Rizolete Fernandes, mrizolete@yahoo.com.br

No percurso entre minha casa e o calçadão da avenida onde, diariamente, caminho, moradores de um dos quarteirões costumam pôr cadeiras na calçada nos finais de tarde, um pouco para fugir ao calor do interior dos lares, no início do ano, mas, sobretudo, para conversar, esperando chegar a noite.

Muito comum nas cidades do interior, o hábito dos vizinhos natalenses logo ganhou a minha simpatia, por recordar minha infância em Caraúbas (aquela que já foi do Apodi), cidade que me viu nascer. Lá, até hoje, quando das minhas visitas, vivencio as últimas horas da tarde sentada na calçada, conversando com familiares e amigos e desfrutando o frescor e o cheiro do Vento Nordeste. Mas voltemos à Natal.

Outro dia, ao passar por esse quarteirão, percebi que uma senhora, já idosa, tentava descer a calçada de sua moradia para ir se juntar ao grupo que conversava no outro lado. Portava uma bengala e tinha dificuldade de se locomover o que fez com que deixasse de lado minha timidez e decidisse me colocar à disposição para ajudá-la, mas, ao me aproximar, fui surpreendida com sua ordem, muito mais que pedido, proferida com a autoridade que tantos anos de vida lhe outorgava: “venha aqui, atravesse comigo a rua!”.

Prontamente dei-lhe o braço, dizendo do meu prazer em atendê-la e fizemos em alguns minutos um percurso que normalmente eu cobriria em dez passadas. Apontei-lhe um lugar que achei fosse o mais adequado para acessar o local que queria, mas ela, decidida, mostrou-me outro, mais fácil de subir, pelo qual a conduzi (ela sabia por onde andava!). Depois de sentada, agradeceu-me sorridente e parti. Iniciava-se ali uma série dessas travessias, tarefa de minha parte executada sempre com satisfação e carinho.

Algumas tardes depois, regressando do meu passeio, quando despontei na esquina, vi que a velha senhora, em pé e apoiada em sua bengala, ao me avistar, caiu na gargalhada. Ria com gosto e estrepitosamente, como se acabasse de ouvir a piada mais engraçada, ou como se estivesse vendo a cena mais risível do mundo. Não entendi nada e fui me aproximando, desconfiada. A poucos metros, dirigindo-se a mim, ela disparou: “Eu sabia que você estava vindo, para me ajudar a voltar. Já estão todos levando as cadeiras para dentro, mas eu estava lhe esperando. Deus me ouviu, Ele é muito bom comigo!” e continuou rindo, enquanto me estendia o braço.

Fiquei espantada e meio atrapalhada, na hora. Como é que um simples gesto de apoiar a travessia de uma rua pode ser tão importante para alguém? A confusão maior, naquele momento, deveu-se à percepção de quão descuidados e desatenciosos somos, na maioria das vezes, para com as pessoas mais velhas, às vezes familiares, outras apenas conhecidas, ou vizinhas, como Dona Vanja, que, afinal de contas, se satisfazem com tão pouco da atenção que podemos oferecer!

Um pouco mais tarde, neste mesmo dia, como de praxe, fui matar a saudades dos carnavais antigos, ouvindo frevos e ritmos afins executados por artistas da terra, dentro da programação prévia ao carnaval da cidade, nas proximidades.

Naquela noite, antes de adormecer, os acordes das marchinhas cantadas por Glorinha de Oliveira, na exuberância de seus 80 anos, se confundiam, na minha cabeça, com os acordes das gostosas e potentes gargalhadas espalhadas no quarteirão pela espontaneidade da simpática Dona Vanja.