A COLHER NA BOCA (1953-1960)

TRÍPTICO – III

Todas as coisas são mesa para os pensamentos

Onde faço minha vida de paz

Num peso íntimo de alegria como um existir de mão

Fechada puramente sobre o ombro.

- junto a coisas magnânimas de água

E espíritos,

A casas e achas de manso consumindo-se,

Ervas e barcos altos – meus pensamentos criam-se

Com um outrora lento, um sabor

De terra velha e pão diurno.

E em cada minuto a criatura

Feliz de amor, a nua criatura

Da minha história de desejo,

Inteiramente se abre em mim como um tempo,

Uma pedra simples,

Ou um nascer de bichos num lugar de maio.

Ela explica tudo, e o vir para mim –

Como se levantam paredes brancas

Ou se dão festas nos dedos espantados das crianças

– é a vida ser redonda

Com seus ritmos sobressaltados e antigos.

Tudo é trigo que se come e ela

É o trigo das coisas,

O último sentido do que acontece pelos dias dentro.

Espero cada momento seu

Como se espera o rebentar das amoras

E a suave loucura das uvas sobre o mundo.

-e o resto é uma altura oculta,

Um leite e uma vontade de cantar.

CINCO CANÇÕES LACUNARES

CANÇÃO EM QUATRO SONETOS – I

A maçã precipitada, os incêndios da noite, a neve forte:

E a rude beleza da cabeça.

- quem ouvirá em que planetas esta imagem

Da minha morte, quando eu abrir o lenço

Sobre o coração terrível e suspenso?

Uma criança de sorriso cru

Vive em mim sem dar um passo, amando

Respirar em sua roupa o cheiro do

Do sangue maternal. O vício do sono

Apouca as frias glicínias

Do seu cabelo inocente,

Inocente. Ela não sofre e apenas sente

A máquina que é, com cabeleira e dedos cheios

De energia rápida: a magia, os segredos.