda outra grande dúvida, que remete a um problema cuja resposta, até hoje, continua obscura: qual é a origem ou o significado da palavra Arez?

Afinal, o que significa Arez?

Tanto a origem da palavra Arez é obscura quanto seu significado; parece até mesmo que é impossível fixar seu étimo. Entretanto, existem várias hipóteses, entre plausíveis e implausíveis, acerca do significado desse nome. Aliás, há que se ressalvar que nem mesmo o célebre etimologista potiguar Câmara Cascudo teve êxito em suas pesquisas acerca da origem do topônimo . Em seu livro Nomes da Terra, Cascudo descreve toda a História da mudança que houve na toponímia da antiga Missão de Guaraíras, rebatizada em 1760 como Arez, no entanto, em se tratando do significado do nome deste município potiguar, nota-se que aquele historiador não conseguiu defini-lo.
Antes de apresentar as 5 hipóteses mais conhecidas na atualidade sobre a origem e o significado da palavra Arez, é preciso assinalar que não é obrigatório que nós tenhamos que acreditar ou apontar uma dessas hipóteses como sendo “a verdadeira”, como definindo “a verdade” dos fatos. Nesse caso, como é ainda um enigma a definição do nome de Arez, o mais importante é conhecer quais são as hipóteses existentes na literatura, compreendê-las, sem a pressuposição de que, necessariamente, deva existir “uma” que seja “a verdadeira”.
É preciso enfatizar, portanto, que as cinco hipóteses analisadas a seguir são apenas suposições, e todas elas, igualmente, são carentes de comprovação pela via de fontes históricas :

1) A Câmara Municipal de Nisa (Portugal), município no qual se localiza o povoado de Arez, levanta duas hipóteses sobre a origem e significado do nome de Arez (www.cm-nisa.pt). A partir da leitura do referido escrito fica claro, logo de antemão, que na própria Arez portuguesa não se sabe ao certo a origem da toponímia.
A palavra Arez – que também já foi escrita como Ares – poderia ter sido originada em referência aos bons “ares” do lugar. Porém, tal hipótese é imediatamente descartada, no próprio documento em questão, e tida como “inaceitável”. Particularmente, não tive tempo ainda de visitar a freguesia portuguesa de Arez, entretanto, até onde eu saiba, por meio de consulta a amigos que residem próximos àquele local, realmente são “bons” os ares daquele povoado.
2)
Outra hipótese, também apontada pela Câmara de Nisa, é que o nome de Arez poderia ser uma homenagem a um dos mais importantes deuses da época pré-romana: Arêncio (ou Arentius), e que da palavra Arentius, por corruptela, teria nascido o topônimo Arez (ou Ares). Esta suposição é duvidosa e carente de comprovação nas fontes históricas atualmente disponíveis (ver Salvado et al., 2004), tal como ocorre com as demais hipóteses aqui analisadas. No entanto, devemos enfatizar que a hipótese não pode ser declarada inválida, ainda que, até hoje, ninguém apresentou meios de confirmar a possibilidade dela vir a ser verdadeira.
3)
Mais uma hipótese acerca da origem do nome Arez, que é bastante interessante, pode ser encontrada na Wikipédia, no verbete do município de Nisa (http://pt.wikipedia.org/wiki/Nisa). De acordo com o texto ali exposto, a palavra Arez pode ter-se originado em virtude da ocupação francesa naquela região de Portugal, ocorrida no início dos anos 1200. Inclusive, das 5 hipóteses mais conhecidas e aqui avaliadas, esta me parece ser a mais plausível, ainda que não se possa considerá-la como sendo verdadeira.
Partindo-se dessa hipótese, atribuída pelo documento ao pesquisador Carlos Cebola, naquele início do Século XIII colonos franceses passaram a habitar a região de Nisa (antigamente, chamada também de Nissa), atendendo à necessidade de fixar moradores naquela parte desabitada da Península Ibérica. Na medida em que fundavam seus povoados, batizavam-lhes com nomes de sua terra de origem, tal como ocorreu no caso de Nisa, que teria sido ocupada por colonos provenientes de Nice, cidade ao sul da França.
O mesmo ocorreu com a freguesia de Tolosa, também pertencente ao município de Nisa, que foi, provavelmente, fundada por ex-moradores da cidade francesa de Toulouse. E, por extensão, acreditam alguns estudiosos portugueses que o mesmo também teria acontecido com a freguesia de Arez (ou Ares), que teria sido edificada, segundo essa hipótese, por antigos moradores de Arles. As três localidades portuguesas citadas, Nisa, Tolosa e Arez, teriam sido batizadas, portanto, em homenagens a cidades do sul da França (Nice, Toulouse e Arles).
4)
Há também a admirável hipótese do escritor potiguar Cleudo Freire.     De acordo com a interessante pesquisa etimológica realizada por Freire, exposta em seu artigo “Arez: O Nome da Terra” (O Poty, 02/09/2007), o significado da palavra Arez poderia ter origem na palavra Terra, tal como esta é grafada na língua hebraica: Há-Érets, referindo-se à “Terra Prometida” pelo Deus Javé ao povo judeu, nos tempos de Moisés e do Êxodo, cujo relato encontra-se no Antigo Testamento bíblico. Freire acredita que nos anos 1700 e 1800 Arez tenha sido habitada por judeus, sobretudo de origem portuguesa, convertidos à força ao catolicismo – os chamados “cristãos-novos” –, e que estas pessoas poderiam ter influenciado na instituição do nome do município.
Considero a hipótese de Cleudo Freire muito bela, e acredito que ela pode vir ainda a ser, algum dia, provada como estando correta. No entanto, igualmente às outras 4 hipóteses aqui analisadas, a proposição freireana não pode ser admitida como verdadeira, por falta de comprovação documental, assim como, da mesma forma que as demais suposições, não pode ser descartada como falsa.
É verdadeiro afirmar que uma pesquisa etimológica que venha a confirmar a origem da palavra Arez e, talvez, comprovar se a sua definição viria da palavra Terra (em hebraico, demonstrando-se uma possível influência judaica), somente pode ser empreendida estudando-se, em arquivos históricos de Portugal, a documentação que trate da Arez lusitana. No entanto, é preciso reconhecer que a admirável hipótese de Cleudo Freire, sem dúvida alguma, nos oferece um riquíssimo tema para a investigação histórica, seja para pesquisadores do Brasil ou de Portugal, seja para os arezenses – potiguares ou lusitanos – interessados no resgate de suas origens. Inclusive, esse assunto do “exílio” forçado de “cristão-novos” em terras norte-rio-grandenses, e no Nordeste, de modo geral, vem sendo estudado com bastante entusiasmo na atualidade [ver: Gonsalves de Mello (2001: 258 a 275); Câmara Cascudo (2001b: 90 a 111); Medeiros Filho (1981); Egon e Frida Wolff (1984); e Lourdes Ramalho (2002)].
5)
Partindo de minhas pesquisas sobre a origem e o significado da palavra Arez, e tomando por base o Foral de Marvão, de 1226, o mais antigo documento histórico conhecido a citar o nome da Arez lusitana (Portugal, 1964: 505), escrito naquela época como sendo Ares (com /s/ no final), levanto então minha própria hipótese: a de que o nome daquela pequena freguesia portuguesa pode ter sido uma homenagem ao mitológico Ares, o impiedoso deus grego da guerra (Sales, 2010).
No entanto, tal como as demais hipóteses, a minha também carece de comprovação documental, pois da mesma forma que não há provas, por exemplo, de que tenha havido o culto ao casal de deuses pré-romanos Arêncio e Arência naquela região – onde se encontra a Arez lusitana –, o que pode a vir a invalidar a hipótese de esta toponímia ser uma homenagem ao deus Arêncio, também não há provas de que o deus grego Ares tenha sido ali cultuado. Desse modo, igualmente às hipóteses anteriores, minha suposição nem pode ser declarada como sendo verdadeira e nem pode ser descartada, como estando errada. Talvez, como todas as conjecturas aqui avaliadas, essa hipótese pode também, algum dia, ser revelada como estando correta.
A única alternativa que nos resta é esperar que, a partir de outras pesquisas, em breve apareçam provas concretas acerca da origem e do significado do nome daquela freguesia portuguesa e, em conseqüência, de nossa Arez norte-rio-grandense.
Para concluir este assunto, e para não ser acusado de ter esquecido alguma outra hipótese, lembro que o escritor potiguar João Alfredo de Lima Neto, em seu livro Anotações Sobre a História de Arez, lançou a proposição de que o nome Arez: “Significa dente do mestre, supõe-se alguma divindade remotíssima” (2000: 29). No entanto, esse autor não cita a fonte documental da qual teria retirado tal suposição, o que torna a sua conjectura não inválida, mas, carente de comprovação histórica; ou seja, até hoje, ninguém apresentou meios de confirmar se esta proposição tem alguma lógica que, pelo menos, a sustente como uma hipótese válida para análise.

3. Voltando às falhas do artigo de Silvio Menezes:

(IV-) Afora estes erros e deslizes até aqui analisados, que o jornalista Silvio Menezes comete em seu referido artigo (“Arez em Foco: Cidade Tornou-se uma Ilha de Atraso”): sobre o nome de Arez ser pouco conhecido por alguns repórteres, talvez iniciantes na atividade, e sobre a impossível existência de Agências Bancárias e de Hotéis, Restaurantes ou Churrascarias de “bom porte” na pequenina Arez, Menezes resolve também enveredar para as discussões de política partidária. Entretanto, ele não se preocupa em usar o seu espaço literário para ensinar aos leitores sobre os seus conceitos de como se deve fazer política, uma atividade social que necessariamente deve ser exercida em prol de toda a sociedade e de forma honesta/ética.
Como já foi citado, Menezes critica o município de Arez por ser uma “Ilha de Atraso”, o que não é verdade. E ainda acusa aos governantes de Arez (Prefeito e Vereadores) de serem arcaicos, clientelistas e fisiologistas. Nas palavras de Silvio Menezes: “Enquanto Arez for administrada e legislada da forma arcaica que vem sendo há tanto tempo, com uma postura clientelista e fisiologista baseada num modelo ultrapassado de fazer política, verá as cidades ao redor crescerem e desenvolverem, ficando pra trás”. Quanto ao crescimento das cidades “ao redor”, já foi explicado acima que Menezes comete uma falha, e demonstra ingenuidade, ao querer comparar o desenvolvimento econômico e turístico da “pequenina” Arez com os municípios vizinhos.

As acusações de Clientelismo, Fisiologismo e Arcaísmo:

Quanto às acusações de arcaísmo, clientelismo e fisiologismo, segundo o Dicionário Houaiss – considerado pelos filólogos como o melhor do Brasil: clientelismo é um “regionalismo brasileiro”, uma palavra de uso “pejorativo” (ou seja, “depreciativo, aviltante”), que significa: uma “prática eleitoreira de certos políticos que consiste em privilegiar uma clientela (‘conjunto de indivíduos dependentes’) em troca de seus votos; troca de favores entre quem detém o poder e quem vota” (2009: 479). Ou seja, esta é uma acusação que merece provas por parte de quem acusa, se é que o acusador deseja realmente que isto seja verdadeiro.
Fisiologismo
, por sua vez, é um “regionalismo brasileiro”, também uma palavra de uso “pejorativo” (“depreciativo, aviltante”), e que significa: a “conduta ou prática de certos representantes e servidores públicos que visa à satisfação de interesses ou vantagens pessoais ou partidários, em detrimento do bem comum” (Houaiss, 2009: 900). Como já citado, o jornalista Menezes se ocupa em criticar, mas não se preocupa em ensinar aos leitores sobre os quais são os seus conceitos acerca de como se deve fazer política de forma honesta e ética, em prol de toda a sociedade – o chamado “bem comum” –, uma atividade que sempre deve estar acima do individualismo egoísta.
E arcaico, por fim, é um adjetivo que nomeia algo “que pertence a ou evoca tempos remotos; antigo; que se refere a uma fase ou a fases anteriores ao período de estabilidade ou de maturidade de uma cultura, organização social, estilo artístico, língua etc.” (id., 2009: 176). Posto então o significado correto da palavra arcaico, a acusação mais leve de Silvio Menezes contra Arez, esse trecho de suas insinuações também nos leva a questionar a sabedoria do referido autor.
Ou seja, para Menezes acusar os governantes e legisladores de Arez de arcaicos, nosso município haveria de já estar, hoje em dia, em seu patamar de “período de estabilidade ou de maturidade de uma cultura, organização social”, patamar este ao qual um dia chegaremos, se Deus quiser!
Porém, ainda não chegamos a esse patamar de estabilidade/maturidade, em termos de organização social e, sendo assim, nãonão podemos atribuir à cidade, ou à sua administração política, o conceito de arcaico ou de progressista. Isto quer dizer que ao acusar Arez de arcaica, Menezes comete um anacronismo, pois se utiliza de uma palavra fora de contexto, e, portanto, erroneamente. Ou ainda: a palavra “arcaico”, neste caso, não se aplica à análise da organização social da pequenina Arez, o que vem a ser outra falha ingênua do autor em questão.
podemos comparar um passado de atraso com um presente estável. Por isso mesmo,

4. Conclusão:

Silvio Menezes acerta, finalmente, quando reclama em seu artigo que “não pega sinal de celular direito na cidade [de Arez]”, e está certo quando enfatiza que “usuários de Claro e Oi [operadoras de telefonia móvel] sofrem com a péssima qualidade do sinal, e os da Tim sofrem um pouco menos, porém o sinal deixa a desejar”. Sabemos que apesar de existir uma torre de retransmissão na entrada de Arez, na BR-101, a 5km da cidade, não se explica porque, realmente, os telefones móveis são tão falhos em nosso município. Menezes sugere que “a culpa é do comodismo da população arezense que não cobra uma ação mais eficaz do prefeito e dos vereadores junto às operadoras”.
Por fim, no artigo de Menezes não se consegue perceber, infelizmente, quais são as propostas políticas que embasam as suas críticas. E a falta de espaço não é desculpa, já que ele é o Diretor do jornalzinho RN em Foco. O autor citado apenas lança para o alto, ao final de seu texto, o mais velho “chavão” que conheço – quando o político não tem fundamento para suas críticas –, ao assinalar que: “falta uma administração capaz de investir em infra-estrutura e atrair investimentos no turismo, gerando emprego e renda para a população”. E este “clichê” político, como se sabe, cabe em qualquer lugar, ou seja, pode ser aplicado a qualquer município, dos mais de 5 mil que o Brasil possui…

 

5. Referências:

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Escritor, estudioso da História e da Cultura de Arez, tem bacharelado e mestrado em Serviço Social. Atualmente, é assessor de cultura do Prefeito Municipal (Dr. Erço Paiva), assistente social da zona rural de Arez e sócio efetivo da União Brasileira de Escritores (UBE/RN).

Etimologia é o estudo da origem e da evolução das palavras, em diferentes estados anteriores da língua, quer na forma mais antiga conhecida, quer em alguma etapa de sua evolução, até chegar ao étimo: o termo que serve de base para a formação de uma palavra – pode ser uma forma antiga, do mesmo idioma ou de outro, de que se origina a forma recente (Houaiss, 2009: 847).

Ver: Franchini Neto, O Marquês de Pombal e o Brasil (1981).

As habilidades etimologistas de Câmara Cascudo são incontestáveis, e há exemplos espalhados por toda a sua erudita obra: como ocorre em seu interessante livro Made in África (de 1965), que é um trabalho eminentemente de etnografia, no qual o autor expõe diversos pontos de contato entre a cultura popular brasileira e a africana, mas que também demonstra as preocupações de Cascudo com a origem e o significado das palavras, percorrendo em suas análises, inclusive, diversos idiomas; também serve de exemplo o seu Ensaios de Etnografia Brasileira (de 1971). Já o livro Nomes da Terra, de 1968, é um verdadeiro “Tratado” de Etimologia norte-rio-grandense.

Remeto o leitor a meu texto: “Arez/RN e sua Etimologia: Origem e Significado Obscuros da Toponímia” (Sales, 2010), no qual analiso em detalhes estas cinco hipóteses mais conhecidas acerca da gênese do nome Arez.

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