RIO DAS FACES

Tanto que fui

Conto a soma de poucos.

Alguns nunca tiveram semblante.

Dissiparam-se nas horas

- nem cinzas fiquei.

Outros devastaram cidades

e (santa ironia!)

evaporaram em loucura quase mítica.

Muitos que sou

Ficaram à margem de ser.

Ao menos tivessem cicatrizado

seu corte.

Teriam sido passagem

corpo e nome

aluguel de meu alguém.

Perdi-me entre muitos.

Fico sem mim.

Alguns poemas apenas sujeitam

pegadas, e eram respirações…

Foram tantos tão pouco.

Mesmo em outros.

Que nem desdobrar sei

este agora eu

(de quem)

fixado contra o rosto.

ELIPSE

Sem tua letra sobre o corpo

olhares se inclinam em sombras

ocas contra a madrugada

crescem os animais da vontade.

Nomeio lobos dopados em tua procura

Mas longo voltam com sede

E se acobertam na carne.

Várias noites perfumei

com as lanças do lirismo conflagrado

nas esquinas.

Tua presença chegava

pelos rumores da cidade.

Sofri. Calei.

Vesti o manto para sair ao dia.

Memória adormecida sob a cal dos tetos

construo horas oblíquas

brinquedos sem utilidade.

Digo teu nome

em ondas na saliva.

Sem a letra sobre o corpo

Sem o corpo ao alcance da letra

Giram satélites

Recíprocos

Feridos de ausência.